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Entrevista. Kaká, meia do São Paulo

Em entrevista exclusiva, craque fala da alegria de voltar ao São Paulo antes de defender o Orlando City

'Estou muito empolgado com minha volta'

Fernando Faro

01 Setembro 2014 | 07h 00

 "Cara, estou muito empolgado". Foi com um largo e verdadeiro sorriso que Kaká falou sobre sua volta ao São Paulo após 11 anos na Europa. O craque fica até o fim do ano no Morumbi antes de embarcar na aventura de jogar nos Estados Unidos, mas vive intensamente cada momento no clube.

Na longa conversa com o Estado, Kaká fala sobre a alegria de voltar, sua importância para transformar o São Paulo novamente em um grupo forte e alerta: o futebol brasileiro precisa mudar para não ficar para trás.

Onze anos depois, o que mudou em você, no São Paulo e no futebol brasileiro?

Eu amadureci muito, foi uma experiência muito rica em dois países diferentes. Volto casado e com dois filhos, tendo atingido títulos e o topo do futebol mundial com o prêmio de melhor do mundo, todos os prêmios coletivos. No São Paulo a estrutura melhorou muito; já era excelente e se renovou ainda mais. O futebol brasileiro é a maior preocupação porque temos muito o que melhorar, do planejamento à organização, uma série de fatores que faltam para o futebol brasileiro ser o melhor do mundo de novo.

Ainda tendo lenha para queimar, por que resolveu passar mais tempo nos Estados Unidos do que no Brasil?

Minha escolha foi de querer fazer parte do futebol americano. Falo com base nos números, a média de público foram de 18 mil pessoas contra 13 mil no Brasil, existem 25 milhões de jovens americanos entre sete e 17 anos praticando futebol e 70 milhões de pessoas dizem que curtem o esporte. Passei em clubes de tradição, estou indo para um futebol que está crescendo e num clube que está nascendo. Queria um pouco essa novidade na minha carreira. Declarei que gostaria de jogar nos EUA e não havia o Orlando e a forma como está hoje, as coisas caminharam; claro que passa por uma questão pessoal, mas não é só isso.

Qual a sensação de voltar ovacionado pela mesma torcida que te vaiou em 2003?

Minha volta foi sensacional e demonstra que não há nenhuma amargura nem da torcida e nem minha, não houve rejeição de nenhuma parte. A apresentação foi demais, meu desejo de voltar sempre foi ao São Paulo e foi a demonstração de que eu e o torcedor são-paulino queríamos.

Felipe Rau/Estadão
Kaká pode ficar até o meio do ano que vem no Tricolor

Nesse tempo fora, recebeu propostas de muitos clubes brasileiros? Aceitaria jogar em outro time?

Em nenhum momento cogitei voltar ao Brasil, nunca passou essa possibilidade. Quando surgiu a chance, fui sondado por alguns clubes brasileiros, mas nunca tive o desejo de voltar, então agradecia e não prolongava as conversas. Quando as coisas caminharam para uma volta, falei para meu pai, que também é meu empresário, "pai, a prioridade é o São Paulo. Converse com eles e faça de tudo para dar certo". Minha prioridade sempre foi o São Paulo.

O impacto da sua volta é sentido em todos os aspectos do clube, você consegue enxergar isso?

Vou vendo isso no dia a dia; a forma como os mais novos me olham, esse convívio. Aos poucos isso vai passando e eles me veem como um jogador do elenco. Para os mais novos eu tento passar esse senso de profissionalismo, de chegar cedo, fazer meus treinos, cumprir os horários e fazer o que preciso e mostrando vontade nos treinos e jogos.

E o relacionamento com os meninos da base?

É muito legal. No começo fiz alguns coletivos contra a base e no fim eles querem tirar foto e conversar, saber um pouco como são as coisas. Acho muito legal porque um dia já estive na posição deles e hoje é o contrário; fico feliz que eles me veem como referência.

E os adversários?

Sinto que há um respeito, mas muitos dos que estão jogando eu já joguei na seleção ou enfrentei quando passei no São Paulo. Contra o Santos, por exemplo, encontrei o Edu Dracena, que foi da base comigo, e o Arouca.

Mas muitos devem pedir sua camisa...

Pedem (risos), mas muitos são amigos. Contra o Inter troquei com o Juan e o Alex, que joguei na seleção. O Robinho me mandou uma camisa...é uma coisa legal, bacana.

Ascensões meteóricas como a sua podem ser prejudiciais para um jogador jovem?

Tenho que agradecer muito aos meus pais pela base que me deram. Existem muitas situações em que você se empolga muito fácil. Tive muitos momentos assim e foram meus pais que me ajudaram a manter os pés no chão, depois que casei minha esposa também passou a me ajudar muito nesse sentido. Eles diziam "não é porque você ganhou o prêmio de melhor do mundo que você precisa se achar melhor o tempo inteiro". Essa base é fundamental, estar rodeado de pessoas para, quando você der uma levantada, falarem que não é bem assim. No começo da minha carreira eu me empolgava muito e levei algumas boas cortadas.

E você passa essa experiência para os mais novos?

Em geral procuro conversar, mas a conversa às vezes não surte tanto efeito quanto a demonstração prática, mas sempre que possível falo um pouco com eles para mostrar os caminhos.

Nota-se que você está visivelmente feliz com essa volta...

Cara, estou muito empolgado, super feliz. Onze anos morando fora, quando você volta e reencontra os amigos, tem uma vida social e pode jantar com pessoas que cresceram comigo, vivendo de novo essas rotinas...está sendo muito legal. Essa volta está me ajudando bastante pessoal e profissionalmente.

Se o Orlando liberar e depender de você, fica para a Libertadores se o São Paulo se classificar?

É algo para se pensar mais para frente. Estou muito focado nesse momento, o que vai acontecer agora, no Brasileiro. Depois vamos ver o que vai acontecer, vamos deixar caminhar e ver o que vai acontecer.

Você sofreu bastante no Real, mas mesmo assim ficou quatro anos. Por quê?

Os vínculos que tive na minha vida sempre foram muito longos e preservo isso. Fiz tudo o que estava nas minhas forças e consciente do que estava fazendo. Não saí antes porque achava que podia ir um pouquinho mais. Os quatro anos que passei lá foram muito bons, fiz quase 130 jogos, 32 gols, três títulos...até eu decidir ter um pouquinho mais de continuidade. O time rodava muito e achava que precisava de uma sequência maior para ter chance de disputar a Copa. Por isso decidi sair.

Acha que jogou o suficiente para ter uma chance no Mundial?

Essa escolha é muito difícil, falar se deveria ou não estar. Acho que tive uma boa temporada no Milan no número de jogos e na qualidade, mantive a continuidade sem lesões. Se isso era o suficiente ou não é uma coisa que ten que deixar para o técnico, que era o Felipão.

E isso te frustrou?

De forma alguma. Justamente por ter feito tudo o que estava ao meu alcance; mudei de clube, sempre tive profissionalismo e luta para ter uma boa regularidade de jogos no Milan para ver se esse prêmio chegava. Não chegou e não tenho frustração nenhuma porque fiz tudo o que era possível.

O vexame da Copa indicou que o futebol brasileiro está atrasado?

O resultado final é exagerado numa semifinal, mas serve de alerta no sentido de organização e planejamento. O futebol precisa se organizar e planejar melhor em todos os aspectos e implantar isso. Depois isso irá refletir na seleção, mas seleção é uma coisa e futebol brasileiro é outra, mas no fim elas acabam interagindo. Para o futebol, essa derrota é um alerta para mostrar que o futebol brasileiro está ficando para trás em relação a outros países.

Felipe Rau/Estadão
Meia vê futebol brasileiro ficando para trás

E taticamente?

Não acho que a parte tática seja um problema. A Copa foi legal por causa disso, vimos uma série de variações de esquema com a ocupação de espaços e o que mais me chamou atenção, especialmente na final, foi que foram seleções que se mantinham a maior parte do tempo organizadas. Com o passar do tempo no jogo você acaba cansando, ou sofre um gol e a equipe sai muito. Essas duas não, assisti ao jogo e foi uma aula. A organização tática foi impecável.

Você tem ideias práticas que poderiam ser implementadas?

Não tenho, mas a princípio acredito que a principal mudança seja em relação ao calendário, que é muito pesado aqui. Você vê técnicos caindo porque não dá tempo de treinar, você não tem tempo de se recuperar entre os jogos e aumenta o número de lesões, o que diminui a qualidade dos jogos. Se o clube não tem um plantel grande, é muito difícil que o time se mantenha. Acho que os clubes precisam se profissionalizar mais, ter mais gente profissional mesmo, como se fosse uma empresa, com pessoas que olhassem o futebol assim. A parte técnica também, poderiam ser oferecidos cursos que os treinadores precisassem fazer para que ele pudesse entender e se reciclar, trabalhar primeiro na base e depois subir para o profissional. São algumas ideias que poderiam ser executadas.

É possível haver essa mudança com José Maria Marin e Marco Polo Del Nero?

Não sei como eles trabalham, não tive muita relação com eles. É difícil para mim, que estou fora, falar e opinar alguma coisa, é muito mais profundo do que se falar que tem ou não que mudar.

Quando você falou sobre o Bom Senso, deu a impressão de não querer se envolver demais. Por quê?

Gosto do Bom Senso, é um movimento que tem ideias interessantes. O que não quero agora é ser muito específico, dizer "eu sou do Bom Senso e vou fazer isso e aquilo". Estou voltando agora, preciso de tempo para ler o futebol brasileiro, me informar sobre o que está acontecendo para depois tomar uma posição mais firme em relação a tudo isso. Minha postura em dizer que meu apoio é mais amplo em relação ao futebol é porque sou a favor de tudo que for bom para o futebol brasileiro. O Bom Senso procura isso e é legal, estou apoiando, mas não específico. Muitas pessoas da imprensa têm ideias boas e críticas construtivas, é um debate necessário para o futebol brasileiro. No momento estou nessa colheita do futebol brasileiro e ter ideias do que pode ser feito.

A explosão das mídias sociais deixou o jogador mais alienado?

O jogador tem que se adaptar. Quando subi para o profissional, tinha um telefone pré-pago que a patrocinadora nos deu na época. Hoje não, o moleque da base tem o telefone, o Instagram, o Twitter e essa é a realidade e não dá para tirar isso. É preciso educar e ensinar. Isso é uma arma, se é boa ou ruim, se tira sua privacidade ou não depende de como você usará. O clube hoje terá que ter essa educação, indicar como essas redes sociais devem ser utilizadas. Tudo isso contribui; nós mesmos temos essa responsabilidade. Precisamos mostrar que há limite.

Mas não falta um pouco de politização, de uma maneira geral?

Não precisam saber ou ter uma opinião sobre tudo. Somos jogadores e se falarem sobre futebol vamos entender mais do que quando se fala sobre política ou economia, mas um pouco precisa buscar. Precisa saber o que está acontecendo; agora estamos em um momento importante de eleição, é preciso buscar informações sobre os candidatos, essas coisas. Mas não acho que isso seja do jogador, é um pouco do povo brasileiro, é preciso buscar mais informação, hoje é muito fácil. É preciso se informar, senão ficamos refém do que nos falam.

Quando você começou a jogar, imaginou chegar perto do que alcançou?

Nunca imaginei. Quando estava nos juniores e indo para o profissional, dizia que meu objetivo era subir para o profissional e jogar com a seleção uma vez, um único jogo seria suficiente. O que aconteceu comigo é muito mais do que podia pensar e imaginar.

Falta algo ainda?

Sou movido por objetivos, mas eles sempre foram muito específicos. Ser titular do São Paulo, disputar a Copa de 2002...sempre foram específicos. Hoje são mais amplos, eu vim para o São Paulo para fazer parte desse grupo e ao mesmo tempo ajudar que esse conjunto de jogadores seja um grupo muito forte. Se vai ganhar ou não, não sei, mas que esse conjunto vire um grupo muito forte que tenha condições de brigar por títulos. Quero fazer parte desse processo. Quando for para os Estados Unidos, quero ser embaixador da Liga e ajudar o Orlando.

E teria feito alguma coisa diferente?

Não, com certeza. Minhas escolhas sempre foram baseadas nos momentos que estava passando. O sentimento era muito forte na hora de tomar a decisão, como não ir para o Manchester City no começo de 2009. Estava muito seguro; a proposta era sensacional, seria o jogador mais bem pago do mundo, mas estava seguro de que não era o momento. Em julho o clube abre de novo a possibilidade de sair e sabia que se saísse do Milan, gostaria de jogar no Real Madrid. Mesmo no Real, com as dificuldades, estava ciente de que queria ficar e tentar provar para o treinador que eu poderia ser útil. Os momentos em que tomei minhas decisões foram muito seguros.