Brendan McDermid|Reuters
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EUA julgam cartolas acusados por corrupção depois de dois anos

Anúncio de sentenças começa nesta semana; Marin vai para o banco dos réus em Nova York em novembro

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2017 | 07h00

Dois anos e meio depois das prisões que sacudiram o mundo do esporte, cartolas do futebol vão finalmente ser julgados por crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Em um documento apresentado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, a Corte do Distrito do Brooklyn, em Nova York, estabeleceu o calendário dos processos e confirmou que José Maria Marin, ex-presidente da CBF, comparecerá no dia 6 de novembro diante do tribunal para o início de seu julgamento.

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No mesmo dia, o ex-presidente da Conmebol Juan Ángel Napout também estará no banco dos réus. Ambos cumprem prisão domiciliar nos Estados Unidos desde o final de 2015 e são acusados de ter solicitado propinas a empresas em contratos de transmissão para a Copa Libertadores, Copa do Brasil e Copa América. Fontes envolvidas no processo, no entanto, admitem que as datas ainda podem sofrer alterações, principalmente se novas provas surgirem ou se os suspeitos optarem por negociar um acordo de cooperação nos próximos dias.

No total, 42 entidades e dirigentes foram indiciados pelos americanos, em um escândalo que o FBI acredita ter movimentado mais de US$ 200 milhões (R$ 632,6 milhões pela cotação atual) em propinas em diversos países nas últimas duas décadas. Dos 15 acusados que ainda esperam julgamento nos EUA, apenas três deles ainda declaram inocência. Um deles é José Maria Marin.

Diante do impacto do processo, a corte poderá tomar a decisão de manter os integrantes do júri blindados do assédio da imprensa e de uma eventual exposição a pressões dos acusados. Um esquema está sendo montado para que o júri seja transportado a um hotel por policiais, sem que seus nomes ou endereços sejam revelados.

Diante de Marin estará a juíza Pamela Chen, considerada uma “estrela” entre as autoridades federais. Descendente de chineses, ela foi escolhida e amplamente elogiada pelo ex-presidente Barack Obama para assumir o cargo em Nova York.

Não será a primeira vez que ela estará no centro das atenções da imprensa internacional. Desde que assumiu o cargo, em 2013, Pamela Chen já tratou de casos polêmicos, como a tentativa da polícia de Nova York de espionar muçulmanos e a evasão fiscal do ex-deputado americano Michael Grimm.

Além de Marin, outros dois cartolas brasileiros foram indiciados: Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF, e o atual chefe da entidade, Marco Polo del Nero. Ambos não saem do Brasil desde 2015 e, assim, conseguiram evitar a prisão. No caso de Del Nero, seu indiciamento sequer o levou a abandonar a presidência da CBF.

Marin já poderá ter uma noção do que pode ocorrer com ele a partir de quarta-feira. Nessa data, o caso de J. Hawilla, fundador da Traffic e delator da corrupção no futebol brasileiro, será julgado.

No mesmo dia, o ex-presidente da Federação de Futebol da Guatemala Brayan Jiménez saberá a sentença decretada pelo tribunal. Ele admitiu culpa em um esquema que envolvia a cobrança de propinas em troca de contratos de televisão para jogos da seleção do seu país. Seu braço direito na Guatemala, Hector Trujillo, saberá sua punição uma semana depois, no dia 25. O ex-chefe do futebol de Honduras Rafael Callejas será sentenciado pela Justiça dos EUA no dia 15 de dezembro.

No dia 21 de dezembro, será o ex-executivo brasileiro José Margulies que terá sua sentença anunciada. Ele já se declarou culpado, em um esquema de pagamento de propinas envolvendo a empresa Traffic.

DESDOBRAMENTOS

Alguns dos dirigentes mais influentes da Fifa, porém, terão suas sentenças anunciadas apenas em 2018. Depois de vários adiamentos, a corte promete tomar uma decisão sobre Jeffey Webb, ex-presidente da Concacaf, no dia 24 de janeiro. Ele admitiu culpa e, para pagar sua fiança, chegou a entregar à Justiça anéis de diamante da esposa.

Alfredo Hawit, que substituiu Webb depois de sua prisão no comando da Concacaf, também acabou detido. Sua sentença será conhecida apenas em março de 2018.

Os processos também estão sendo acompanhados de perto pela Fifa. A entidade insiste que esses cartolas a fraudaram e, por isso, quer recompensas. Advogados, porém, ainda alertam que os julgamentos e revelações poderão respingar de volta na própria Fifa.

18 DE OUTUBRO

Serão anunciadas as sentenças de J. Hawilla (empresário brasileiro) e Brayan Jiménez (ex-presidente da Federação de Futebol da Guatemala).

 

6 DE NOVEMBRO

Serão julgados José Maria Marin (ex-presidente da CBF), Manuel Burga (ex-presidente da Federação Peruana de Futebol) e Juan Ángel Napout (ex-presidente da Conmebol).

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Defesa de Marin prevê que julgamento dure oito semanas

Ex-presidente da CBF tenta se livrar de acusação do Departamento de Justiça dos EUA

Raphael Ramos, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2017 | 07h00

A defesa de José Maria Marin estima que o julgamento do ex-presidente da CBF deve durar entre seis e oito semanas. Esse é o prazo estimado pelos advogados do ex-dirigente para que a Justiça dos Estados Unidos anuncie a sua decisão sobre o brasileiro. Assim, o caso pode terminar no fim de dezembro ou se arrastar até 2018.

Marin tenta se livrar da acusação de participar de um “grupo conspiratório”, o equivalente a formação de quadrilha no Código Penal brasileiro, o que poderia agravar a sua pena. Segundo o Departamento de Justiça dos EUA, ele teria atuado ao lado de outros 26 dirigentes para enriquecer ilegalmente através de torneios de futebol em vários países. A lista de acusados de formar o “grupo conspiratório” inclui também o atual presidente da CBF Marco Polo Del Nero e o ex-presidente Ricardo Teixeira.

Marin rebate a acusação e seus advogados alegam que as confederações agiam de forma independente, sem conexão entre si. O dirigente alega que a única competição organizada em conjunto por mais de uma confederação foi a Copa América Centenário, realizada no ano passado por Conmebol (América do Sul) e Concacaf (Américas Central, do Norte e Caribe) nos EUA.

O ex-presidente da CBF está em prisão domiciliar em Nova York em seu apartamento localizado na 5.ª Avenida, no arranha-céu Trump Tower, próximo ao Central Park. Ele pode sair de casa até sete vezes por semana, mas o Departamento de Justiça faz o monitoramento eletrônico dos movimentos de Marin através de uma tornozeleira.

Ele tem de permanecer dentro de um raio de duas milhas (o equivalente a três quilômetros) do prédio onde mora e precisa sair acompanhado de um segurança. Nas portarias do Trump Tower também foram instaladas câmeras de vigilância. Todo o custo do monitoramento é pago por Marin.

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