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Europa se rebela contra Blatter e pede fim do 'reinado' do suíço

Jamil Chade - O Estado de S. Paulo

10 Junho 2014 | 14h 02

Presidente da Fifa deve usar renda obtida com a Copa do Mundo para aumentar eleitorado e conseguir se reeleger no ano que vem

 O presidente da Fifa, Joseph Blatter, vai usar a renda obtida pela Copa do Mundo no Brasil para ganhar amigos - e votos - para sua própria reeleição. Mas, em uma rebelião poucas vezes vistas na entidade, a Europa pede o "fim do reinado" do cartola e o acusa de estar "minando a reputação do futebol". 

Nesta terça, o dirigente vai anunciar que, diante de um resultado financeiro recorde, ele vai distribuir "um duplo bônus" para cada uma das 209 de federações nacionais, as entidades que justamente votam nas eleições para a presidência da Fifa. 

A entidade dá início ao seu congresso anual permeada por escândalos de corrupção e uma intensa disputa de poder. O evento, porém, não contará com a presidente Dilma Rousseff, que estava sendo esperada para abrir o congresso. Neste domingo, Blatter atacou a oposição e a imprensa, alertando que "querem destruir a Fifa". Blatter tem o apoio de quatro das seis confederações regionais para as eleições que ocorrem em 2015.

Mas Blatter sofreu um duro golpe. Em uma reunião da Uefa com ele, dirigentes europeus deixaram claro que a presidência da Fifa não poderia continuar nas mãos do suíço, que desde 1976 está na entidade. O Estado havia revelado com exclusividade há uma semana que a rebelião estava sendo organizada. 

Andre Penner/AP
Blatter acusa: "querem destruir a Fifa"

Para Lennart Johansson, ex-presidente da Uefa, chegou o momento de Blatter deixar a Fifa. Durante reunião da entidade nesta terça em São Paulo, parte dos cartolas alertaram Blatter que ele não terá apoio e que a reputação da Fifa estava ameaçada por conta de sua gestão. 

"Não pode ser que sempre é o futebol que é assolado por casos de corrupção", disse David Gill, dirigente inglês. "Blatter precisa sair", afirmou.

Na reunião, quem se levantou contra Blatter foi o presidente da Federação Holandesa de Futebol, Michael Van Praag. "A Fifa vai entrar em colapso se ele continuar", disse. "Uma reforma da Fifa somente pode ser feita se ele sair", insistiu. "Blatter não é levado à sério e isso não é bom nem para a Fifa e nem para o futebol mundial. Ele não pode mais continuar a reinar", completou. 

Após o discurso do holandês, Blatter não escondeu sua irritação. "Não vou me demitir hoje", respondeu. Os europeus aguardam a decisão de Michel Platini sobre uma eventual candidatura. "Eu só vou tomar uma decisão em setembro", disse o francês ao Estado

Os europeus ainda consideraram como "inaceitável" os comentários de Blatter de que a imprensa inglesa seria racista e, por isso, as revelações sobre as suspeitas de corrupção no caso da Copa do Catar de 2022. 

DINHEIRO

Se na Europa ele não tem apoio, no resto do mundo a promessa feita por Blatter é de que cada cartola sairá da Copa com mais dinheiro. "Como é que eu posso os recompensar" disse aos países da Oceania, arrancando gargalhadas e levando os dirigentes a o aplaudir de pé.

A atitude de Blatter de distribuir dinheiro foi duramente criticada pelos europeus. "Não é assim que se  administra uma organização", declarou a dirigente sueca Karen Espelund. 

A Fifa vai ter uma renda recorde com a Copa do Mundo, superando a marca de US$ 4,5 bilhões. "Nossas finanças estão seguras e poderemos pagar dois bônus", disse. Essa não é a primeira vez que Blatter utiliza-se dos cofres da entidade para fazer amigos. Em 2010, na Copa da África do Sul, ele também levantou a assembleia ao anunciar um total de US$ 100 milhões distribuídos entre todas elas.

"Talvez vamos dar um valor mais alto agora", disse. "Vocês concordam com isso? Gostam disso?", questionou. Logo depois, foi irônico com as confederações regionais. "Não chorem, vocês também vão receber", disse.

Ele deixou claro que mais de 90% de sua renda vem da Copa. "Por isso é importante que ela seja um sucesso. Vai ser um sucesso. Não pode ser de outra forma", declarou.

BARGANHAS

Mas dinheiro não a única promessa de Blatter para ganhar votos. Nesta terça, ele prometeu que estudaria a possibilidade de que a Oceania tivesse um país na Copa do Mundo. "Seria algo lógico", disse. Blatter, momentos antes, também fez a mesma promessa para a Concacaf, a entidade que se ocupa do futebol da América do Norte, Central e Caribe.

Quem deixou claro que não aceitará perder um espaço é a Conmebol. Seu presidente, Eugenio Figueiredo, voltou a defender que a região sul-americana tenha 4 vagas e meia. A pressão fica sobre os europeus, com 13 seleções em um torneio de 32 seleções.

Apesar de prometer dinheiro e vagas, Blatter insiste que não está em campanha. "Todos falam de eleições. Não há eleição neste ano", disse. Mas confirmou que é candidato. "Meu mandato que começou em 1998 agora chega ao final. Mas nossa missão não terminou. Se vocês votarem por mim, vou ser honesto, ainda tenho fogo, mais do que nunca", completou.