Alex Silva|Estadão
Alex Silva|Estadão

Fábio Carille: da sombra ao estrelato em cinco meses no Corinthians

Ex-auxiliar encerra hegemonia de títulos de Mano Menezes e Tite no Parque São Jorge

Gonçalo Junior, O Estado de S. Paulo

08 Maio 2017 | 07h00

Auxiliar no Corinthians desde 2009, Carille observou em vários momentos, principalmente em 2016, depois da campanha ruim no Campeonato Brasileiro, a diretoria do Corinthians procurar treinadores renomados no mercado, como o colombiano Reinaldo Rueda. Pensou em sair para iniciar a carreira de treinador, como sempre havia sonhado. Fez bem em esperar. Hoje, ele encerra a hegemonia dos técnicos Mano Menezes e Tite no Corinthians. Nos últimos 11 anos, o Corinthians só conquistou títulos com os dois.

Depois de cinco meses como treinador, Fábio Luiz Carille de Araújo confessa que não esperava o título paulista. “O que está acontecendo aqui não é normal. Eu não esperava ser campeão. A parte defensiva sobressaiu demais, mas a montagem do time demora dois ou três anos. O nosso entendimento deu muito certo”, comentou o treinador.

No começo de sua passagem pelo Corinthians, Carille não viajava sequer com a equipe. Só treinava os mais jovens e outros que iam às partidas. Era o segundo auxiliar-técnico, posição que havia sido criada um ano antes por sugestão do técnico Mano Menezes. Carille foi indicado por Sidnei Lobo, auxiliar de Mano. Era, portanto, o auxiliar do auxiliar. 

Ele não esconde que aprendeu muito com os treinadores que passaram pelo Corinthians, em especial, Tite, de quem fala constantemente. A conquista do título paulista poderia ser a grande chance de sair da sombra do mestre. As duas passagens do atual treinador da seleção brasileira pelo clube (2010-2013 e 2015-2016) definem o treinador. Para Carille, não é bem assim. “As pessoas, aos poucos, podem parar de falar desse vínculo, mas acho que ainda vai demorar um tempo. Isso não me prejudica em momento algum, não levo isso como um problema”, afirmou o treinador. 

A grande chance da vida de Carille veio quando Cristóvão Borges, técnico por 18 jogos entre junho e setembro do ano passado, foi demitido. Cinco meses depois, ele levantou a taça de campeão estadual. “Ainda não caiu a ficha. Estou meio perdido com tudo o que está acontecendo”.

Obviamente, Carille também é fã do 4-1-4-1 e prioriza a organização defensiva. Tanto que o Corinthians levou apenas dez gols no Paulista e a defesa é o setor mais elogiado da equipe. Valorizar a zaga não significa ser retranqueiro. Contra o São Paulo, na semifinal do torneio, armou um esquema tático para marcar a saída de bola do rival e forçá-lo ao erro, para tentar fazer mais gols, mesmo tendo vencido o primeiro jogo por 2 a 0.

Essa obsessão defensiva faz parte da DNA do clube. Nas últimas dez edições do Campeonato Paulista, o Corinthians teve a melhor defesa em oito delas. Carille afirma que esse é o perfil da equipe e que se sente orgulhoso por poder resgatá-lo depois de uma campanha ruim na temporada passada. 

Depois de dormir mal nos últimos dias, o técnico esteve agitado ontem. Com a mão direita no queixo, seu gesto característico, ele orientou as jogadas de ataque e da defesa. Fora de campo, é sério e tímido. Fala pouco e gosta de ser anônimo. Os amigos contam que, quando foi a uma quermesse em Sertãozinho, cidade onde nasceu, ele pediu uma mesa no fundão, não queria chamar a atenção. Mas não teve jeito. Ficou tão sem jeito que foi embora mais cedo. É maluco por pontualidade e não perdoa atrasos. Evita comentar sobre sua vida pessoal.

EX-JOGADOR

Carille também jogou no Corinthians. Ou melhor, passou pelo Corinthians. Em 1995, aos 22 anos, chegou do XV de Jaú para atuar no time, que havia sido campeão paulista e da Copa do Brasil com Eduardo Amorim no comando. Voltou em 1997, mas jogou muito pouco. Conta que, mesmo assim, ainda dá autógrafos por sua passagem pelo gigante paulista. Antes, atuou como lateral-esquerdo e zagueiro de clubes menores, como Paraná, Santa Cruz, XV de Jaú, XV de Piracicaba e Juventus. “Eu não era jogador para atuar em cinco edições do Campeonato Brasileiro. Eu era apenas esforçado”. 

O estilo voluntarioso e organizado do atleta foi mimetizado pelo treinador. Apaixonado pela organização tática e pela destinação de funções dentro de campo, o treinador afirma que não vai mudar nada de agora em diante. Repetiu várias vezes a expressão “pés no chão”.

Vestindo a camisa comemorativa do título de 1977, distribuída a todo elenco no fim do jogo, Fábio Carille reflete sobre a maneira como sua própria conquista vai entrar na história. “A conquista vai ser lembrada como a de um grupo desacreditado que se fechou e se uniu, com determinação, concentração e maturidade”.

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