Jamil Chade / Estadão
Jamil Chade / Estadão

Festa da 'nobreza' da Fifa tenta provar que crise acabou

Contas revelam que entidade gastou com a noite de gala em 2016 quase o mesmo valor que destinou ao futebol feminino em todo o ano

Jamil Chade, enviado especial a Londres, O Estado de S.Paulo

24 Outubro 2017 | 11h45

Às vésperas de começar a conhecer seu destino nos tribunais dos EUA com os julgamentos dos dirigentes em Nova Iorque, a nobreza do futebol se reuniu nesta semana em Londres para a festa de gala da Fifa. Numa festa milionária, o que estava em jogo não era apenas o troféu ao melhor jogador do mundo. Mas a imagem de uma entidade que tenta convencer o mundo que superou seus problemas. 

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Oficialmente, a corte formada por cartolas, donos de televisões, treinadores, patrocinadores e agentes estava proibida de falar sobre os últimos escândalos, como as suspeitas sobre contratos para as Copa de 2026 e 2030 e o Catar. Oficialmente, a ordem era a de passar a mensagem de unidade, sob a presidência de Gianni Infantino e que teria, segundo sua versão, virado a página da crise na Fifa. A estratégia também envolvia dar uma nova imagem para a entidade, mais perto do público, menos arrogante.

Mas, mesmo no pequeno palácio usado para a festa, a reportagem do Estado se deparou com hierarquias bem estabelecidas, uma opulência inabalada e dúvidas entre seus cartolas sobre qual seria o impacto do recente escândalo entre uma emissora do Catar, a Fifa e o Mundial de 2022. 

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Maradona posava de rei, exigindo um canto separado no local da festa para receber aqueles que iam literalmente beijar sua mão que se alternavam em prestar suas homenagens ao monarca, entre eles o todo-poderoso presidente do Real Madrid, Florentino Perez. 

Como um pajem, David Trezeguet acompanhava dom Diego de perto, num clima de nobreza que deixava súditos como Catherine Zeta-Jones, Plácido Domingo, o prefeito de Londres, Sadiq Khan e Andrew Llyod Weber como ilustres desconhecidos. 

A ostentação era a regra, no constante vai e vem de champagne, nos trajes dos craques, nos quatro brincos de brilhantes de Neymar, nos vestidos de supermodelos ou nos carros de luxo que os aguardavam. Para a imprensa mundial, a Fifa vendia a preço de ouro locais no "tapete verde" para que os repórteres pudessem entrevistar os astros. 

O local também permitia encontros insólitos. Neymar e seu pai tiveram de esbarrar e dar as mãos ao presidente do Barcelona, Josep Bartomeu, a quem enfrentam na Justiça. 

No lobby do hotel, Kia Joorobachian se reunia com um dos homens forte do PSG, enquanto crianças de dirigentes árabes usavam peças de arte do local como um parque de diversões, para o desespero de seus seguranças privados. 

Um dos vencedores da noite, porém, confessou ao Estado que os únicos que não iam à festa e jantar organizado pela Fifa depois da premiação eram os jogadores. "Evitamos. É muita foto e pode complicar depois", disse, exigindo anonimato. Nem por isso, Neymar deixou de levar seus "parças" até Londres. 

Com ou sem crise, a pompa jamais deixou de existir na Fifa. Em 2016, por exemplo, a entidade destinou US$ 4,5 milhões (R$ 14,3 milhões) para a festa de gala de apenas poucas horas de duração. O valor foi muito parecido a tudo o que a Fifa destinou para ajudar as 209 federações nacionais em desenvolver o futebol feminino como pagamento de treinadoras, cursos e torneios: US$ 5,1 milhões (R$ 16,3 milhões). 

Os dados obtidos pelo Estado revelam a importância que se da à festa. Em 2016, por exemplo, se gastou mais com a gala que com educação, com programas de medicina ou com projetos de solidariedade para países afetados por desastres naturais.  

Com tanto dinheiro gasto, não era por acaso que, antes do evento começar a ser transmitido ao mundo ao vivo, o apresentador dava orientações ao público sobre como se comportar. Pedindo que mesmo a nobreza londrina ficasse de pé, o anfitrião "ensinava" a aplaudir forte. "Pessoal da área vip, tomem mais álcool", gritava. 

Havia também orientação para que todos fossem aplaudidos. "Aqui, amamos todo mundo", dizia. Diego Maradona que, depois de chamar Infantino de traidor durante a campanha eleitoral se transformou em seu melhor amigo, encerrou o evento com o slogan que a Fifa quer passar ao mundo. "Estamos refundando uma nova Fifa do futebol", disse. 

"Estamos mais unidos do que nunca", comemorou o ex-crítico da entidade. Só não se sabe ainda se a Justiça americana - e mesmo a Suíça - concordam com isso. 

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