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Fifa apoia a medida para excluir o Grêmio da Copa do Brasil

Jamil Chade - Correspondente em Genebra - O Estado de S. Paulo

04 Setembro 2014 | 08h 00

'O Brasil mandou a mensagem certa. Eu disse que o futebol precisa ser duro ao lidar com os abusos racistas', afirma Joseph Blatter

A Fifa apoia a medida adotada pelo STJD de excluir o Grêmio da Copa do Brasil, enquanto a entidade que combate o racismo no futebol apela ao time gaúcho a abrir mão de um recurso como uma forma de dar um recado mundial.

"O Brasil mandou a mensagem certa", declarou Joseph Blatter, presidente da Fifa. "Eu disse que o futebol precisa ser duro ao lidar com os abusos racistas", insistiu. Os atos de injúria racial sofridos pelo goleiro Aranha, do Santos, decretaram a eliminação do Grêmio da Copa do Brasil. A decisão foi da 3.ª Comissão Disciplinar do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) em julgamento na quarta-feira. O clube pode recorrer da decisão.

Nesta quinta-feira, foi a vez de a Fifa reagir, elogiando a postura do Brasil e tentando chancelar uma decisão já que ela mesmo jamais tomou desde que reformou suas regras, em 2013. "De uma forma geral, apoiamos todas as iniciativas que busquem expulsar o racismo do futebol", declarou a entidade em comunicado. "A Fifa adota uma postura firme e de tolerância zero contra qualquer tipo de discriminação e racismo", insistiu. "Não deve haver espaço para o racismo no futebol. Mas os incidentes recentes mostram que a luta não acabou."  

Fábio Motta/Estadão
Grêmio foi julgado pelo STJD e excluído da Copa do Brasil após atos racistas da torcida

A entidade máxima do futebol aproveitou a situação do Grêmio para "apelar à comunidade do futebol a unir e usar suas vozes para erradicar o racismo e discriminação do futebol e da sociedade, e de aplicar os regulamentos existentes". Em maio de 2013, a Fifa aprovou a lei que permite que um clube tenha pontos retirados ou que seja até excluído de um torneio por causa de atos racistas. "São leis que defendem maior punição para mandar uma mensagem forte de que a discriminação não tem lugar no esporte."

A realidade, segundo críticos da entidade, é que a decisão no Brasil vem em um ótimo momento para a Fifa, cada vez mais atacada por evitar medidas duras contra o racismo. Um informe preparado pela principal entidade de combate ao racismo no futebol, a Fare, acusou a Fifa de ter "fechado os olhos" para os atos racistas durante a Copa do Mundo. Em 64 jogos, foram registrados 14 incidentes, um número elevado. Mas ninguém foi punido e apesar de a Fifa ter insistido que usaria a Copa para punir atos racistas.  

EXEMPLO

Sobre o caso agora no Brasil, a Fare, com sede em Londres, defende que o Grêmio aceite a punição como forma de mandar uma mensagem clara a seus torcedores e ao mundo de que não aceitará comportamento racista. Em declarações ao Estado, Piara Powar, secretário-geral da entidade, elogiou a decisão sobre o time gaúcho e apontou que a medida pode se transformar em exemplo no mundo.

Mas, para a Fare, a renúncia desse direito seria a mensagem mais forte que o clube poderia dar. "Clubes precisam aceitar a punição. Entendo que existem considerações no que se refere à renda e esgotar os trâmites judiciais. Mas se a direção do Grêmio quer dar um recado, que aceite a decisão", declarou Powar.

Para ele, países em todo o mundo vão olhar a decisão com "interesse". "Muita gente vai ver a medida como uma mensagem de que devem copiar", disse. "Claro que é vergonhoso que um incidente ocorra. Mas é bom lidar com ele. Ações duras são necessárias e espero que essa decisão desperte o Brasil para o problema do racismo", insistiu.

A entidade defende ainda que existe um estereótipo feito sobre o Brasil de que, no País, o racismo não existe e muito menos no futebol. "Existe a percepção de que o Brasil é uma cultura multiétnica e que, no futebol, samba e etc, não há racismo. Mas muita gente ficou surpresa ao ver o perfil dos torcedores que foram aos jogos da Copa do Mundo", disse. "O racismo no futebol reflete realidades sociais."