Fracasso da seleção mostra necessidade de choque de gestão

Brasil precisa de investimento em estrutura e projeto de longo prazo

Daniel Batista e Paulo Favero, O Estado de S. Paulo

09 Julho 2014 | 00h16

O futebol brasileiro vai precisar de um choque de gestão e investimento em estrutura para tentar apagar o fiasco na Copa do Mundo nos próximos anos. A primeira lição a se aprender na goleada sofrida para a Alemanha na semifinal é que não se colhe frutos quando muito pouco foi plantado lá atrás. Essa mesma seleção germânica é um exemplo disso.

Após a derrota para a Croácia por 3 a 0 na Copa de 1998, a Federação Alemã de Futebol iniciou um projeto que dava grande respaldo para as categorias de base. Na Copa de 2006, em casa, a equipe caiu na semifinal e acabou na terceira posição, mas nem por isso os rumos foram mudados. Um detalhe interessante é que, quando o técnico principal sai, o auxiliar assume o comando. Foi assim quando Klinsmann se despediu da equipe após a Copa em 2006 e em seu lugar entrou o assistente Joachim Löw, que está à frente da equipe até hoje. Esse é um dos problemas do Brasil, que não consegue manter uma continuidade de comando da equipe e sempre que um treinador não agrada, tudo é alterado e o trabalho começa do zero.

Para o historiador Marcos Alvito, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e que acaba de lançar o livro “A rainha de chuteiras”, que fala sobre sua experiência no futebol inglês, o panorama é trágico no País. “O futebol brasileiro está errado há muitos anos. Vive de talentos individuais e é um verdadeiro milagre estar entre os melhores. Acho que até o estilo brasileiro não existe mais, temos de importar jogadores da Argentina para criar as jogadas. Era uma tragédia anunciada, mas obviamente ninguém poderia prever o 7 a 1. É o momento de refletir, mas acredito que tudo continuará errado”, diz.

Ele pede para que os jogadores não sejam crucificados pela derrota histórica, pois considera os atletas vítimas de uma situação que começa errada desde a formação dos atletas. “O João Saldanha já alertava os problemas nas divisões de base na década de 1970. Pode reparar que todos os jogadores alemães sabem chutar a gol. Isso é feito na divisão de base. O menino não tenta driblar todo mundo para ser vendido rápido para o exterior, ele pratica os fundamentos”, explica Alvito.

O professor cita um exemplo do Campeonato Brasileiro para mostrar como a formação de atletas no País está sendo colocada à margem. “Eu fui ver certa vez uma partida de Sub-17 e os jogadores eram enormes. A partida foi em alta velocidade, tinha atletas de razoável habilidade e um grau de competitividade absurdo. Existe uma fabricação em série de jogadores para serem vendidos. Percebo que nas divisões de base não existe compromisso ético. Os garotos sofrem uma exploração absurda e, se algum deles se contunde, adeus à carreira. Muitos vão parar no vício ou no crime.”

Rodrigo Caetano, diretor executivo de futebol do Vasco, também cita as categorias de base como o calcanhar de Aquiles do futebol brasileiro. “Precisamos rediscutir a formação de jogadores e a educação, não só da vida, como do esporte. A base precisa ser revista. Os jogadores não podem ser olhados apenas como um objeto de negócio. O grande legado que a Alemanha deixa para gente é que não se faz um grande time sem formação. Os jogadores foram preparados para dar de sete no Brasil. Borussia Dortmund e Bayern de Munique fizeram a final da Liga dos Campeões em 2013. Isso mostra o quanto eles são fortes”, argumenta o dirigente.

Rodrigo Caetano usa, inclusive, exemplos de jogadores que chegaram a brilhar nas seleções de base do Brasil, mas ficaram fora da lista final de Felipão para a Copa. Em 2011, por exemplo, a seleção foi campeã mundial Sub-20 e daquele grupo vencedor apenas o meia Oscar foi convocado para o Mundial do Brasil. “Temos que parar de achar que improviso vai resolver. Já se foi a época em que nossos titulares da seleção eram titulares de seus clubes. Hoje, a maioria é coadjuvante”, conclui o diretor do Vasco.

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