Emmanuel Dunand/AFP
Emmanuel Dunand/AFP

Fracasso holandês passa por troca de técnicos a 'estrelismo' de novos craques

Jogadores da atual geração são acusados de não se esforçarem pela seleção

Felippe Scozzafave, O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2017 | 18h34

Em 12 de julho de 2014, dia em que a Holanda venceu o Brasil por 3 a 0 e conquistou o terceiro lugar na Copa do Mundo, nem mesmo o mais pessimista dos holandeses deve ter imaginado que, pouco mais de três anos depois, sua seleção estaria eliminada e sem chances de participar do próximo Mundial. Pois foi exatamente o que aconteceu nesta terça-feira, mesmo com a vitória por 2 a 0 sobre a Suécia.

+ Holanda vence Suécia, mas fica fora da Copa do Mundo

+ Fora da Copa, Robben anuncia aposentadoria da seleção 

Porém, o fracasso não deve ser resumido ao atual momento e sim a tudo o que a equipe vem fazendo nos últimos anos, antes mesmo da boa campanha na Copa do Mundo de 2014. Em 2012, na Eurocopa, dois anos após decidir a Copa com a Espanha e perder na prorrogação, foram três derrotas em três jogos e uma vexatória eliminação na primeira fase. Por causa disso, o técnico Bert van Marwijk foi mandado embora, dando lugar a Louis van Gaal, que, para obter sucesso, teve que mudar o tradicional esquema de jogo ofensivo holandês para um 5-3-2, apostando nos contra-ataques.

Podemos dizer que a troca deu certo, mas na sequência à Copa, van Gaal deixou a seleção para assumir o Manchester United, abrindo espaço para o lendário Guus Hiddink, que "voltou às origens", colocando o time para frente. O desempenho foi tão fraco, que ainda nas eliminatórias para a Eurocopa, foi trocado por Danny Blind, até então assistente e que não tinha experiência como treinador. O resultado não foi bom e, depois de não levar o time à competição europeia em 2016 e começar mal a trajetória rumo à Rússia, foi trocado por Dick Advocaat, que também não conseguiu mudar os rumos e, também por isso, fez seu último jogo à frente da equipe nesta terça-feira.

Além da constante troca de treinadores, outro fato que explica o fracasso holandês é que as grandes estrelas locais, Wesley Sneijder, Arjen Robben e Robin van Persie, já não são mais meninos. Com 33, 33 e 34 anos, respectivamente, eles estão na fase final da carreira. À exceção de Robben, que ainda é peça chave no Bayern de Munique, os outros dois, que outrora brilharam por equipes como Inter de Milão, Real Madrid, Arsenal e Manchester United, já não estão mais em ligas tops do futebol mundial – jogam no Fenerbahçe (Turquia) e Nice (França) e sequer foram convocados para os últimos jogos das Eliminatórias. Para piorar, logo após o jogo desta terça, o camisa 11, autor de dois gols, anunciou a aposentadoria da seleção.

Se os veteranos não estão dando mais conta, a nova geração talvez não tenha o comprometimento esperado. Wim van Hanegem, um dos integrantes da Laranja Mecânica que maravilhou o mundo em 1974, fez duras críticas sobre Memphis Depay, que surgiu como uma estrela no PSV, foi contratado pelo Manchester United e, depois de não render o esperado, acabou cedido ao Lyon: "Vi uma foto em que ele estava com sapatos dourados, parecia o Goldfinger, vilão do filme do 007. Ele só pensa em si, não está nem aí para a seleção".

 

Goodmorning everybody!! Don't forget to smile today my youngkings and youngqueens! #love

Uma publicação compartilhada por Memphis Depay (@memphisdepay) em

Uma liga nacional pouco competitiva é outro fator que pesa contra a Holanda. PSV, Ajax e Feyenoord, grandes times do país, não têm condições financeiras de disputar atletas com as potências da Europa e, ao contrário do que se viu no passado, não fazem mais investimentos altos. Consequentemente, não montam equipes fortes e colecionam fracassos recentes em âmbito europeu. Mesmo que a temporada só esteja no início, PSV e Ajax já estão fora até mesmo da Liga Europa, caindo em fases preliminares para times bem menos tradicionais. O golpe é doído principalmente para o time de Amsterdã, vice-campeão do torneio na última temporada, perdendo a final para o Manchester United. A equipe já havia caído também na Liga dos Campeões e, pela primeira vez desde 1990/91, não disputa nenhuma competição continental na temporada.

+ Portugal bate a Suíça, põe adversário na repescagem e garante vaga na Copa

Na "Champions", apenas o Feyenoord representa a Holanda, mas não deve ter vida longa, visto que perdeu os dois primeiros jogos que disputou, com direito a um 4 a 0 para o Manchester City na estreia. Ser coadjuvante na competição, porém, não é mais uma novidade para os holandeses, já que a última vez em que um time do país alcançou ao menos uma semifinal aconteceu há doze anos, quando o PSV foi eliminado pelo Milan. Hoje, os clubes holandeses dificilmente passam da fase de grupos.

Se agora o cenário é desolador para a Holanda, há um fio de esperança, já que na década de 80 a equipe nacional passou por situação semelhante. Depois dos vice-campeonatos em 1974 e 1978, o time não conseguiu se classificar para as Copas de 1982 e 1986, mas em 1988 conquistou a Eurocopa com craques como Van Basten, Gullit, Rijkaard e Ronald Koeman.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.