Roberto Stuckert Filho/PR
Roberto Stuckert Filho/PR

Funcionários públicos cobraram propina para contratos da Copa

Apos a denúncia, caso está sob investigação na Alemanha

JAMIL CHADE - GENEBRA, O Estado de S. Paulo

23 Março 2015 | 07h13

Funcionários públicos brasileiros de um órgão do governo e de estatais teriam cobrado propina para dar a uma empresa alemã contratos para a Copa do Mundo de 2014. Essa foi a denúncia interna que a companhia de engenharia Bilfinger recebeu e que obrigou a direção a abrir investigações no ano passado.

A revelação foi publicada pelo jornal Bild, da Alemanha, e confirmada pela empresa. A Fifa jogou a responsabilidade para o Brasil, alegando que esses contratos não passaram por ela.

No total, a companhia fechou em 2014 contratos com o governo brasileiro avaliado em R$ 21,2 milhões. Além da Copa do Mundo, a empresa presta serviços no Brasil para a Petrobras, para a Agência Nacional do Petróleo, para o Senado Federal e para a Anatel.

Apenas para o fornecimento de 1,5 mil monitores e software para o Centro Integrado de Comando e Controle da Copa do Mundo, foram R$ 13 milhões em contratos. O sistema era considerado como um dos principais legados do Mundial e permitia a centralização da operação de segurança.

Ao Estado, o porta-voz da empresa na Alemanha, Sacha Bamberger, revelou que foi uma "denúncia interna" que resultou em uma investigação. "Começamos esse processo em 2014", indicou. Segundo o Bild, porém, as propinas chegaram a 20 milhões de euros (R$ 64,3 milhões) durante a preparação da Copa. A empresa confirma que uma avaliação inicial mostrou que, de fato, empregados estão sob suspeitas de terem pagos propinas no Brasil para ficar com os contratos. Mas sugere que os valores seriam menores e apenas incluiriam um contrato de 6 milhões de euros (R$ 19,3 milhões).

"A Bilfinger recebeu informações internas no ano passado indicando que pode ter havido violações nos regulamentos de ética do grupo a respeito do fornecimento de monitores para os centros de segurança em grandes municípios brasileiros", disse a empresa por meio de uma nota oficial. "A empresa, imediatamente, abriu uma completa investigação sobre o caso. A denúncia está ligada à suspeita de pagamento de propinas por parte de funcionários da Bilfinger no Brasil a funcionários públicos e funcionários de empresas estatais", alertou.

Na avaliação inicial da empresa alemã, não restam dúvidas de que existem provas de que de fato "substanciam" as acusações e suspeitas que foram levantadas. A questão, segundo ela, é saber quem o recebeu e quando. Por enquanto, a Justiça alemã afirma que está apenas "acompanhando o caso". Mas a própria companhia admite que, dependendo do resultado da investigação, a empresa lançará um processo contra os envolvidos. Se a revelação apontar para funcionários brasileiros, o caso será no Brasil.

RESPONSABILIDADE

Segundo o Bild, parte da propina ainda foi para funcionários da Fifa. Mas a entidade insistiu que a questão da segurança não era sua responsabilidade e que tal medida era de competência do Comitê Organizador da Copa, ao lado do governo brasileiro. Contatada pelo Estado, a assessoria indicou que o caso se refere "a projetos do governo local". "Nem a Fifa nem seus empregados estiveram envolvidos em dar contratos de cidades-sedes ou do governo federal", declarou.

Para a entidade, esses são serviços que "claramente cabem às autoridades locais". "Isso não pertence às áreas de responsabilidade da Fifa", insistiu. Durante a Copa, a questão da segurança gerou polêmica, principalmente diante da invasão dos estádios por torcedores. Quem venceu a licitação para se ocupar do estádio do Maracanã, por exemplo, também foi alvo de críticas das demais empresas do setor.

A vencedora no caso do Rio de Janeiro foi a Sunset Vigilância, que tinha como diretor o tenente-coronel da PM Anderson Gonçalves. Até 2013, ele atuava na equipe de segurança do então governador do Rio, Sérgio Cabral Filho.

No Ceará, o Sindicato de Vigias do Estado havia alertado a Fifa de que a empresa contratada para fazer a segurança do Castelão, em Fortaleza, era a menor indicada do setor e que não daria conta do evento. Nos primeiros jogos, diante do caos, o governo foi obrigado a assumir parte da segurança do jogo Brasil e México.

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