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Futebol olímpico

- Atualizado: 23 Março 2016 | 03h 00

Tempos atrás, um desses modismos que surgem e desaparecem na velocidade da internet, brincava com entidade folclórica tão querida dos irlandeses. “Eu acredito em duendes” era a frase que aparecia nas mais diversas bugigangas made in China. As estripulias dos homenzinhos bizarros e arrelientos foi tema até de filme.

Acreditar ou não em duende é prerrogativa de cada pessoa. O sujeito deve ter liberdade para crer no que lhe aprouver. O mesmo vale para mula sem cabeça, bruxas, fadas, saci, fantasmas, justiceiros, super-homens, alianças entre políticos. E para projeto olímpico de futebol.

Entra Olimpíada, sai Olimpíada, e ressurge a conversa de que, agora sim, a CBF montará esquema para uma equipe permanente na categoria. Desta vez, deslancha o planejamento para a conquista do ouro inédito, etc. e tal. Cascata, abandonada poucos meses após o anúncio. E retomada sempre que se aproximar um Pré-Olímpico ou, como agora, os Jogos em si, pois não houve necessidade de etapa qualificatória.

A mais recente começou com a nomeação de Alexandre Gallo para cuidar das equipes de base. A revolução coincidiu junto com o retorno de Dunga ao time principal, e ambos ficariam sob a supervisão de Gilmar Rinaldi. Na solenidade, insinuou-se que o trabalho de Gallo teria forte influência na seleção principal, pois de lá viriam os jovens talentos a ser aproveitados por Dunga.

Gallo não se aguentou um ano na função: caiu, chamaram um substituto para segurar o rojão na Sub-20 (Rogério Micale) e se estabeleceu que, nos Jogos do Rio, a incumbência da busca do ouro inédito (e etc. etc.) ficará para Dunga. Hoje, a equipe de jovens entra em campo, no Espírito Santo, para enfrentar a Nigéria, sob a batuta de Micale, enquanto o titular está em Teresópolis. Quer dizer, não rói o osso da preparação, mas abocanha o filé do torneio.

Seleção Sub-20 é uma coisa; seleção olímpica, outra. A primeira, bem ou mal, existe, pois de vez em quando se reúne para o Sul-Americano ou para o Mundial. A olímpica não passa de folclore, de duende do futebol. Ou Frankenstein, pois na hora dos vamos ver recorre a algumas figurinhas carimbadas, os tais três jogadores com idade superior a 23 anos. O desejo do momento é contar com Neymar. O rapaz terá de carregar, nos Jogos do Rio, o fardo de ser o regente da companhia, como tem acontecido no time principal.

A pergunta que flutua é a seguinte: para que serve time olímpico de futebol masculino? No caso brasileiro, só para cavar uma medalhinha e engordar a estatística do COB ou a jactância da CBF. Não faz parte de programa amplo de inclusão, não é extensão da prática de esporte como saúde e educação.

Não é nem desdobramento de trabalho continuado, como no vôlei, no basquete, na natação, no judô, no atletismo. Bem ou mal, essas modalidades têm suas estrelas reunidas regularmente e não recorrem a enxertos de última hora para a disputa de Olimpíada.

A seleção de futebol tem objetivo imediato e pontual. Acabaram-se os Jogos, ela se desfaz, cada um vai pro seu canto e só se volta a falar daqui a quatro anos. Boa parte se manda de volta para a Europa. Se houvesse interesse na garimpagem de talentos, ao menos na categoria olímpica a aposta poderia concentrar-se só em atletas que atuem no Brasil.

Mas a seleção não é de todo ruim. Trata-se de vitrine para valorizar jogadores – e isso é bom, para eles, empresários e para os clubes que os mantêm sob contrato. Não é pecado nem ilícito tampouco há imoralidade nisso. Porém, foge ao espírito do que deveria ser o esporte olímpico. Daí, já seria outra discussão...

LAVA ESTÁDIO. As garras da Lava Jato alcançam o futebol. A prisão por algumas horas (por porte ilegal de armas) de André Negão, aliado do ex-presidente corintiano Andrés Sanchez, seria o fio inicial de novelo que comporta Fifa, CBF, Lula, Odebrecht e grande elenco. Se estenderem o fio para outros estádios da Copa-14, muita coisa virá à tona. Bola cantada.

A criação de uma equipe de emergência, para disputar os Jogos, é boa pra fazer dinheiro.

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