Futebol renova sonhos de palestinos

O técnico só fala polonês, o time está incompleto e a maioria dos jogadores não consegue participar dos treinos devido às restrições de viagens imposta por Israel. Mesmo assim, a modesta equipe de futebol palestina está determinada a fazer bonito em sua primeira competição internacional desde que os confrontos tiveram início no Oriente Médio há dois anos - no torneio na semana que vem entre seis nações árabes na Síria. Jogadores dizem que é a forma que encontraram para manter vivos os estilhaçados sonhos de independência. "Não estou jogando para mim. Estou jogando por minha terra-natal", disse o meio-campista Jamal al-Houli, 27 anos, pai de três filhos que vive num campo de refugiados. Torcedores palestinos esperam que o time dê a eles algo para comemorar num momento em que tropas israelenses estão ocupando a maioria das cidades da Cisjordânia, entraram profundamente na Faixa de Gaza e um Estado parece um sonho mais distante do que em qualquer outro momento em anos. Uma boa atuação da equipe "seria um grande presente para o povo palestino", disse Rajai Ayyash, um assessor financeiro em Jerusalém. Em 1999, o time palestino teve um desempenho surpreendente e ficou em terceiro lugar no Campeonato de Futebol Árabe, provocando celebrações frenéticas entre os palestinos, que são loucos por futebol. Mesmo durante a ofensiva militar em junho, os palestinos encontraram um jeito de acompanhar a Copa do Mundo e a maioria torcia pelo Brasil. O homem no qual os palestinos colocam suas esperanças é Andrzej Wisniewski, 47 anos, um técnico da Polônia. Wisniewski, que já treinou o campeão polonês Polonia Warsaw, não fala nem inglês nem árabe. Ele foi contratado seis meses atrás pela Fundação de Futebol do Oeste Asiático, que patrocina a copa da próxima semana, para ajudar o time palestino. A equipe tem pouco dinheiro. Os jogadores não recebem salários e, quando não estão treinando, trabalham em tempo integral como policiais ou na construção civil. Durante um recente treinamento no estádio da Cidade de Gaza, Wisniewski gritava instruções para seus 10 jogadores com frases que misturavam inglês e árabe mal falados, ou expressões em polonês que um tradutor tinha dificuldade em acompanhar. Várias vezes, o ágil Wisniewski, descalço, executava ele mesmo algumas jogadas para ensinar a seus pupilos. Os jogadores consideram que o estilo de jogo europeu é mais rápido do que estão acostumados, envolvendo mais passes e trabalho em equipe. Em respeito ao treinador, eles executam as instruções sem questionamento. Até agora, Wisniewski conheceu menos da metade de seu time, apesar de a competição começar em 31 de agosto. Oito jogadores da Cisjordânia não conseguiram vir a Gaza, devido a toques de recolher impostos pelas tropas israelenses, e seis vivem em outros países árabes. Neste fim de semana, todos os jogadores devem se encontrar na Síria para cinco dias de treinamento conjunto. Evitando cautelosamente a política, Wisniewski disse que é difícil a vida em Gaza, mas que ele está orgulhoso de seu time. "Quero ficar com a equipe porque acho que eles são fantásticos", afirmou, referindo-se às dificuldades que seus jogadores têm de superar. Só conseguir ir ao treinamento todos os dias já é um desafio. Al-Houli, o meio-campista, vive no campo de refugiados de Rafah, 40 km ao sul da Cidade de Gaza, na fronteira com o Egito. A estrada da sua casa até o campo de treinamento está salpicada de tanques israelenses e bloqueios militares. No começo da semana, ele deixou sua casa às 6 da manhã. Entretanto, tropas de Israel bloquearam a estrada depois que um franco-atirador do Hamas matou um soldado israelense, e Al-Houli não conseguiu chegar naquele dia à Cidade de Gaza. No dia seguinte, ele deu um jeito de pegar estradas secundárias, evitando confrontos que deixaram um adolescente palestino morto. Dois meses atrás, tratores israelenses demoliram dezenas de casas em Rafah para criar um espaço vazio entre posições do Exército e o campo de refugiados. A casa de três andares de Al-Houli foi uma das destruídas. O Exército do Estado judeu alega que destruiu as casas para privar atiradores de cobertura para ataques contra um posto militar próximo, e para impedir que milicianos contrabandeiem armas por túneis que passam sob as casas. Al-Houli, um veterano com 30 partidas internacionais, relatou que ele e sua família tiveram que sair correndo quando os tratores avançaram e não conseguiram salvar qualquer pertence, incluindo um de seus mais preciosos - a medalha de bronze que seu time ganhou em 1999. O meio-campista, que agora vive numa casa alugada, disse que é perigoso demais procurar entre os escombros porque os soldados israelenses podem disparar. Ele espera substituir sua medalha perdida na semana que vem na Síria, onde os palestinos enfrentarão primeiro o time da casa e, depois, o Iraque. O Irã, a Jordânia e o Líbano também estão participando. "Eu perdi a medalha, mas isso não vai impedir que eu tente ganhar uma nova, talvez uma melhor ainda", afirmou.

Agencia Estado,

23 Agosto 2002 | 15h50

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