Marcio Fernandes/Estadão
Marcio Fernandes/Estadão

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

12 Maio 2017 | 21h14

A lista de materiais do treinador Christiano Falconi inclui bolas, cones, pinos, gols em miniatura, um tripé, uma câmera Sony Cibershot, dois aparelhos iPhone e um microfone de lapela. Pelo menos uma vez por semana, os treinamentos que ele dá na zona sul de São Paulo para alunos que estão iniciando a carreira tem várias interrupções. Nessas pausas, ele imposta a voz, olha para a câmera e explica as jogadas ou dá dicas de como bater na bola assim ou assado. São gravações para seu canal no YouTube, site de compartilhamento de vídeos na internet. Ele é um youtuber do futebol.

Além de conteúdos de gastronomia, artes, entretenimento, música, jogos e celebridades, que o transformaram em um capítulo à parte na cultura da internet, o YouTube também ensina a jogar futebol. O canal de Falconi, chamado “Eu treino fundamento”, como o próprio nome indica, traz vídeos com dicas práticas e orientações sobre passe, drible, cabeceio e finalização, movimentos básicos da modalidade. “O objetivo é estimular treinadores e jogadores a treinar e aperfeiçoar a parte técnica”, diz o lateral-direito que atuou em clubes como Bragantino, Portuguesa Santista, Portuguesa, Mixto (MT) e Inter de Bebedouro em dez anos de carreira, entre 1996 e 2006.

Futebol no YouTube ainda está no campo da inovação, e Falconi é um dos pioneiros a ensinar futebol virtualmente. O técnico Valdir Espinosa, campeão mundial com o Grêmio, possui um canal para ensinar táticas e também dá dicas sobre posicionamento para os atletas. Zico alia histórias do futebol, conselhos técnicos e também entrevistas (ver abaixo). Por outro lado, a maioria dos canais ainda traz apenas os chamados “tutoriais”, neologismo usado em informática para ensinar o funcionamento de programas para usuários iniciantes.

Criada pelo jornalista e também ex-jogador Lucas Queiroz, o canal “Brazil Kickers”, dirigido a jogadores amadores, é um dos mais vistos no segmento. “Procuro fazer lances que possam ser feitos nos jogos”, explica o youtuber, que atuou apenas nas categorias de base. “Não sou o melhor jogador de futebol, mas sou um dos bons apresentadores do YouTube”, diz.

As iniciativas, especialmente as páginas de fundamentos, preenchem uma lacuna no futebol brasileiro: a falta de treinos específicos para aperfeiçoar a técnica dos futuros jogadores. “Nunca tive treinos técnicos. Fui mandado embora da usina de cana de açúcar e fui fazer um teste. Passei no profissional do CRB. Tive de aprender na raça”, diz o ex-atacante Aloisio, campeão do mundo com o São Paulo em 2006.

Nos times profissionais, poucos clubes no Brasil ensinam o jogador a bater na bola ou adotar a posição correta para “matá-la” no peito. O ex-jogador Amoroso, hoje embaixador do Boca Ratón, clube norte-americano da quarta divisão, achou a iniciativa de ensinar fundamentos na internet tão importante que levou o próprio Falconi para conduzir a primeira clínica esportiva do clube no Brasil, realizado no mês passado, no Bourbon Atibaia, em São Paulo. “Eu cresci com a técnica. No início da carreira, futebol não é só jogo. A técnica é mais importante que a tática ou físico”, disse o ex-jogador do São Paulo.

Joshua, filho de Pelé, é um dos assinantes do “Eu treino fundamento”. Jogando por uma universidade nos Estados Unidos, depois de passar pelas categorias de base do Santos, o atacante gravou até um vídeo para apoiar o canal. Cristiane e Andressa Alves, da seleção feminina, fizeram o mesmo.

Os canais dedicados ao futebol não têm a mesma visibilidade de outras áreas. O site Social Blade, responsável por mostrar estatísticas sobre YouTube, Instagram, Twitter e Twitch, aponta que o maior canal de YouTube do Brasil, em número de visualizações, pertence ao funkeiro Kondzilla, com 5,5 bilhões de views. Os maiores canais de futebol, por exemplo, atraem 10% disso.

Pollyana Ferrari Teixeira, professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP) e pesquisadora de Mídias Sociais, aposta no crescimento. “Esse desenvolvimento tardio se deve à grande influência das transmissões da tevê aberta. O futebol ainda possui estruturas tradicionais de comunicação, mas existe uma brecha que vai fazer o esporte explodir nas redes sociais”, diz a especialista. “O vídeo se consolidou como grande plataforma de comunicação em todas as áreas", completa.

Os vídeos são um complemento para treinos que os jogadores desenvolvem nos clubes ou nas escolinhas de futebol. O atacante Mateus Potenza tem 13 anos e busca uma oportunidade em um clube assistindo e reproduzindo os vídeos. “Um das coisas que aprendi bater com a parte calosa do pé na hora do passe e levantar a mão. Isso ajuda no equilíbrio e na precisão”, diz o jovem atleta.

Sem internet em casa, o meia Pedro Henrique Lourenço da Silva, que também procura um clube, só consegue assistir aos vídeos na casa da tia. Aos 15 anos, ele conta que conseguiu melhorar a potência dos chutes só corrigindo a distância do corpo em relação à bola, dica que viu nos vídeos de fundamentos. Ele relata que, por isso, as visitas à casa da tia estão se tornando cada vez mais frequentes.

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De olho no público jovem, Zico aposta em canal de variedades

Ídolo do Flamengo recebe artistas e cantores, mas também fala de futebol

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

15 Maio 2017 | 07h00

O maior ídolo da história do Flamengo e um dos grandes jogadores do futebol lançou seu canal no YouTube. A página Zico 10 vai além do futebol mundial e se apresenta como um canal de variedades. “O Canal é uma oportunidade de contar minhas histórias, de me manter cada vez mais próximo dos fãs, receber artistas e falar não apenas de futebol, mas também de música, gastronomia”, explica o Galinho ao Estado.

A programação do canal, parceria com a Millagro, produtora de vários segmentos publicitários e institucionais, inclui diversos quadros. Depois de mostrar o lado familiar no primeiro vídeo, Zico faz o papel de apresentador para receber cantores, atores e jogadores de futebol do passado e do presente. O ex-jogador já gravou com os cantores Xande de Pilares (autor da música-tema do veículo) e Diogo Nogueira; os atores José Loreto, Thiago Lacerda e Thiago Rodrigues; o lutador José Aldo e os jogadores Guerrero e Diego (Flamengo) e Camilo (Botafogo). Um dos programas mais assistidos foi exatamente o encontro com o meia Diego Ribas, atual camisa 10 do Flamengo. “É muito bacana vestir essa camisa, que foi muito valorizada e praticamente imortalizada por você”, elogiou Diego.

No quadro “Caderno do Galinho”, Zico conta histórias de sua época de jogador e divide a cena com o youtuber Bruno Torelly. O clima é descontraído, com um bate-papo informal.

O canal também entra em campo, obviamente. Em uma das edições, Zico participou de um desafio de cobranças de falta com Petkovic, ex-jogador do Flamengo e atual técnico do Vitória. “As pessoas vão felizes e conversam numa boa. A gente não deixa ninguém de calça curta. A vida está muito complicada hoje em dia, então esse é um momento de descontração. Esse vai ser o sentido dos programas”, disse o maior artilheiro da história do Maracanã, com 333 gols em 435 partidas.

A fórmula vem dando certo. Em pouco mais de um mês, o canal tem 820 mil visualizações com quase 80 mil inscritos. “Zico é garantia de sucesso e de credibilidade. Principal representante do clube é ele, o Flamengo é uma monarquia, o Zico é nosso rei”, disse o presidente Eduardo Bandeira de Mello.

À vontade como apresentador, o camisa 10 afirma que apresenta informações importantes dos convidados, mas prefere que tudo aconteça espontaneamente. “Estou aprendendo a lidar com a tevê e entendendo a linguagem. É importante mostrar aos mais jovens algumas histórias”.

Atuando como comentarista do canal Esporte Interativo, Zico conta que a ideia do canal surgiu do desejo de se aproximar do público jovem. Idealizado por seu filho, Bruno Coimbra, o canal no atualiza uma antiga relação de Zico com os veículos de comunicação. Depois de ser técnico do Kashima Antlers e da seleção japonesa, onde teve passagem decisiva para o desenvolvimento do futebol local entre nos anos 2000, Zico gravou uma série de DVDs com orientações sobre modelos táticos e técnicos chamada “Zico ensina você a jogar futebol”.

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Zico [Arthur Antunes Coimbra] Youtube

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