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Gremista admite injúria racial, mas diz que não quis ofender Aranha

Wagner Machado - O Estado de S. Paulo

04 Setembro 2014 | 12h 23

Torcedora flagrada pela televisão chamando o goleiro de 'macaco' chora e deixa a delegacia sob protestos de grupo de negros

Em depoimento de mais de uma hora na 4ª Delegacia de Porto Alegre, a torcedora do Grêmio, Patrícia Moreira da Silva, de 23 anos, flagrada pelas câmeras de TV chamando o goleiro Aranha, do Santos, de "macaco" em partida pela Copa do Brasil, admitiu ter usado a palavra 'macaco' para se referir ao jogador do time rival, mas negou veementemente qualquer intenção de ofensas raciais contra o jogador. Seu depoimento ocorreu um dia depois de o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) excluir o Grêmio da Copa do Brasil.

Após suas explicações por intimação, Patrícia Moreira deixou a delegacia chorando e foi criticada aos gritos pelos manifestantes que estavam em frente à delegacia, exigindo um pedido de desculpa da moça, fato que não ocorreu. De acordo com o delegado Cleber Ferreira, titular da Delegacia regional de Porto Alegre, a gremista de 23 anos alegou também não fazer parte de nenhuma torcida organizada. "Ela não nega ter proferido a palavra (macaco), mas alega que não teve a intenção de ofender racialmente o goleiro. Segundo ela, a atitude foi no embalo da torcida que exalta cânticos com este teor", testemunhou o delegado, ao explicar para a torcedora que injúria racial pode resultar de 1 a 3 anos de prisão. O inquérito ainda está em andamento. 

Ao chegar acompanhada do advogado e do irmão, sob forte proteção policial, Patrícia Moreira mostrou abatimento e não conversou com a imprensa. Enquanto prestava depoimento, jovens do movimento União de Negros pela Igualdade (Unegro), de Porto Alegre, protestaram com faixas e gritos e pediram que o caso não se configure injúria racial, mas racismo de fato. "Este fato apenas evidenciou o que sempre existiu, mas para algum era uma situação velada. O racismo é latente e ela deve ser punida com vigor", declarou a presidente do grupo, Flaviana Santos de Paiva, enquanto segurava uma faixa com a frase "rebele-se contra o racismo".
Patrícia Moreira deixa delegacia no RS
Ronaldo Bernardi/Agência RBS

Patrícia Moreira da Silva, 23 anos, depôs hoje na 4ª DP de Porto Alegre sobre o caso de racismo contra o goleiro Aranha

ENTENDA O CASO
A partida entre Grêmio e Santos, em Porto Alegre, no dia 28 de agosto, foi interrompida aos 42 minutos do segundo tempo quando o goleiro do time paulista, Aranha, informou ao árbitro que estava sendo vítima de ofensas racistas. O jogador gesticulou mostrando que alguns torcedores do Grêmio, além de gritar, imitavam gestos típicos dos macacos para ofendê-lo.

Imagens de televisão confirmaram que pelo menos uma torcedora, Patrícia Moreira, de 23 anos, gritava a palavra "macaco" para o goleiro santista, além de um grupo de gremistas que entoava  "uh, uh, uh" na direção de Aranha. Tão logo o vídeo com a imagem da torcedora caiu nas redes sociais, Patrícia, segundo familiares, teria recebido ameaças de morte e de estupro pelo Whatsapp e teve sair de casa por isso, já que o local foi alvo de apedrejamento. Ela pediu abrigo na residência de familiares fora de Porto Alegre, onde reside.

Junto com Patrícia, outros torcedores estão sendo investigados por injúria qualificada, enquanto o Grêmio, além da exclusão da Copa do Brasil, recebeu multa da Terceira Comissão Disciplinar do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) no valor de R$ 50 mil pelo papel higiênico arremessado a campo na Arena e também pelo atraso para voltar para o segundo tempo da partida. Os gremistas identificados pelas ofensas foram proibidos de frequentar estádios de futebol por 720 dias (dois anos). Ainda assim, a diretoria do clube gaúcho já informou que pretende recorrer da decisão.

O árbitro Wilton Pereira Sampaio e os auxiliares, denunciados por não terem relacionado a injúria racial na súmula de jogo de imediato, também foram condenados. O juiz Wilton Pereira de Sampaio foi suspenso por 45 dias e multado em R$ 800. Os auxiliares e o quarto árbitro foram suspensos por 30 dias e devem pagar R$ 500 de multa. Luiz Cunha Martins, delegado da partida, não recebeu punição.

Nesta quinta, a Fifa também se manifestou sobre o episódio, parabenizando o Brasil pela punição imposta ao Grêmio. O presidente da entidade, Joseph Blatter, entende que a decisão do STJD do Brasil vai servir de exemplo para o mundo todo.