Miguel Schincariol
Miguel Schincariol

Grupos políticos do Palmeiras lançam manifesto contra a PM

Conselheiros de diversas alas do clube se unem e questionam violento confronto ocorrido antes do clássico de domingo

O Estado de S. Paulo

10 Fevereiro 2015 | 16h24

O confronto entre a Polícia Militar (PM) e torcedores do Palmeiras que estavam nas esquinas das ruas Turiaçu e Caraíbas no último domingo, pouco tempo antes do início do clássico da equipe alviverde com o Corinthians, pelo Campeonato Paulista, ainda repercute. Um dia depois de a PM divulgar nota onde diz que "ação foi necessária", todos os grupos políticos do Palmeiras lançaram manifesto intitulado "O abuso da Polícia Militar contra os palmeirenses". De forma oficial, nem o Palmeiras nem o presidente Paulo Nobre ainda deram declarações sobre o problema.

O texto, assinado por conselheiros de diversas alas políticas do clube (Academia, Chapa Palestra, União Verde e Branca, Confraria Palestrina, Democracia Verde, Dissidenti, Eternos Palestrinos, Fanfulla e Pró-Palmeiras) questiona a ação da PM na véspera do jogo, quando transcorria a eleição bienal para o Conselho e onde um bloco de carnaval percorria a Turiaçu e foi dispersado pela polícia com violência. "Não se pode apoiar ou mesmo compreender que seja necessário o uso de balas de borracha e bombas de efeito moral em vias públicas com grande presença de crianças, mulheres e idosos."

Sobre o confronto do domingo, o documento cita também o local da maior confusão e questiona o poder público sobre a truculência da ação. "Provocações à torcida adversária teriam ocorrido na esquina da Rua Padre Antônio Thomaz com a Avenida Antártica. No entanto, o tumulto generalizado provocado pela Polícia Militar ocorreu a 500 metros de distância dali, na esquina da Rua Turiaçu com a Caraíbas, onde até então a paz reinava entre os palmeirenses".

No texto, os conselheiros abordam um ponto que consideram fundamental, a falta de relação entre as pessoas que estavam nos bares e na frente do clube com a tentativa de briga ocorrida em outro local das imediações. "É o dever de agente público em agir com discernimento! Não se pode aceitar como legítimo e necessário que a Polícia Militar provoque com suas ações danos às pessoas e às propriedades que não tenham qualquer relação direta ou indireta com atos que reivindiquem a repressão dos agentes".

Os grupos políticos do Palmeiras pedem que a Corregedoria da Polícia Militar apure os fatos e puna os possíveis excessos cometidos na ação. Por fim, os palmeirenses ainda questionam os promotores da Justiça Paulo Castilho e Roberto Senise se eles irão investigar as atuações dos policiais no caso.

LEIA O DOCUMENTO NA ÍNTEGRA

São Paulo, 10 de fevereiro de 2015.

MANIFESTO - ABUSO DA POLÍCIA MILITAR CONTRA OS PALMEIRENSES

Nós, conselheiros da Sociedade Esportiva Palmeiras, representando os grupos políticos existentes em nossa associação, tendo presenciado ou sido informados dos atos desagradáveis e injustificáveis protagonizados pela Polícia Militar do Estado de São Paulo nos dias 7 e 8 de fevereiro, nas imediações da Sede Social da Agremiação que integramos, vimos por meio desta manifestar nosso repúdio aos atos anteriormente citados.

Nada pode justificar que representantes do Estado brasileiro, munidos do uso exclusivo da força que sua condição lhes dá, simplesmente atuem com excesso e de forma truculenta. Não se pode apoiar ou mesmo compreender que seja necessário o uso de balas de borracha e bombas de efeito moral em vias públicas com grande presença de crianças, mulheres e idosos. E nem se diga que houve quaisquer provocações ou desentendimentos que teriam ocorrido (segundo a PM) com pessoas ou grupos nas imediações do clube: é dever do Estado compreender que tais situações, ainda que não desejadas, são esperadas e corriqueiras, e que deve integrar a preparação de seus agentes a resposta contida e proporcional a tais eventos.

Tais “provocações ou desentendimentos” teriam ocorrido, segundo afirmações da própria Polícia Militar, na barreira da entrada da torcida adversária, vale dizer, na esquina da Rua Padre Antônio Thomaz com Av. Antártica. No entanto, o tumulto generalizado provocado pela Polícia Militar ocorreu a 500 metros de distância, na esquina da Rua Turiaçu com a Rua Caraíbas, onde até então a paz reinava entre os palmeirenses. As imagens feitas pela imprensa e por torcedores não deixam dúvida sobre o uso excessivo de força. Policiais Militares avançaram de forma totalmente desnecessária da Av. Sumaré em direção à Rua Caraíbas, atirando bombas e balas de borracha, quando aqueles que supostamente haviam iniciado o tumulto já haviam se dispersado. O excesso e o despreparo são evidentes.

Nesse sentido, “absolutamente necessário”, utilizando-se dos termos da lamentável nota oficial divulgada pela Polícia Militar, é o dever de agente público em agir com discernimento! Não se pode aceitar como legítimo e necessário que a Polícia Militar provoque com suas ações danos às pessoas e às propriedades que não tenham qualquer relação direta ou indireta com atos que reivindiquem a repressão dos agentes do Estado! Não se imagina que seja tarefa fácil: é contudo, seu dever inafastável, e episódios como os do último final-de-semana mostram que ainda grassa a visão, na Polícia Militar, que o torcedor de futebol é potencialmente um vândalo - ainda que milhares de pais, crianças, idosos na multidão atacada confiassem e aguardassem da atuação estatal uma resposta condigna ao seu status de cidadão, as bombas e balas de borracha reduziram tais pessoas a elementos em uma massa a ser agredida e dispersa.

O abuso de poder ficou claro também no dia anterior, quando um bloco de carnaval que ocupava parte na Rua Turiaçu, também com grande presença de crianças, mulheres e idosos, foi dispersado com uso de bombas de efeito moral (inclusive atiradas em brinquedos onde estavam crianças) e balas de borracha. Fica a pergunta: é praxe da Polícia Militar do Estado de São Paulo dispersar foliões dessa forma, ou só se estiverem nas proximidades do Palestra Itália?

Vivemos em um Estado Democrático de Direito! E, como tal, o cidadão exige e merece o devido respeito dos agentes desse Estado! Que venha a paz dentro e fora dos estádios, e que o Estado contribua, e não destrua essa possibilidade.

Exigimos a apuração dos fatos pela Corregedoria da Polícia Militar, punindo-se os responsáveis pelo abuso de poder, pelo excesso de força e pelo tumulto generalizado causado.

Por fim, aproveitamos ainda para indagar aos Srs. Promotores de Justiça, Dr. Paulo Castilho e Dr. Roberto Senise, sedizentes guardiões da paz nos estádios paulistas e brasileiros, a razão pela qual somente Clubes e Federação serão investigados.

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