Humilhação e rebaixamento

Atitude de Rodrigo não cabe mais no futebol, e custou um rebaixamento antecipado

Mauro Cezar Pereira, O Estado de S.Paulo

27 Novembro 2017 | 04h00

Antes de qualquer conclusão, caro leitor, gostaria de deixar claro que não sou adepto do chamado politicamente correto. Algo que em muitos casos se transforma em máscara para a hipocrisia e intimida as manifestações autênticas, humanas. Sim, tenho total consciência de que o esporte envolve vários aspectos e artimanhas, entre elas a intimidação do adversário, a guerra psicológica. Isso faz parte do jogo, seja ele praticado com as mãos ou com os pés.

O tenista procura a toalha fora da quadra, demora a sacar, simula uma lesão, faz de tudo para irritar o oponente quando percebe que o momento do jogo não é bom para ele. No vôlei, atletas se agridem verbalmente num cara a cara separado pela rede. No automobilismo, quem está prestes a ser ultrapassado cisca de um lado para o outro, retarda a freada, procura desestabilizar quem vem atrás, mais veloz e disposto a passar à frente.

A catimba, a manha, faz parte das disputas que, acirradas, tiram do sério. E quem a utilizar quer é tirar alguém do sério. São inúmeras as situações de guerrilha emocional em qualquer modalidade. No futebol sempre foi assim, é chute no calcanhar, palavras nada amistosas e cotovelos atuantes. Mas há limites, situações que são (acredite) mais violentas do que um soco na cara. É o caso do que podemos chamar de... agressão sexual. É quando um atleta se aproveita das circunstâncias da peleja para desestabilizar o rival humilhando-o.

Aconteceu na Copa América de 2015, quando o chileno Gonzalo Jara deu uma dedada no uruguaio Edinson Cavani. O defensor foi suspenso por três partidas e multado em US$ 7,5 mil dólares — cerca de R$ 25,6 mil. O fato se repetiu na Copa Libertadores deste ano, quando Rossi foi expulso após fazer o mesmo gesto numa disputa com Polenta, quando a Chapecoense, com dez homens, já perdia por 3 a 0 para o Nacional, em Montevidéu.

Rodrigo virou uma espécie de herói para torcedores do Vasco por provocar adversários. Após irritar Fred, quando o artilheiro era do Fluminense, obteve a renovação de contrato, decidida pelo presidente Eurico Miranda. Em 2016, beliscou os mamilos de Guerrero num clássico com o Flamengo. Foi suspenso posteriormente, mas houve quem o festejasse pelo ato. Ganhou fama por provocar o peruano, pegou uma carona na rivalidade entre os dois times cariocas. Malandragem? Ou seria o que podemos chamar de falsa malandragem?

No domingo, vestindo a camisa da Ponte Preta, Rodrigo repetiu Jara e Rossi. Seu alvo, Santiago Tréllez. O atacante do Vitória foi humilhado com a ação abjeta do zagueiro. O apitador Ricardo Marques Ribeiro não percebeu o ato, mas foi alertado pelo quarto árbitro, Felipe Alan Costa de Oliveira: expulso, cartão vermelho aos 19 minutos de partida, quando o time de Campinas vencia por 2 a 0. Isso mesmo, 2 a 0! Com um homem a mais, o rubro-negro baiano virou o placar, e o colombiano fez dois gols. O triunfo da equipe de Salvador (3 a 2) rebaixou a Macaca.

Castigo justo para Rodrigo. Injusto para a Ponte? Difícil dizer. O clube repatriou o polêmico beque revelado lá mesmo 14 anos depois de sua saída. Isso após defender São Paulo, Dínamo de Kiev (Ucrânia), Flamengo, Grêmio, Internacional, Vitória, Goiás e Vasco. Jogador experiente, rodado, conhecido por seu futebol, que sempre foi bom até, e também pelo comportamento discutível em certas situações. A Macaca assumiu o risco, e pagará caro por isso, com um rebaixamento que, talvez, poderia ser evitado. Hoje são mais câmeras de TV e mais integrantes na equipe de arbitragem de cada partida. O que passava despercebido é detectado. E custa caro. Bem caro.

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