Imagens à espera

Durante a execução do Hino Nacional os jogadores não sabem mais o que fazer

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

28 Maio 2017 | 03h00

Fique atento, controle digital à mão para troca rápida de canais, e olho direcionado para as imagens que se sucedem nos inúmeros canais de esportes à sua frente. A maioria das imagens não diz nada, é apenas repetição do que você já está cansado de ver, algumas vezes até acabou de ver, e lá vêm elas repetidas. De repente, porém, eis que você capta uma, diferente, que, não fosse a rapidez de seu olhar, teria se perdido e você já estaria em outro canal. É preciso, portanto, grande sincronismo entre olhar e mão. A mão se detém quando o olhar se detém. E você pode ser recompensado por alguma imagem que compensa sua dedicação e diligência.

Recomendo especial atenção para as imagens dos jogadores durante as execuções do Hino Nacional, sobretudo ultimamente, porque passou-se a executar o hino duplicando seu já naturalmente grande comprimento. Os jogadores não sabem mais o que fazer com suas caras, mãos, e pimpolhos nos braços. Sem contar outra inovação: depois do nacional, executam-se os hinos regionais! Sem comentários.

Quanto às imagens, geralmente são inesperadas, devidas ao acaso, de sabor irônico, quando não divertidas, exatamente porque não propositais.

Vou dar um exemplo: esta semana, tão atribulada para o País quanto para o Flamengo, desembarcava a delegação, depois de um jogo extremamente pobre contra o Atlético Goianiense, no venerando Santos Dumont. Como mil vezes se faz, um repórter abordou um jogador que desembarcava, fez uma pergunta talvez mil vezes repetida e o jogador começou a responder da maneira também óbvia. Até aí era uma imagem ultra comum: quase close do jogador, e dá-lhe respostas convencionais.

Alguma coisa estranha no fundo, porém, instintivamente me impediu de mudar de canal. E fui recompensado com momentos de grande interesse. Ocorre que à fala do jogador se misturaram instantaneamente vozes possantes entoando, em coro exaltado, um sonoro “Fora Temer!” Não era uma ou duas pessoas, passantes ocasionais do Santos Dumont: era um coro organizado, uma manifestação à espera de oportunidade, que lhe foi dada pelo canal em questão, e pelo Flamengo.

Ninguém podia fazer nada. Não dava para interromper bruscamente sem risco de dar mais destaque ainda ao protesto. A entrevista prosseguiu, mas o jogador falava mecanicamente. Não olhava para a câmera, mas ao redor. Expressaria certa preocupação de que alguém imaginasse que ele fizesse parte do protesto? Ou tivesse alguma coisa a ver com ele? O câmera fechava mais o plano, eliminando qualquer possibilidade de enquadrar alguém do coro. 

Um dado curioso é que o jogador ostentava marcas recentes de pontos cirúrgicos na altura do olho. Tudo, até o olho ferido, dava à cena um clima de protesto de rua. O coral, mais do que audível, crescia mais e mais, como se a proximidade entre jogador e manifestantes diminuísse. Realmente, talvez pensando em telespectadores, “fãs do esporte” com problemas auditivos, os manifestantes aproximaram do quadro, por trás do jogador, um cartaz, com um caprichado “Fora Temer!” bem legível, para dirimir qualquer dúvida.

Isso foi a gota d’água para a TV, que fingia que não estava acontecendo nada. Aproveitando-se de uma pausa minimamente decente feita pelo jogador, a imagem foi cortada com incrível rapidez. Imagens como essa parecem pouco, mas têm sua importância quando retiram um pouco da paz que reina no futebol, nos estádios e nas arenas, onde, haja o que houver no País, as carinhas risonhas e felizes estão sempre lá nos telões a nos assegurar que reina a paz no melhor dos mundos. O problema é que fora desses recintos de fechados existem as ruas, as avenidas, os aeroportos....

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