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Futebol

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Ugo Giorgetti

12 Fevereiro 2017 | 06h00

Dois argentinos estão sentados num bar de Corrientes, tomando um café. São jovens, alertas e vivos. São dois jogadores de futebol. Começaram juntos nas equipes inferiores de tradicional time de Buenos Aires, foram em frente na carreira e chegaram aos times principais. Separaram-se e durante um tempo e não se viram mais. Nessa bela tarde de sol, como são “las tardecitas de Buenos Aires”, como diria Piazolla, conversavam.

Um deles falava muito mais. Era o que tinha regressado do Brasil uns dias antes e estava de folga de seu time. Jogava numa grande equipe e contava ao outro como eram as coisas aqui na terra. Primeiro começou falando dos estádios, às vezes magníficos, às vezes taperas em que a água da chuva era retirada do campo com funcionários empunhando rodos. Nuns se podia ver um tipo de público, todos bem vestidos, de lindas dentaduras brancas; noutros o aspecto da torcida dava dó. De qualquer forma, acrescentou, caminhava-se a passos largos para expulsar definitivamente gente miserável dos estádios.

O amigo acreditasse se quisesse, mas futebol no Brasil tinha passado a ser uma coisa de ricos. Uma arquibancada como as argentinas, com as torcidas enfurecidas cantando loucamente, insensatamente, como a torcida do San Lorenzo, por exemplo, isso nem pensar.

Sim, havia violência, mas residual. De vez em quando morria uma pessoa, falava-se sobre isso durante dois ou três dias, depois silêncio. Afinal quem entrava e saia do estádio dentro de carros com vidros indevassáveis, ou mesmo à prova de balas, não corria perigo. A violência era uma coisa a ser resolvida na porrada entre a polícia e quem a enfrentava.

O outro só ouvia atentamente. O amigo continuava a descrever os vestiários de mármore, os departamentos médicos de luxo, enfim, o primeiro mundo. Fora os salários. Agora se pagava o que seria impensável na Argentina.

Disso o outro jogador sabia. Já tinha ouvido relatos de outros boleiros. Resolveu, então, perguntar pelo jogo. Como era jogar no Brasil, como eram as coisas no campo? Tinha ouvido alguns boatos, mas não tinha acreditado muito. O outro assegurou a ele, imediatamente, que os boatos eram em sua maioria verdadeiros. Imagine, que eles não têm mais jogadores de meio-campo! Eles, que povoavam o meio-campo com jogadores que punham a bola onde queriam, agora partiam para buscar fora quando estavam desesperados.

Veja só, disse ele, lá estão D’Alessandro, Conca, Montillo, Dátolo, até um venezuelano chegou recentemente.

O outro ouvia calado. E no ataque a mesma coisa. Eles, no Brasil, não têm mais atacantes! É verdade, apareceu o garoto Jesus, mas já foi para a Inglaterra e, então, eles nos procuram ! E pagam fortunas! O outro concordou. Tinha recebido um relato de Barcos, o centroavante que deixou saudade em vários times e ainda é cogitado para voltar.

Pois é, disse o outro, você lembra do Lucas Barrios? Ele ainda joga? Se joga não sei, mas sabe quanto ganha? Não vou dizer porque você não vai acreditar. Estamos todos lá: o Chaves, por exemplo, e, naturalmente, o Lucas Pratto que, parece, será contratado agora para substituir sabe quem? O nosso Calleri que, depois de seis meses de Brasil, foi para a Europa.

Acredite! Todos estamos nos dando bem. Eles não têm mais jogadores de ataque. Quase todo o pessoal que contratam aqui joga do meio para frente. E pensar que esse era o forte deles!, diz o amigo perplexo. Era, mas não é mais é mais, respondeu o argentino do Brasil.

E, por fim, escute o melhor: você não imagina o intercâmbio. Você é contratado e vendido depois de seis meses para a Europa, China, ou sei lá. Se lá você dá certo, muito bem, mas, se não der, eles te contratam de volta! Às vezes a mesma equipe! te dás cuenta? O outro responde: “No, no entiendo”. “Yo tampoco, pero asi es en Brasil. Que pais, che! Vuelvo para alla mañana.”

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