Manoel Façanha/Estadão
Manoel Façanha/Estadão

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

23 Abril 2017 | 07h00

Jogador dormindo no chão do ônibus, time fixando o escudo na camisa com grampeador, uma delegação inteira “presa’’ num hotel para evitar calote no pagamento das despesas, jogador reclamando de ter atuado com fome, greve... A vida é dura nos clubes pequenos do futebol brasileiro, muitos dos quais não terão o que fazer com o fim dos campeonatos estaduais.

Dinheiro curto, estrutura precária e em muitos casos administrações danosas expõem quem habita esse lado B da bola a riscos constantes de passar por situações desagradáveis e constrangedoras na profissão.

Há casos pitorescos como o do Andirá, time do distante Acre. Num jogo contra o rival Alto Acre, a equipe estreou novo uniforme (comprado em loja novinho), que teve os escudos colados nas camisas em uma malharia de Rio Branco. Porém, o serviço foi malfeito e os distintivos começaram a descolar durante o aquecimento, com o suor dos atletas. Como o time não poderia jogar com uniforme incompleto, sem o escudo no peito, como manda a regra, o jeito foi recorrer a um grampeador, clipes e esparadrapo para fixar os brasões nas camisas. 

“A gente estava no campo quando o juiz avisou que teríamos de resolver o problema. Do contrário, o time perderia por W.O. Aí, demos um jeito’’, disse o vice-presidente do “Morcego’’, João Renato, ao Estado. Menos mal que o Andirá venceu o jogo, de virada, por 3 a 2, e se livrou do rebaixamento.

O União Barbarense não teve a mesma sorte e caiu para a Série A3 do Paulista – encerra hoje sua participação na A2, contra o Capivariano. A queda é o capítulo final de meses da penúria financeira que levou a situações inusitadas. Como a que ocorreu antes de confronto com o Batatais. Para economizar na hospedagem, o elenco viajou no dia da partida e, para descansar, os jogadores dormiram no chão do próprio ônibus.

O fato incomum incomodou o meia Melinho, ídolo da torcida – essa é sua sétima passagem pelo clube –, que aos 37 anos já havia pendurado as chuteiras, mas decidiu voltar para tentar ajudar o time. “É olha que aquele ônibus ainda era bom. Tinha wifi e ar-condicionado. Depois daquele jogo, viajamos em ônibus piores. (A situação)é das piores que já passei’’, disse o atleta, que registrou em foto o descanso de seus companheiros durante o trajeto de 238 km entre Santa Bárbara D’Oeste e Batatais.

FOME

Há situações bem mais complicadas, como a vivida por jogadores do Central de Caruaru num confronto com o Náutico pelo Campeonato Pernambucano (derrota por 5 a 0). Após a partida, o zagueiro Sanny Rodrigues disse ter jogado com fome. “Nós almoçamos ao meio-dia e depois não teve mais nada para comer. Nem lanche nem nada’’, reclamou. Aquele jogo começou às 19h30.

O caso gerou a abertura, no Conselho Deliberativo do Central, de um processo de impeachment do presidente Licius Cavalcanti. O gerente de futebol do clube, Adrinaldo Barbosa, nega que os jogadores tenham ficado sem comer. “Eu fiquei até surpreso, porque ele sabe que isso não aconteceu. Naquele jogo, estavam relacionados 20 atletas e nenhum outro reclamou disso.’’ Barbosa acredita que Sanny, “que tem 20 anos e grande futuro’’, foi orientado por agentes a criar tumulto para forçar sua saída do time. O zagueiro permanece no Central.

Os jogadores do Batatais, sexto colocado na A2 do Paulista, também reclamaram várias vezes durante o torneio de deficiência na alimentação. Mas sufoco mesmo passaram antes de um compromisso com o Taubaté, no Vale do Paraíba. Eles foram impedidos de sair do hotel onde se hospedaram porque o clube havia pago apenas parte das despesas. A liberação só ocorreu quando o pagamento total foi feito. Com isso, a delegação chegou ao estádio em cima da hora e o jogo começou com a atraso. Apesar do constrangimento, a equipe fez sua parte e venceu o Taubaté (2 a 1).

O caso aconteceu em fevereiro, e depois disso o então presidente André Toffetti renunciou. Reinaldo Barbo assumiu o posto e, com ajuda do Conselho Deliberativo, tenta colar os cacos. “A culpa foi da administração (anterior) do Batatais. Desde que assumimos, não tivemos mais problemas nem com hotel nem com alimentação.’’ Mas as pendências ainda não acabaram: os jogadores têm dois meses de salários atrasados. 

Essa situação já levou os atletas a fazerem greve no clube. Detalhe: a paralisação aconteceu um dia antes desse mesmo jogo com o Taubaté e foi encerrada para não deixar o time na mão. Mal sabiam que ainda ficariam presos por horas num hotel.

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Almir Leite, O Estado de S.Paulo

23 Abril 2017 | 07h00

João Paulo Lourenço comanda o Andirá dentro de campo. É o armador do time. Mas manda muito do lado de fora também. João Paulo é o presidente do clube do Acre. Aos 36 anos, ele se tornou “jogador-presidente’’ no fim do ano passado.

Com o clube passando por grave crise financeira, e dificuldades, aceitou o convite de amigos ligados ao Andirá – lá começou a jogar, no ano de 2000 – e topou a missão.

“Aceitei para tentar ajudar o Andirá’’, disse João Paulo, que tem mandato de três temporadas, ao Estado.“A gente correu atrás de patrocínio e não conseguiu. Montamos um time de garotos, de 20 e 21 anos. Tem até de 17. O objetivo era manter a equipe na primeira divisão.”

Isso o fez vestir o terno sem tirar as chuteiras. “Só participei para reduzir a responsabilidade deles (dos garotos). Se as coisas não dessem certo a culpa seria minha. Mas deu. Mérito deles.’’

A continuidade da função dupla, diz João Paulo, dependerá de o clube conseguir ou não parceiros para pagar as contas (o orçamento é de R$ 40 mil/mês). “Se conseguir patrocínio, não há necessidade de eu jogar.’’

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O Estado de S.Paulo

23 Abril 2017 | 07h00

Do campo para a cadeia. Foi o que aconteceu no dia 17 de março com o técnico Cláudio Britto, do Barbarense. Após o jogo em que o seu time perdeu para o Mogi Mirim por 4 a 1, ele recebeu ordem de prisão. Motivo: não pagamento de pensão alimentícia.

No caso de Cláudio, o valor destinado a ex-mulher e ao filho deve ser descontado em folha desde 2013. O União é responsável pelo repasse. “Mas quando chegou a ordem de prisão, o histórico mostrou que desde 2015 não era depositado um centavo na conta do meu filho.’’

A dívida chegou a R$ 14 mil e ele foi preso. Era um sábado e Cláudio só foi liberado na terça-feira, após o pagamento ser feito, com a ajuda da atual esposa do treinador e de dirigentes do clube.

Cláudio Britto foi jogador do Barbarense e é funcionário registrado. Continua trabalhando lá, mas estuda a possibilidade de acionar judicialmente o clube por danos morais. O Estado tentou por diversas vezes, por telefone, falar com o presidente atual do União Barbarense, Jairo Araújo de Macedo, mas não obteve sucesso.

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