Jogando para o gasto

A queda do Corinthians não surpreende. Inesperado foi o desempenho do 1º turno

Mauro Cezar Pereira, O Estado de S.Paulo

02 Outubro 2017 | 04h00

Com gorda poupança acumulada em inusitada e estupenda campanha na metade inicial do campeonato, o Corinthians tem feito o bastante para seguir líder no Brasileiro. Se ao final do turno tinha sete pontos à frente do vice-líder, Grêmio, agora são oito para o Santos, atual segundo colocado. Mas se 57 pontos estavam em jogo, agora só 36 podem ser conquistados.

A queda do time sensação do certame não surpreende. Inesperado foi o desempenho das 19 rodadas iniciais, rendimento inédito na Série A. O Corinthians entrou na normalidade, como era de se imaginar. Caiu o número de finalizações e de gols assinalados. A defesa nem leva tantos tentos (seis em sete partidas), mas o ataque é o segundo pior do returno, no qual os corintianos têm somente a 15.ª campanha.

O Corinthians joga pro gasto. Graças também à ‘gordurona’ acumulada, como definiu o técnico Fábio Carille após o 1 a 1 deste domingo com o Cruzeiro. E jogar pro gasto é a tônica do futebol praticado no Brasil, salvo exceções. O pragmatismo impera e serve de muleta para técnicos que trabalham apenas em cima dos resultados, mesmo que tenham grandes elencos, capazes de oferecê-los junto a um bom futebol.

O Palmeiras de Cuca, campeão no ano passado, era assim. Vitórias magras sobre adversários fracos na reta final eram invariavelmente justificadas apontando para o placar. Só ele parece importar, esquece-se do óbvio: bons jogadores que praticam bom futebol se aproximam naturalmente das vitórias e consequentemente dos títulos. Mas neste ambiente onde praticamente todos trabalham com tão pobre pensamento, isso é o bastante para a maioria dos torcedores e imprensa.

Adversário dos corintianos, o Cruzeiro exibiu pragmatismo radical na final da Copa do Brasil. Como levantou a taça diante de um Flamengo semi-inofensivo e com goleiros fracos, quase não se discute a proposta fria, cautelosa de Mano Menezes. Se times com mais recursos técnicos atuam assim, por que Carille não faria o mesmo? Ainda mais com a vantagem construída quando, dentro de suas possibilidades, o Corinthians foi além, mostrou mais. E abriu vantagem justamente porque não jogou apenas pro gasto.

AMBIÇÃO

Times dirigidos por Pep Guardiola têm desejo pela vitória latente, claro, obsessivo. Foi o que se viu sábado, quando seu Manchester City triunfou na casa do Chelsea. O placar mínimo não traduziu a supremacia construída a partir da mente de um treinador que desconhece estratégias pragmáticas. Fora de casa, encarando o campeão inglês, dirigido pelo não menos workaholic Antonio Conte, Pep e sua equipe nos brindaram com algo que parece outro esporte se comparado ao que temos por aqui. A humanidade precisa de homens inspiradores. O futebol precisa de técnicos como Pep.

ATÉ DEBAIXO D’ÁGUA

Palmeiras e Santos fizeram um jogo comprometido pelo gramado encharcado. Mas na segunda metade da peleja já era possível praticar futebol. Os palmeirenses atacaram muito, mas de forma atabalhoada, cruzando 42 vezes, todas erradas. Pobreza de ideias num elenco que pode mais. No final, 1 a 0 para os santistas.

UFA, UFA, SÃO PAULO

O São Paulo está fora da zona de rebaixamento. Alívio com o 1 a 0 sobre o Sport, celebrado como um título após as espetaculares defesas do contestado e irregular Sidão. A situação vivida é daquelas em que se entende a busca pontos sem pensar na qualidade do jogo. É vida ou morte.

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