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Jogo frio

Ugo Giorgetti

Estava pensando na porção do teto que despencou na nova “arena” do Corinthians. E também em alguns buracos que apareceram perto do estádio e que ninguém sabe como surgiram. Esses episódios não ocasionaram nada de grave felizmente, mas não deixa de ser intrigante a maneira como esses novos estádios parecem frágeis. Por uma associação involuntária de ideias meu pensamento vai até ao Rio de Janeiro e às suas “arenas”. Em nenhum lugar elas me parecem tão problemáticas. O monstrengo que um dia foi o Maracanã dá a impressão de eternamente inconcluso, sempre em reparos e proibido para jogos. O Engenhão, estádio que o Botafogo assumiu e que, de maneira imprudente, batizou de Nilton Santos (!) é um mistério maior ainda, cheio de imperfeições e defeitos de toda ordem. Assim os dois maiores estádios do Rio permanecem fechados para o futebol, claro que preparando-se para a Olimpíada. Há sempre um motivo. Desta vez são os jogos olímpicos que demandam modificações nas obras.

No meio disso tenta-se fazer com que transcorra um dos mais tradicionais e simbólicos torneios regionais do país. Para que prossiga são necessários estádios. E o fato é que, no caso, a tão propalada modernidade lançou o Rio de Janeiro na mais distante pré história. Quero dizer que o único estádio do Rio de Janeiro, apesar de Pan americano, Copa e preparativos da Olimpíada, é São Januário. Sim, o velho estádio anterior ao Pacaembu e ao Maracanã, o estádio de Getúlio Vargas e dos grandes comícios, o estádio da década de 30 do século passado. E graças a Deus temos São Januário, sua mística e seu encanto ainda intactos. Lá jogaram recentemente Vasco x Flamengo sem nenhum problema, o que prova sua eficiência. Espero que ninguém lembre de modernizar São Januário, como fizeram com o ex-Maracanã.

Já falei aqui do crime que se cometeu contra o estádio, contra o Rio e, por decorrência, contra o Brasil. O Maracanã era parte da história do Brasil e não passa pela cabeça de ninguém no mundo descaracterizar um monumento nacional, testemunha de seus feitos. Infelizmente as melhores cabeças do Rio não foram suficientes para deter a barbárie. O resultado disso é que atualmente times do Rio vagam pelo Brasil cumprindo tabela do ...Campeonato Carioca!

O Flamengo anda pelo país inteiro jogando partidas contra outros times do Rio. Argumenta-se que o Flamengo, por exemplo, tem torcedores em todo lugar. Não é verdade. Torcedor do Flamengo está no Rio, onde sempre esteve. Em outras partes tem simpatizantes, só isso, o que é coisa completamente diferente. Outro dia tivemos um patético Fla x Flu jogado em Brasília. Essa cidade não existia sequer em delírios, vagos sonhos, quando o Fla x Flu já empolgava por décadas e décadas multidões de torcedores no Rio de Janeiro. Um Fla x Flu em Brasília é uma piada negra, certamente involuntária, de quem organiza hoje o futebol brasileiro. Cada vez que se diminui um clássico como esse diminui-se, ao mesmo tempo, o futebol brasileiro. Toda grande catástrofe é feita de pequenas causas somadas. Nesse sentido um Fla x Flu em Brasília é também causa dos 7x1 da última Copa. Na falta de melhores palavras para registrar minha decepção por todos esses desmandos de que o Rio é vítima, em especial um clássico que acompanho, mesmo à distância, desde criança, termino com Nelson Rodrigues: “Sempre digo que o Fla X Flu não exige grandes times. E tampouco é preciso um altíssimo nível técnico. O que importa é a emoção. O que ninguém aceita é o Fla x Flu frio. O dia do clássico começa com os automóveis em disparada, as bandeiras ventando em procela. E os garotos na rua com estandartes guerreiros. Reparem hoje no “Mario Filho”, como é azul a multidão do Fla x Flu”.

Felizmente Nelson Rodrigues não está por aqui pra ver esse jogo em Brasília. O Fla x Flu frio finalmente aconteceu.

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