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É preciso estar de olho aberto no Brasil de hoje. Qualquer notícia deve ser lida com cuidado, examinada, para enxergar o que ela contém nas entrelinhas, tentar desvendar a mensagem oculta que se suspeita existir nas mais inocentes mensagens, nas mais inócuas declarações. É o resultado de um tempo de suspeitas e desconfianças que se espalhou pelo País. 

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Ugo Giorgetti

27 Março 2016 | 03h00

Um bom exemplo é o conflito entre a Polícia Militar (PM) e os Gaviões da Fiel, que vem se repetindo de forma alarmante. A quem interessa o conflito? Certamente não à PM. Essa força policial pode ser truculenta, às vezes mal preparada e agressiva, mas não inicia conflitos. Reage a eles, muitas vezes de modo desproporcional e violento. Pode agravar conflitos, mas não iniciá-los. É nesse sentido que esse caso com os Gaviões surge como novidade. Quem é realmente o responsável por ordens de retirar dos estádios faixas de protesto e de conteúdo reivindicatório? Quem encarrega a PM de fazer esse trabalho? 

Como se explica que, num momento em que há livres manifestações de protesto pelo País inteiro, em que multidões vão às ruas carregando placas com todos os insultos possíveis, atingindo todos os políticos de uma parte e de outra, da presidência da República até figuras menores recém surgidas no noticiário das TVs e jornais, na cidade de São Paulo uma torcida fica proibida de expressar sua opinião estampada em faixas de protesto sem um único insulto, sem insuflar nenhuma depredação, sem incitar a qualquer baderna, apenas expressando seu ponto de vista a respeito de questões que, de resto, ocupam, ou ocuparam, os jornais recentemente.

Qual o problema de protestar contra a Rede Globo de Televisão? Ou contra a CBF? Ou contra a lentidão das providências sobre o escândalo da merenda escolar? Não gostaria de acreditar que a liberdade que existe em São Paulo depende quem a exerce. 

Os Gaviões da Fiel não são santos. Quem o é, aliás, no Brasil de hoje? É possível que se a origem da proibição não repouse exatamente apenas num capricho da PM, a origem dos protestos e faixas também obedeça a origens nem sempre claras. No fundo sempre navegamos em águas turvas neste País. Mas não é isso que importa. O que Importa o é o direito de protestar em qualquer lugar e contra qualquer um, respeitando o que a lei consente.

E, no caso, há uma outra questão que deve ser levada em conta. A própria Gaviões da Fiel. Essa torcida foi criada em 1969, pouco depois do AI-5 que estabeleceu plena ditadura no País, e se mostrou desde o início um foco de resistência contra o governo autoritário.

Integrantes da Gaviões tiveram que se explicar no Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops), o centro da polícia política do regime autoritário. Nunca deixaram de participar. Estavam lá no momento da Democracia Corintiana e, consequentemente, no movimento das Diretas Já, leais àqueles que a tinham fundado em 1969. Houve outros episódios em que, menos visíveis, estavam lá. A biografia que singulariza essa torcida tem que se levar em conta quando se tira de suas mãos uma faixa de protesto. 

Um ato desses traz inevitavelmente a lembrança de outras arbitrariedades e violências que já se teve que enfrentar no passado e que se supunha erradicadas dos costumes políticos no País. Será que estão mesmo? 

O nosso Cruyff. Acaba de morrer o craque Cruyff e merece todas as homenagens. Mas nós também tivemos o nosso, bem antes desse. Também era centroavante, também era pequeno e frágil. Também se desviava frequentemente da área, andava por todas as partes do campo, metia bolas impossíveis e quando menos se esperava, entrava de surpresa na área e marcava. Teve carreira curta, morreu em silêncio faz muitos anos. Lembro dele no maior ataque que, na minha opinião, o Santos jamais produziu: Dorval, Jair Rosa Pinto, Ele, Pelé e Pepe. Seu nome era Paulo Cesar Araujo, o Pagão.

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