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Limbo do futebol

Para a rapaziada que curte futebol e mantém o bom gosto de ler jornal talvez diga pouco ou nada. Mas, para a turma mais madura, esta época do ano era fascinante. Afinal, após período de férias da bola, e da escola, havia a largada da temporada esportiva com a disputa dos campeonatos estaduais. 

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Antero Greco

29 Janeiro 2016 | 03h00

Os duelos entre equipes locais representavam o máximo, atraíam interesse geral. Em segundo plano ficavam Rio-São Paulo, Copa do Brasil, Robertão, Libertadores e similares. O pega para valer se resumia à “briga” de cidades vizinhas. 

O desafio dos grandes se concentrava na busca pelo título. Para os pequenos, o orgulho ficava na boa colocação, na permanência na elite e algum ponto roubado dos poderosos. E, no fim do ano, festejar a grana que entrava com a revelação de craques que iam para a capital ou reforçariam o Santos. 

Isso acabou, faz parte do passado, virou lenda, conversa de saudosista. Os Estaduais ano após anos veem murchar o fascínio que antes provocavam. Para os times importantes, se transformaram em estorvo e prejuízo. Já as agremiações com menos recursos rezam para que cheguem logo os três meses em que ficarão na vitrine, para depois hibernar sem a certeza de estarem com as portas abertas no ano seguinte.

Não é por acaso que muitos times com história e tradição encerraram atividades, desapareceram do mapa ou restringiram a atuação a esporádicas atividades sociais. Há os que sobrevivem com recursos municipais, de acordo com aspirações políticas, caixa e humor do governante da hora. Ou, exemplos cada vez mais frequentes, aqueles que cederam nome para empresários exporem a mercadoria por algum tempo, para caírem fora na sequência. 

Os Estaduais perdem sentido, uma pena, sobretudo no que se refere ao Paulista. Por aqui havia jogos de bom nível, mesmo se, no fim das contas, a festa invariavelmente iria para Santos, Corinthians, São Paulo ou Palmeiras. Não envergonhava; ao contrário, era uma honra jogar contra camisas de peso. Hoje, servem para justificar a existência de entidades obsoletas como as federações. Faz sentido, digamos, uma Ferj pressionar Fla e Flu, que preferem participar da Liga Sul-Minas-Rio?

Qual o ganho técnico e financeiro que o quarteto dos maiorais de São Paulo tem ao realizar 15, 20 partidas na Série A-1? Que parâmetro terão, para medir a própria capacidade, diante de formações mambembes, de ocasião e com data para se desmilinguirem? O título deixa o torcedor contente – e nada contra a felicidade. Mas não garante o selo de qualidade para empreitadas maiores que se enfileiram no ano. 

O desalento se torna maior com a constatação de que não vingou, ainda, um substituto à altura dos campeonatos domésticos. As Copas regionais surgem como alternativas razoáveis, por atiçar diferenças bairristas. A Copa do Brasil é bacana por ser curta e pelo formato de eliminação direta.

O Brasileiro tem destaque por reunir o que há de melhor. Mesmo ele é enganoso, porque na prática virou um tira-teima de Sul com Sudeste, fora um ou outro intruso do Centro-Oeste, do Norte e do Nordeste. É atração para a grade de televisão.

O amigo que chegou até este trecho da crônica pode dizer: “Sujeito estraga-prazeres! Não gosta de nada.” Faz sentido, embora não seja assim. A intenção é estimular reflexão e discussão. Os Estaduais poderão recobrar papel relevante se houver mudança na forma de administrar o futebol em nosso magnífico país.

Para início de conversa, os clubes deveriam mandar no próprio nariz – sem CBF e federações a meter o bedelho. Deveriam criar calendário em que tivessem atividade o ano todo; democratizar vagas nas séries menores do Brasileiro; ratear de maneira inteligente as verbas de publicidade e tevê (os direitos de transmissão não poderiam ser monopólio). E convencerem o torcedor de que qualquer torneio tem real valor. 

Propostas absurdas? Não. Difíceis de colocar em prática? Muito, com a cartolagem que anda por aí.

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