Loucos e loucuras

Um clássico era esperado como se esperava a estreia de um filme muito falado

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

14 Maio 2017 | 03h00

Meu caminho diário me faz passar por algumas ruas da Vila Madalena cheia de bares badalados. Graças a Deus meus horários me permitem não passar à noite. Durante o dia, quando passo, os bares estão vazios. Mas não tão vazios. Em todos eles, invariavelmente há um telão e no telão transcorre um jogo de futebol. Os telões fazem plena justiça ao nome: são telas imensas, algumas, tenho certeza, não menores do que de muitos cinemas da cidade. O sinal fecha e, paralisado dentro do carro, às três horas da tarde ou onze da manhã, posso olhar o bar mais próximo. 

A tela gigantesca mostra um jogo que não tenho a mínima ideia de qual seja. Tenho a visão treinada de qualquer torcedor antigo. Num relance, até com o carro em movimento, era capaz de distinguir se quem jogava era o Corinthians, o Santos, o São Paulo ou o Palmeiras. Ou mesmo Flamengo e Botafogo. O Vasco podia ser a Ponte Preta, é verdade. O São Paulo, de repente, podia ser o Botafogo de Ribeirão, ou o Palmeiras, o Goiás. Mas era só isso. 

Agora não distingo mais nada, os uniformes deixaram de lembrar o clube como ele era. O sinal não abre e não consigo tirar os olhos das enigmáticas figurinhas correndo pela tela gigantesca. O espetáculo é notável também por essa outra particularidade: não há rigorosamente ninguém assistindo. 

A essa hora da manhã ou da tarde o bar está completamente deserto, mesas inteiramente desocupadas, ninguém à vista. Por que então essa transmissão fantasmagórica, essa tela imensa transmitindo para espectadores invisíveis? Suspeito que o pessoal do bar tem instruções precisas de ligar a TV como primeira providência ao colocarem o pé no local. Talvez já seja um reflexo condicionado, automático, quase inconsciente, talvez nem percebam que já ligaram a televisão antes de terem feito um simples café. 

O carro anda penosamente pela rua de trânsito lento e vou observando outros bares que se sucedem. Todos com TVs ligadas e algum jogo. Todos desertos. Desconfio que o futebol está virando isso, algo automático que se olha, mas não se vê. Apenas faz parte da ornamentação dos bares, faz parte do cenário, como carrões parados na porta, ou motos enfileiradas na frente. É a banalização do futebol, é a demolição do mito, porque futebol era isso, um acontecimento localizado na região do mito, da lenda, um espetáculo raro. 

Um clássico era esperado como se esperava a estreia de um filme muito falado que chegava ao Brasil. 

Essa demolição deve-se ao louco que organiza o futebol brasileiro. Deve haver um louco. Talvez guardado, oculto numa sala escura da CBF, uma espécie de prisioneiro que só é solto por curtos períodos, nos quais se ocupa da tarefa de organizar os torneios do ano e a participação dos clubes neles. 

O louco trabalha com tenacidade e, deve-se reconhecer, incrível talento insano, para criar o que está aí. Na sua solidão executa um primor de trabalho. Ninguém sabe mais em que torneio está jogando, ninguém sabe mais onde seu time está metido. Sabe-se apenas que a um só tempo estão todos ou na Copa do Brasil, ou na Libertadores, ou na Recopa, ou na Sul Americana, ou na Copa do Nordeste, ou no Campeonato Brasileiro, ou no diabo que carregue o louco que organiza isso.

O torcedor não sabe mais se comemora uma vitória ou uma derrota. Não sabe mais se uma derrota é honrosa, porque nunca ouviu falar do rival e não sabe mais se uma vitória deve ser comemorada, pelo mesmo motivo. O louco, isto é, a mente que organiza isso, deve ser identificada e recolhida a um sanatório antes que tudo acabe. Antes que o futebol vire diminutas figuras numa tela enorme, correndo por campos não identificados, jogando partidas misteriosas, vistas por ninguém.

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