Marcos foi um torcedor debaixo das traves e um santo para torcida

Marcos deixou de ser apenas um goleiro do Palmeiras. É o maior ídolo da torcida, que o admira por sua defesa incondicional do time

Daniel Batista, Diego Salgado, Glauco de Pierri e Gustavo Zucchi, O Estado de S. Paulo

26 Agosto 2014 | 06h00

Ídolos não faltam ao Palmeiras. Em 100 anos de história, muitos jogadores conquistaram o coração da exigente torcida. Desde Heitor, o maior artilheiro do clube, passando por craques como Oberdan, Julinho Botelho, Dudu, Ademir da Guia, Evair, Edmundo. Mas nenhum é tão idolatrado pelo palmeirense de todas as idades como Marcos Roberto Silveira Reis, o São Marcos, eterno camisa 12 do clube e que saiu da pequena cidade de Oriente, no interior paulista, para ganhar a América com o manto Alviverde e o mundo com a camisa da seleção brasileira.

Marcos encerrou a carreira no final de 2012. Em toda sua carreira, sempre defendendo o Palmeiras, sofreu muito com contusões e a dura rotina da recuperação de suas lesões. Sua história no Palmeiras é gigante e começa em 1992, quando veio das categorias de base da Lençoense para o Verdão.

Ainda jovem, disputava seu espaço com mais nada menos do que seis goleiros: Carlos, Velloso, Ivan, Sérgio, César, Nivaldo e Wilton. Semanas depois, com 18 anos, foi relacionado para ficar no banco de reservas em um clássico contra o Corinthians e estreou como titular em um amistoso no dia 10 de maio daquele ano, em um amistoso contra a Esportiva de Guaratinguetá – vitória por 4 a 0.

Depois, passou alguns anos apenas “comemorando títulos” na reserva de Sérgio. Dois Paulistas e dois brasileiros, em 1993 e 1994. O goleiro voltou a atuar na equipe titular no Campeonato Paulista de 1996. Em uma partida contra o Botafogo de Ribeirão Preto, o Palmeiras vencia por 4 a 0, com show de Rivaldo, Djalminha, Luisão e Müller e o time do interior time um pênalti. Paulo César bateu no canto direito e o goleiro se esticou todo e espalmou para escanteio.

Sua chance real de assumir a titularidade do Palmeiras surgiu em 1999, com a contusão de Velloso ainda na primeira fase da Libertadores. Marcos assumiu o posto e em dois jogos contra o Corinthians fez pelo menos 20 defesas incríveis, além de ter defendido pênalti batido por Vampeta. Era ali que o goleiro se tornava imortal – um santo, canonizado pela torcida Alviverde como 'São Marcos'. 

Contra o Corinthians, podem chutar o meu braço. Mas a bola, não vão chutar, não!", disse Marcos ao jornalista Mauro Betting, no livro “Os dez mais do Palmeiras”. E o goleiro cumpriu sua promessa. Mesmo tendo falhado na final do Mundial de Clubes de 1999 contra o Manchester United, se redimiu na semifinal da Libertadores de 2000, quando mais uma vez nos pênaltis ajudou seu clube do coração a superar o maior rival, defendendo cobrança de Marcelinho Carioca. 

Em 2002, Marcos fez o Brasil inteiro se convencer de que era mesmo um santo. Na Copa do Mundo da Coreia e do Japão, ajudou a seleção brasileira a conquistar o pentacampeonato com defesas incríveis. Principalmente nas oitavas de final, contra a Bélgica, e na final contra a Alemanha. Na volta ao País, colocou a camisa do Palmeiras para celebrar o título no Palácio do Planalto, em Brasília. Meses depois, ganhou de vez o coração do mais frio torcedor ao recusar uma proposta milionária para defender o Arsenal, da Inglaterra, e ficar no Palmeiras e disputar a Série B em 2003.

Marcos ajudou o Palmeiras a voltar à primeira divisão e por anos foi um dos únicos motivos de alegria ao torcedor do clube. Em 2008, conquistou o Paulistão emocionando os jogadores com seu discurso na preleção, onde disse que se “quebraria todo, mas que o time sairia campeão contra a Ponte Preta”. Em seu jogo número 500, ficou envaidecido com homenagem da torcida, que preparou um lindo mosaico com o rosto do jogador nas arquibancadas.

Marcos decidiu se aposentar por conta dos problemas com contusões. Antes, porém, já como torcedor, comemorou como um louco a conquista da Copa do Brasil de 2012. E no final do ano, já com o Palmeiras mais uma vez rebaixado, conseguiu colocar mais de 35 mil torcedores no Pacaembu em sua despedida. Como ‘prêmio’, cobrou pênalti no amigo Dida e marcou um dos gols da partida.

Não consigo ser só profissional. Nunca fiz média com ninguém. Se a torcida gosta de mim, foi pelas coisas que conquistei. Foi por ter quebrado a clavícula ao me jogar na bola numa dividida (em uma vitória em um clássico contra o Corinthians, em 2006). Foi por ter deixado de lado uma proposta de R$ 45 milhões do Arsenal pra ficar aqui e jogar a Série B. Eu deixei de agir só com a razão. Às vezes, faço as coisas com o coração, como um verdadeiro torcedor". 

Por isso e por muito mais que Marcos, o santo palmeirense, é idolatrado por todo torcedor do clube. Vida longa ao santo Alviverde.

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