Werther Santana
Werther Santana

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

29 Outubro 2017 | 07h00

Raphael Henrique Martins é um homem transexual. Ele nasceu como mulher, mas se identifica com o gênero masculino. Por isso, fez cirurgia para a retirada dos seios e realiza tratamento hormonal que promove o crescimento de pelos e mudança na voz. No futebol, isso era um problema. Ele não queria jogar no time das meninas, pois não se sentia como elas. Por outro lado, era discriminado entre os meninos. Decidiu apostar na coluna do meio e criou o “Meninos Bons de Bola”, a primeira equipe transgêneros do País. 

A possibilidade de inserção social, saber em que time você joga, é uma das conquistas do grupo. “O esporte é um modo de viabilizar o encontro entre essas pessoas, proporcionando lazer e bem-estar e um grupo de apoio entre pares”, diz a psicóloga Moira Escorse, que acompanha voluntariamente o time, mas também atende outras demandas da comunidade LGBT. 

O futebol é um aliado importante na transição, a passagem de um sexo ao outro, também do ponto de vista físico e psicológico. O tratamento hormonal provoca alterações físicas, entre elas, o ganho de peso. O futebol ajuda no aperfeiçoamento da forma física e no controle da ansiedade. 

Em campo, o time está só começando, é amador. São 25 jogadores que treinam uma vez por semana em quadra do Sindicato dos Bancários. No domingo passado, quando o Estado foi conhecer o elenco, os bancários haviam pedido o local. O jeito foi treinar em uma quadra pública. O “Meninos” só tem um uniforme. As ações de divulgação são feitas por alunos de Comunicação da Universidade Metodista. O time tem até apoio jurídico. Tudo é voluntário. 

No próximo fim de semana, a equipe viaja para Curitiba para a Champions Alliance, evento esportivo e cultural da prefeitura local em prol da diversidade. Para conseguir os R$ 2,6 mil da viagem, os jogadores fizeram uma vaquinha de R$ 20 por mês e venderam balas e doces nos semáforos de São Paulo. 

O calendário de 2018 é mais ambicioso. A ideia é dar um salto. Os organizadores estudam ampliar o elenco para atuar na várzea e treinar mais. Além disso, querem disputar os Gay Games, maior evento LGBT do mundo, em Paris. Para isso, vão fazer campanha nas redes sociais para arranjar patrocinadores e obter R$ 80 mil. Todos trabalham em outras atividades. 

Cristiano Nunes é cabeleireiro e um dos craques do time. Sua habilidade vem dos treinos no Juventus, quando ainda era menina, dos 11 aos 16 anos. Naquela época, era Cristiane Henrique Nunes. Hoje, aos 33, o meia se prepara para fazer a retirada dos seios, um dos principais procedimentos – na visão dos atletas – para se tornar homem. No domingo, quando anunciou que não poderia viajar para Curitiba por causa da cirurgia, chamou o procedimento de “libertação”. E foi aplaudido pelos companheiros.

Cristiano não quis aguardar na fila no Sistema Único de Saúde (SUS) para fazer o procedimento. Demora. Claudio Galícia, outro jogador dos Meninos Bons de Bola, conta que sua cirurgia demorou cinco anos. Para juntar os R$ 10,5 mil do procedimento na rede privada, em São Bernardo do Campo, teve de economizar por mais de um ano. “Não sobrava para nada”.

Ele é casado há 15 anos e conta que sempre teve uma conversa aberta e franca com sua mulher sobre tudo. O restante da família se divide: uns apoiam, outros fingem não entender ou ignoram sua opção. “O futebol sempre foi uma dádiva e me ajuda em tudo: conter a ansiedade, fazer amigos e viver como sou”.

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Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

29 Outubro 2017 | 07h00

A criação de um time de futebol transgênero toca em um tema complexo: o doping. O tratamento chamado modulação hormonal, feito para adquirir as características do sexo masculino, utiliza substâncias proibidas pelo Código Mundial de Antidopagem. Fernando Solera, presidente da Comissão de Controle de Doping da Federação Paulista e da CBF, e maior autoridade de teste antidoping no Brasil, de acordo com nomeação da Fifa, defende a mudança do código. “É necessária uma revisão. Hoje, o código contempla o lado feminino ou o masculino. É preciso contemplar todos”, afirma o especialista. 

A CBF fez uma consulta à Wada (Agência Mundial Antidoping) sobre o tema. A agência se indicou o Comitê Olímpico Internacional (COI), que está elaborando uma nova política que permitirá aos atletas transgêneros competir sem a cirurgia de mudança de sexo, como o fórum sobre o assunto. Agora, Solera tenta agendar um encontro em Lausanne, na Suíça. 

O controle antidoping possui três pilares: igualdade, ética e saúde. Solera explica que a discussão sobre os transgêneros se relaciona ao primeiro deles. “Não existem objeções em relação às mulheres que querem se tornar homens”, explica. “O problema é a garantia de igualdade na disputa. Um indivíduo que fizer a modulação hormonal estará cometendo uma infração. Ele terá vantagens na força física, velocidade e explosão, por exemplo”, comenta Solera. 

Enquanto não houver um novo código, o atleta tem de interromper sua carreira para fazer a modulação hormonal e só depois – o tempo varia de acordo com a recomendação médica –, retomar sua vida esportiva.

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'A testosterona induz alterações, algumas benéficas, outras prejudiciais'

Clayton Luiz Dornelles Macedo, médico endocrinologista da Unifesp, explica diferenças e efeitos colaterais do tratamento de reposição hormonal feito pelos transgêneros

Entrevista com

Clayton Luiz Dornelles Macedo

 
 

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

29 Outubro 2017 | 11h40

O Estado conversou com Clayton Luiz Dornelles Macedo, chefe do Núcleo de Endocrinologia do Exercício e do Esporte e Coordenador do Ambulatório de Endocrinologia do Exercício, junto ao Serviço de Medicina do Esporte do CETE - UNIFESP.

Também professor Preceptor do Programa de Residência Médica e da pós-graduação em Medicina do Esporte da UNIFESP, ele explica as características do tratamento de reposição hormonal feito pelos transgêneros, bem como quais seus efeitos sobre o corpo humano e quais as indicações para quem quer seguir este protocolo.

1. No tratamento de reposição hormonal, com o aumento dos níveis de testosterona buscando a masculinização, quais as principais mudanças que acontecem no organismo? Existem efeitos colaterais?

A testosterona vai induzir uma série de alterações no organismo do homem trans, algumas benéficas e desejáveis e outras prejudiciais. A menstruação vai cessar em alguns meses, o timbre da voz vai mudar, aumentarão os pelos faciais e corporais e a massa muscular vai aumentar (em graus variáveis, na dependência do grau e do tipo de treinamento muscular, alimentação e suplementação alimentar). O clitóris vai aumentar e a libido vai se acentuar.

Alterações adicionais podem incluir acne, oleosidade da pele e uma calvície de padrão masculino (com rarefação frontal, temporal e occipital do cabelo). Aumento da pressão arterial e do colesterol LDL (colesterol ruim) podem ocorrer, além do aumento dos glóbulos vermelhos do sangue e da hemoglobina. Aumento da irritabilidade e agressividade são incomuns. Podem ocorrer alterações da função do fígado.

As evidências científicas atuais sugerem que os tratamentos hormonais em pacientes transgêneros são seguros se o monitoramento correto for realizado. Esse tratamento parece não estar associado a um aumento da mortalidade ou aumento do risco de câncer. No entanto, estudos de acompanhamento a longo prazo com número maior de indivíduos devem ser objetos de pesquisas futuras.

Não é incomum que os transgêneros se auto-mediquem com doses e preparações hormonais não regulamentadas e não licenciadas, muitas vezes compradas clandestinamente e produzidas em laboratórios não oficiais. Incertezas em torno de contaminantes, dosagem, qualidade dos medicamentos e falta de monitoramento os tornam potencialmente prejudiciais.

É importante salientar que a reatribuição de gênero deve ser acompanhada por uma equipe interdisciplinar de saúde bem treinada, devendo os indivíduos procurar serviços de referência para abordagem e tratamento adequados.

2. Qual é a duração média de um tratamento?

O tratamento é a longo prazo, sendo extremamente importante o acompanhamento clínico periódico da terapia, em serviço especializado. O tratamento deve ser individualizado, na dependência das adequações desejadas pelo indivíduo.

A abordagem completa envolve reposição hormonal, cirurgias, tratamentos estéticos, treinamento muscular e suporte psicológico. Nem todos os indivíduos necessitam ou desejam todos os tratamentos.

3. Como deve ser a preparação física de um atleta transgênero? É necessária alguma mudança em relação aos atletas tradicionais?

Existem diferenças biológicas em relação ao sexo de nascimento do indivíduo, sendo que as variáveis de performance e composição corporal diferem bastante. A terapia de reposição hormonal minimiza essas diferanças e facilita a preparação física, mas a individualização do treinamento do atleta transgênero, após uma avaliação adequada, é determinante da sua performance.

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