Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Esportes

Esportes » Mercenário quem?

Futebol

Esportes

Corinthians

Mercenário quem?

Os tempos atuais são paraíso para ofensas e condenações sumárias. Qualquer um tem à disposição meios para espinafrar quem quer que seja, e sem nenhuma cerimônia nem discernimento. Basta teclar meia dúzia de palavras numa rede social e, assim, derrubar reputações. Xingar político está na moda, mas jogador de futebol detém a tradição de preferência na ira dos valentões de internet.

0

Antero Greco

07 Março 2016 | 03h00

Dias atrás, Ricardo Oliveira entrou na mira de justiceiros virtuais pela insistência de transferir-se para a China. O rapaz recebeu proposta de virar a cabeça de cristãos, mouros e ateus, e só faltou implorar para a direção alvinegra liberá-lo. Iria ganhar mais de dez vezes o que recebe por aqui, e se dispôs a repassar quase a metade para o Santos, como prova de boa vontade. Nada feito. Ficou e fim de papo.

No vaivém das negociações, teve gente que distribuiu substantivos e adjetivos da pesada para o atacante. “Mercenário” foi a palavra usada com maior frequência – por ser a que com mais facilidade vem em mente na hora de desqualificar um profissional. Narizes torcidos apareceram após o desempenho apagado há uma semana, na derrota por 2 a 0 para o Red Bull Brasil. Ali estava a prova de corpo mole do moço.

O clássico com o Corinthians serviu como redenção para Ricardo Oliveira – ou ao menos assim se espera. Não só marcou os gols da vitória por 2 a 0, como contribuiu para dar estabilidade ao Santos. Segurou zagueiros, abriu espaço, atraiu a atenção, liderou como manda o figurino do bom capitão. De quebra, na saída avisou que jamais entraria em campo sem alegria. “Faço o que gosto e procuro fazer direito.”

Atestado de quem andou por aí, enfrentou tanto altos e baixos como zagueiros botinudos, e conhece o mundo da bola. De quem age com seriedade e não se ilude com paparicações. Quando alguém atinge estágio de veterano, independentemente da profissão, convive com a melancolia do fim da estrada e com a confiança e autoridade moral que a experiência lhe confere. No caso, ainda poderia acrescentar a pergunta: “Mercenário quem mesmo?”

Ricardo Oliveira foi o que houve de melhor no duelo alvinegro na Baixada. O início do Santos foi animador, e com o gol logo de cara surgiam contornos de tarde memorável. A tropa de Dorival Júnior ensaiava atropelar o mistão de Tite com surra das boas. Não foi assim na sequência. Ainda no primeiro tempo, o técnico corintiano ajustou o sistema defensivo, fechou a porteira e evitou constrangimentos adicionais. Em compensação, ninguém chutou em gol e o clássico ficou na marcha lenta. 

O Corinthians melhorou pouca coisa na etapa final – e, só o fato de arriscar-se a descer ao ataque sacudiu a sonolência. Nada que tirasse o sossego de Vanderlei, mas o suficiente para afastar perigo constante da área de Cássio.

Dessa vez, a salvação não veio quase ao soar do gongo, como aconteceu em partidas anteriores. Com o ataque sem funcionar, não teve gol salvador para aumentar estatística favorável. O Corinthians perdeu a invencibilidade, manteve a situação tranquila, porém se deparou com a constatação: a tática de cozinhar o galo e apostar em jogada individual decisiva, mesmo no sufoco, uma hora emperra.

ARGENTINOS VERDES

A colônia de hermanos no Palmeiras era grande, na breve passagem de Ricardo Gareca, e depois se dissipou. Mas dois que ficaram, pelo visto, serão úteis para Marcelo Oliveira. Em dois jogos consecutivos, Allione e Cristaldo brilharam. Fizeram os gols dos 2 a 0 no Rosario Central e, ontem, deixaram a marca deles nos 4 a 1 sobre o Capivariano. Ambos se destacaram pela produção, não apenas por mandarem a bola para as redes. Allione, enfim, desponta como realidade no meio-campo. Cristaldo há algum tempo é um amuleto no ataque.

O Palmeiras cumpriu obrigação ao passar pelo time mais frágil do Paulista. Muito bem. Mas vitórias servem para que os ajustes sejam feitos sem pressão. A prova de fogo vem na quarta, diante do Nacional.

publicidade

0 Comentários

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.