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Copa 2014

Messi pode reescrever sua história em Copas e repetir Maradona

Diego Salgado e Gonçalo Junior - O Estado de S. Paulo

14 Junho 2014 | 16h 45

Em seu terceiro Mundial, craque argentino inicia jornada para mostrar que continua com o título de melhor jogador do mundo 

Não dá para comparar Messi e Maradona, a ideia não é essa. Mesmo que o craque do Barcelona tenha sido quatro vezes o melhor mundo e obrigue os especialistas a atualizarem seus recordes às pressas, Maradona foi um herói. De seu tempo e de todos os outros que vieram depois.

No dia da estreia da Argentina na Copa, neste domingo, contra a Bósnia, no Maracanã, a diferença entre Messi e Maradona ainda é gigantesca. Mas é possível dar uma colher de chá para o craque do Barcelona e deixar as coisas mais parelhas. E se a comparação fosse feita com um Maradona mais jovem, antes de se tornar um profeta, por volta dos 26 anos, mesma idade que Messi tem hoje? Aí dá jogo. Foi nessa encruzilhada que o Estado colocou torcedores, jornalistas e dirigentes argentinos.

Carlos Bilardo é o primeiro a opinar, por ter visto os dois de perto, muito perto. Em 1986, ele foi treinador de Maradona na Copa do México e o escolheu como capitão. "Tenho os jornais guardados, o Maradona era muito criticado. Todos me perguntavam por que insistia com ele na seleção, se não tinha mostrado nada. Disse que Maradona era o único titular e capitão da equipe, mas a crítica era muito forte", conta Bilardo, que hoje ocupa o cargo de coordenador de seleções. "Messi chega ao Mundial melhor que Diego em 86. Não me preocupa a fase que Messi teve no Barcelona. Ele está bem", cravou o dirigente.

Clayton de Souza/Estadão
Messi disputará contra a Bósnia seu oito jogo em Copas do Mundo

Maradona disputava, no México, sua segunda Copa. O jogador do Napoli tinha 25 anos e ficou fora do Mundial de 1978 após a escolha de Cesar Luis Menotti, que considerava o jogador do Argentinos Juniors jovem demais para disputar o torneio em casa, com toda a pressão da torcida. Dessa forma, Maradona estreou apenas em 1982, aos 21 anos. Em cinco jogos, o craque sempre foi titular, fez dois gols e acabou expulso na derrota para o Brasil após agredir o volante Batista.

O jornalista Miguel Angel Fernandez, o Titi Fernandez, que atua em vários veículos argentinos, usa o desempenho dos dois craques em seus respectivos clubes para concordar com Bilardo: Messi chega melhor ao Mundial. "Em 86, Maradona ainda não havia triunfado totalmente no Napoli. Era considerado um bom jogador, mas buscava afirmação. Messi chega à Copa consagrado com inúmeros títulos pelo Barcelona", diz Fernandez.

Messi já disputou sete jogos de Copa, somando 535 minutos em campo. No total, o camisa 10 marcou apenas um gol e deu cinco assistências. Já Maradona, no mesmo recorte, ou seja, 535 minutos, alcançados ao término do primeiro jogo da Copa de 1986, havia marcado dois gols e feito três assistências. 

"A comparação entre os dois, nesse momento de suas carreiras, é perfeitamente cabível, não um despropósito, como seria olhar para Maradona ao final de sua carreira”, opina Martín Castilla, do jornal La Nación. “Parece-me que Messi foi mais testado, teve mais desafios, até chegar ao Mundial do Brasil do que Maradona no início da Copa do México", conclui.

Messi foi convocado pela primeira vez por José Pékerman em agosto de 2005. Menos de um ano depois, faltando poucos dias para completar 18 anos, o jogador entrou em campo contra Sérvia e Montenegro, na segunda partida da Copa da Alemanha, em 2006. Em 16 minutos, com a camisa 19, deu um passe para o gol de Crespo e fechou o placar após passe de Tevez. No jogo seguinte, contra a Holanda (0 a 0), foi titular da equipe e acabou substituído por Julio Cruz aos 24 minutos do segundo tempo.

Na sequência, contra México e Alemanha, Messi ficou no banco de reservas. Na Copa 2010, na África do Sul, o craque argentino jogou todas as cinco partidas da seleção. Apesar de não ter feito nenhum gol, deu quatro assistências, além de parar nas defesas dos goleiros da Nigéria e do México. Contra a Grécia, chutou uma bola na trave.

ALMA ARGENTINA

Embora mais apaixonado, o olhar dos torcedores mira o mesmo ponto que o dos especialistas. O empresário Cristian Galarza, proprietário de um restaurante na zona leste que se tornou ponto de encontro da comunidade argentina em São Paulo, principalmente nos jogos da Copa, também afirma que Messi tem mais bagagem. “Hoje, o futebol é muito mais competitivo e disputado. Messi já passou por várias edições da Copa dos Campeões. É a hora de reivindicar o posto de melhor do mundo”, afirmou o empresário, que espera receber 200 torcedores para o jogo deste domingo.

Faltou nesta discussão o aspecto subjetivo, o sal do futebol. Os mais antigos recordam-se que Maradona falava e discutia com todo mundo. Vivia cada jogo intensamente, era expansivo e esparramado, como a própria alma argentina. Os mais jovens dizem que Messi tem sua maneira de ser, fez seu caminho. "A melhor propaganda de Messi é seu talento", avaliza Amir Somoggi, consultor em Marketing Esportivo. 

Em 2014, Messi não teve um desempenho brilhante no Barcelona e recebeu mais “nãos” do que “sins”, algo incomum em sua carreira. Neste domingo, o atacante continuará a escrever, com sua própria letra, sua história nas Copas do Mundo. Mas dificilmente vai conseguir jogar no baú o caderno de caligrafia completo que Maradona deixou.

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