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Morre Bellini, capitão do primeiro título mundial do Brasil

Wilson Baldini Jr e Ciro Campos - O Estado de S. Paulo

20 Março 2014 | 19h 03

Ex-jogador de 83 anos sofria de Mal de Alzheimer e estava internado desde quarta em São Paulo

SÃO PAULO - Na nublada tarde de 29 de junho de 1958, em Estocolmo, Hideraldo Luiz Bellini, capitão da seleção brasileira, eternizou o gesto de erguer a taça de campeão após a conquista do primeiro título mundial do Brasil. A pequena Jules Rimet, de apenas 30 centímetros de altura e quatro quilos, foi levantada sobre sua cabeça com a mesma determinação em que defendeu seus clubes.

Naquele momento histórico para a torcida brasileira, Bellini deve ter recapitulado momentos duros da seleção, como a Copa de 1938, perdida pelos geniais Domingos da Guia e Leônidas da Silva, a infância vivida na pequena Itapira, sua cidade natal, a derrota doída no Maracanã em 1950, o técnico Flávio Costa, que sempre o incentivou a jogar sério e ainda os 60 milhões de brasileiros que queriam aquele caneco.

Bellini, que eternizou o gesto repetido depois por todos os capitães campeões no futebol, morreu nesta quinta-feira chuvosa em São Paulo, aos 83 anos, após lutar contra o Mal de Alzheimer com a mesma bravura e raça com que atuou 21 anos no futebol brasileiro.

Seu estilo rude e eficiente foi incentivado pelos técnicos que teve e nos clubes em que passou: Vasco, São Paulo e Atlético-PR. "Jogar bem, você não sabe. Trate de despachar a bola e deixe que seus companheiros façam as jogadas", disse Flávio Costa, técnico vascaíno em 1952 ao então zagueiro da equipe. Bellini aceitou a orientação. "Quando o senhor resolver escalar este rapaz, por favor, me avise para que eu não vá ao estádio", cansou de dizer Ciro Aranha, que assumira a presidência do clube de São Januário naquela época. "Então é melhor o senhor ficar em casa aos domingos", rebateu Flávio Costa, ao se recusar a colocar Bellini no banco de reservas de uma equipe supercampeã, base da seleção brasileira e que reunia lendas como Barbosa, Danilo e Ademir de Menezes.

Líder nato em campo, Bellini foi escolhido de forma unânime pelo elenco como o capitão do fantástico time de 1958, superando mestre Nilton Santos, o estilista Didi e uma brilhante promessa chamada Pelé. "Levanta e vamos jogar", disse Bellini a Mazzola, que sofria com fortes cãibras no jogo contra a Áustria em 1958. Nem o companheiro de zaga, Orlando Peçanha, de estilo clássico e refinado, era poupado de críticas, ao se exibir e tocar de letra dentro da área brasileira. "Para com isso, moleque!", mandava Bellini.

NO MORUMBI

Em 1964, pelo São Paulo, Bellini não concordou com o toque de bola excessivo dos companheiros, que "humilhavam" os adversários. Acabou com a festa dos colegas dando um bico para a arquibancada. Nem mesmo quando atuava pelo Milionários, equipe que reunia veteranos célebres, Bellini deixou de lado a seriedade em campo. Brigou com Dorval, ex-ponta-direita do eterno Santos de Pelé, por ele ter tomado uns golinhos antes de um amistoso.

Em 1990, o capitão do Brasil passou ensinar sua determinação para 200 garotos de 10 a 16 anos, em uma escolinha de futebol da Prefeitura no bairro do Ibirapuera, em São Paulo. "É bom trabalhar com a criançada", disse, feliz da vida na ocisão.

EX-COMPANHEIROS

Quem foi contemporâneo de Bellini no futebol exalta a liderença e o caráter do ex-zagueiro, atributos que justificaram a ele o posto de capitão e homem de confiança do técnico Vicente Feola na Copa do Mundo de 1958, na Suécia. "Ele era excepcional na liderança, um cara grande e muito sério. Todos gostavam dele", disse o zagueiro Zito, campeão também em 1962.

Como líder da seleção brasileira, Bellini teve o papel também de dar confiança e receber os mais novatos daquele elenco, como Pelé. "Na Copa de 58, ele foi um dos jogadores que me deram muitas orientações, porque era um dos mais experientes. Eu tinha 17 anos, era muito jovem e tudo para mim era novidade. É uma perda muito grande para o futebol brasileiro", comentou Pelé. Na época, o atacante tinha apenas 17 anos e após começar o Mundial como reserva, ganhou espaço e foi um dos destaques do time.

Ao ser campeão em 1958, Bellini influenciou uma geração de zagueiros e iniciou uma era muito vitoriosa do futebol brasileiro. Defensor titular da seleção de 1970, Wilson Piazza destacou a importância do ex-capitão para propiciar o título e a conquista definitiva da Jules Rimet, concretizada no México. "Foi uma figura de destaque pela elegância, companheirismo, caráter e personalidade. Sem ele, o Brasil não teria iniciado a saga de títulos mundiais", elogiou.

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