Denny Cesare
Denny Cesare

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

10 Setembro 2017 | 07h00

Aos poucos, elas se preparam para retomar o espaço. Desta vez, o objetivo é chegar para ficar. Com apoio da Comissão de Arbitragem da CBF, as mulheres estão trabalhando para voltar a apitar jogos da elite do futebol brasileiro. O objetivo é alcançar a Série A do Campeonato Nacional em 2019 ou no máximo em 2020.

Para isso, o projeto de capacitação das meninas ganhou novo impulso nos últimos anos. Elas são submetidas, periodicamente, a treinamento técnico e físico e também recebem apoio psicológico, para que se fortaleçam mentalmente. O quadro feminino na CBF ainda é pequeno – 14 árbitras e também há 49 assistentes -, mas a perspectiva é de crescimento.

Há treinos específicos para as mulheres, mas na maioria das vezes os cursos são mistos. As exigências, inclusive em relação à condição física, são iguais para homens e mulheres. A intenção é aprofundar cada vez mais o treinamento delas.

Além de colocar os ensinamentos em prática: já há mulheres trabalhando como árbitras centrais em jogos do Brasileiro Sub-20 e em divisões inferiores, como as séries C e D. Na Série A, a última mulher a apitar uma partida foi Sílvia Regina Oliveira: Paysandu 2 x 1 Fortaleza, em 16 de outubro de 2005, ou seja, há quase 12 anos.

Em alguns Estaduais, elas já exercem a função de árbitra central. Em Pernambuco, por exemplo, Déborah Cecília Correia apitou nove jogos este ano, entre eles dois clássicos (Sport x Santa Cruz e Náutico x Santa Cruz) e foi bastante elogiada.

No entanto, se a figura da assistente feminina se tornou corriqueira no futebol brasileiro e já é aceita com naturalidade, ter uma mulher no apito ainda é situação que enfrenta resistência, preconceito. Dentro de campo o futebol ainda é visto como um ambiente predominantemente masculino. Por isso, o trabalho de reinserção é feito com calma, gradativamente.

“Estamos começando a abrir oportunidades para que elas possam atuar em competições masculinas’’, diz o coronel Marcos Marinho, presidente da Comissão de Arbitragem da CBF. “O preconceito está caindo. As assistentes não sofrem mais. Mas, com a mulher no centro (apitando), ainda existe alguma restrição, certo receio. Precisamos ter muito cuidado, ir inserindo aos poucos’’, diz Ana Paula Oliveira, instrutora da Escola Nacional de Arbitragem.

As barreiras ainda existentes aumentam a importância de se fazer um trabalho de fortalecimento psicológico nas candidatas a árbitras centrais. “O homem já está acostumado com o ambiente masculino. A mulher não, precisa se familiarizar. Ela vai viver em um ambiente hostil e precisa saber como lidar com ele. Por isso temos esse suporte psicológico para as meninas.’’

A tutora das meninas diz que o trabalho com as mulheres é baseado em quatro pilares: físico, técnico, mental e social. “A mulher precisa saber lidar com a pressão que o homem vai colocar sobre ela, saber se impor, tomar decisões. Não basta conhecer as regras e ter bom preparo físico, tem de saber como lidar com todo esse contexto.’’

EVOLUÇÃO 

Uma barreira que atrapalhou a arbitragem feminina no passado praticamente inexiste hoje, garantem Ana Paula e Marcos Marinho. Fisicamente, as mulheres já se mostram capazes de acompanhar o ritmo de um jogo masculino. “Hoje, elas conseguem atingir o índice do teste masculino. Já estão aprovadas na parte teórica, no mesmo nível. Por que, então, não pensar na possibilidade (de voltarem a apitar na Série A)”?, diz a tutora. “Quem sabe daqui a um, dois anos.’’

Marinho também atesta o progresso. “A gente passou a exigir o (os parâmetros do) teste masculino, e não é algo tão fácil para elas, mas estão tendo um índice maior de aprovação’’, assegura. “A Edina (Alves Batista), que é Fifa, passou no teste masculino. Por isso está apitando em competições masculinas.’’

Este ano, Edina já apitou na Série D e uma partida do Brasileiro Sub-20 (Coritiba 4 x 1 Grêmio), este no mês passado.

Ele diz ter constatado grande evolução nas mulheres em aspectos como velocidade, movimentação, leitura de jogo, desenvolvimento de técnica para se antecipar nas jogadas. “O trabalho é voltado para que elas desenvolvam isso. Técnicas de posicionamento, deslocamento. Tecnicamente, não devem nada a ninguém. O que faltava era essa presença maior nas jogadas.’’

Colocá-las em jogos da Série D, onde na teoria o ambiente poderia ser mais hostil do que na Série A, faz parte dessa preparação gradativa. “Se menina for mal, a repercussão numa Série D pode ser danosa. Mas na Série A ganha o mundo. Até um erro menor tem grande proporção. Isso pode comprometer a carreira se a menina não estiver pronta’’, diz Ana Paula.

EXPERIÊNCIA ALEMÃ

O futebol alemão terá neste domingo pela primeira vez uma mulher apitando um jogo da Bundesliga, a Primeira Divisão do campeonato local. Bibiana Steinhaus, de 38 anos, vai ser á arbitra principal do jogo entre Hertha e Werder Bremen, em Berlim.

Bibiana faz parte do quadro da Fifa desde 2005. Dois anos depois, passou a apitar na Segunda Divisão alemã, tornando-se a primeira mulher a ser profissional de arbitragem no país. Também trabalhou várias vezes em partidas da Copa da Alemanha.

PIONEIRISMO

Sílvia Regina de Oliveira foi a primeira mulher a apitar um jogo da Série A do Campeonato Brasileiro. Em 29 de junho de 2003, dirigiu Guarani 0 x 1 São Paulo, no Brinco de Ouro. As assistentes também foram mulheres: Ana Paula Oliveira e Aline Lambert.

Paulista, Sílvia Regina trabalhou como árbitra central em jogos do Estadual entre 2001 e 2007. Dois anos antes, foi alvo de polêmica criada pelo hoje técnico da seleção, Tite.

Após um clássico em que o São Paulo venceu o Corinthians Tite, demitido por causa da derrota, reprovou a escalação de Sílvia. Disse que, por ter menor força muscular e velocidade, mulheres não conseguiam acompanhar o ritmo de um jogo masculino. 

Criticada em várias outras ocasiões, Sílvia, hoje instrutora da Federação Paulista, não considera ter sido vítima de preconceito. “Para quem fez uma Olimpíada (2004, na Grécia), Mundiais, não existe essa palavra no dicionário.’’

 

 

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CBF prepara trio para o Mundial feminino

Um dos projetos da Comissão de Arbitragem da CBF é ter um trio brasileiro na próxima Copa do Mundo de Futebol Feminino, que vai ser disputada em meados de 2019, na França. Para isso, está sendo preparado o trio composto por Edina Alves Batista e pelas auxiliares Neuza Inês Back e Tatiane Sacilotti. </p>

O Estado de S.Paulo

10 Setembro 2017 | 07h00

As três fazem parte do quadro da Fifa e neste ano já participaram de algumas atividades que visam qualificá-las para o Mundial – já estão entre pré-selecionadas para a competição.

No início de fevereiro, por exemplo, estiveram em um curso de cinco dias de atividades na Granja Comary, em Teresópolis, com instrutores físico e técnicos e psicóloga. 

Logo em seguida, na segunda quinzena daquele mês, Edina e Neuza foram ao Algarve, em Portugal, convocadas para o Seminário de Preparação da Arbitragem para a Copa do Mundo da França.

Esta semana, o trio esteve em Águas de Lindoia, interior de São Paulo, participando de um curso da CBF para árbitros de elite, integrantes do quadro da Fifa – nesse caso, a atividade reuniu também integrantes do quadro masculino da entidade.

Periodicamente, a Comissão de Arbitragem da CBF envia à Fifa relatório sobre o desempenho da árbitra e de suas auxiliares. “A Edina está cotada para o Mundial Feminino. Ela e as assistentes estão buscando o aprimoramento constante. Recentemente, eu assisti a um jogo da Edina (Coritiba e Grêmio, pelo Brasileiro Sub-20) e vi que teve um avanço muito importante’’, diz o coronel Marcos Marinho, chefe da arbitragem da entidade brasileira.

Aos 37 anos, Edina acredita que o trio conseguirá, sim, ser indicado para a Copa do Mundo – a definição deverá sair no próximo ano. "Se Deus abençoar, a gente vai sim. Estamos tendo um excelente apoio da CBF. Eles estão preparando a gente, eu a Neuza e a Tatiane, nos dando um suporte muito grande para a gente chegar a esse objetivo maior", disse.

Além da paranaense Edina, o Brasil tem atualmente outras três árbitras no quadro da Fifa. A pernambucana Deborah Cecília Correa, a paulista Regildênia Holanda de Moura e a carioca Rejane Caetano da Silva.

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Almir Leite, O Estado de S.Paulo

10 Setembro 2017 | 07h00

Aposta da Comissão de Arbitragem para ser a brasileira na Copa do Mundo Feminina, Edina Alves Batista, paranaense de Goioerê, a 530 km de Curitiba, se divide entre carreira e negócios. Trabalha com eventos esportivos e ajuda a administrar a empresa de máquinas industriais da família. Mas diz que sua paixão é o apito.

Há preconceito por ser mulher?

O respeito é muito grande. Melhorou muito de uns anos para cá. Mas quando a gente erra é complicado porque, por ser mulher, a cobrança é maior. Quando o homem erra, é individualizado. Quando é a mulher, são todas que erram.

Você diz que se inspira no Heber Roberto Lopes (juiz do Paraná). Também é disciplinadora?

A gente tem de ter esse estilo. Disciplina acima de tudo. Não pode deixar o jogo descambar.

Qual foi a pior situação por que passou?

Foi no amador, em 2002, bem no começo da carreira. Expulsei um jogador, ele tirou o cartão da minha mão e rasgou. Aí eu tirei outro vermelho que tinha no outro bolso e mostrou de novo. Ele ficou surpreso e acabou saindo.

Qual jogo mais te marcou?

Apitei este ano um jogo da Série D (Aparecidense x União Rondonópolis). Exigiu muito, velocidade, deslocamento, fundamento de área... Teve muito contra-ataque. A rádio de lá me deu nota nove.

Nos estádios mais acanhados, há dificuldade para trocar a roupa, ir ao banheiro? 

Os meninos respeitam muito a gente. Pego uma cadeira, coloco minhas coisas, protetor solar, meus cremes, batom, perfume e me troco. Não há constrangimento.

Maquiagem é item obrigatório?

Discreta, senão chama muita atenção. Mas tem de ter.

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