Felipe Oliveira
Felipe Oliveira

'Na cultura brasileira, os resultados esportivos têm peso incalculável'

Presidente mais jovem dos clubes da Série A, mandatário do Bahia fala sobre gestão da equipe

Entrevista com

Marcelo Sant’Ana, presidente do Bahia

Luís Filipe Santos, O Estado de S.Paulo

19 Outubro 2017 | 07h00

Aos 35 anos e presidente do Bahia, Marcelo Sant’Ana é o mais jovem mandatário entre os 20 clubes da Série A. Ele está no cargo desde 2014, é formado em marketing e jornalismo e tenta evitar o rebaixamento do seu time. Ao Estado, Sant’Ana fala sobre os três anos à frente do cargo e o papel do clube no futebol brasileiro.

Quais as principais mudanças realizadas no clube em sua gestão?

O renascimento do Bahia passa pela democracia, conquistada em meados de 2013, e que veio casada com o profissionalismo. O clube tem uma estrutura organizacional simples, operacional e eficiente. Contratamos profissionais motivados e especialistas nas áreas. Este ano, por exemplo, vamos concluir a recuperação do patrimônio do clube, que passará a ter dois centros de treinamento: Fazendão e Cidade Tricolor. É o maior investimento financeiro do Bahia em décadas.

Como garantir liquidez financeira num cenário caótico para a maior parte dos times brasileiros?

Nossa administração tem quatro pilares: honestidade, inovação, patrimônio e equilíbrio financeiro. A honestidade traz credibilidade, confiança do mercado, sinergia com os funcionários, engajamento da torcida e, por fim, atrai os parceiros comerciais. A inovação cria oportunidades e entrega conteúdos personalizados. O quadro social, por exemplo, saiu de cerca de 4,2 mil sócios adimplentes em janeiro de 2015 para cerca de 14,1 mil em junho deste ano. Fora a luta por novas receitas, há controle das despesas no futebol. Em dezembro de 2014, quando este grupo assumiu, a folha do clube era superior a R$ 5 milhões. Em janeiro de 2015, ela foi inferior a R$ 3 milhões. O controle do fluxo de caixa é constante.

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Como está o Bahia no aspecto financeiro?

Em processo de reestruturação. Os passivos trabalhistas e cíveis são muito altos. Somados, superam R$ 50 milhões. O ato trabalhista nos ajuda e, felizmente, aderimos ao Profut e cumprimos a lei, parcelando os débitos fiscais e tributários. Que realmente exista rigor no cumprimento e na fiscalização da lei, além de penas a quem descumprir. Não dá para, digamos, o fair-play financeiro ser praticado somente por uma parte de clubes que disputam o mesmo campeonato.

Em que condições o Bahia vê utilidade em jogar no estádio de Pituaçu?

Hoje existe um “Frankenstein” jurídico que busca limitar o direito do Bahia de usar Pituaçu sem a autorização do consórcio Fonte Nova Negócios e Participações. Algo sem sentido e, aos meus olhos, ilegal. Felizmente, sempre que precisamos usar não houve problema. Pituaçu deveria ser melhor explorado.

Poucas notícias se veem sobre conflitos do Bahia com a administradora da Arena Fonte Nova. Por quê?

Temos sim divergências. A diferença é que aprendemos a tentar resolver dentro de casa e, aos poucos, o consórcio tem entendido que o Bahia, seus sócios e sua torcida são os melhores clientes. O contrato atual expira em abril de 2018 e veremos se realmente a relação é boa.

Qual a importância de escapar do rebaixamento em 2017 para concretizar o crescimento do clube?

Grande. Na cultura brasileira, os resultados esportivos têm peso incalculável comparados às conquistas administrativas, financeiras ou patrimoniais. Como a maioria dos clubes são associações esportivas, onde não existe a figura do dono para responder com o patrimônio ou na Justiça, a maioria faz qualquer coisa pelo sonho de ser campeão. Os resultados são dívidas surreais. O sucesso de clubes que praticam boa gestão mostrará ao torcedor que há outro caminho para ser campeão. Mais lento, porém certamente mais seguro e duradouro.

O Bahia pretende se fortalecer dentro da própria região Nordeste?

Sem dúvida alguma, o crescimento e o futuro do Bahia passam pelo fortalecimento da marca e da sua presença na região Nordeste. Somos, tradicionalmente, o maior clube da região, líderes em títulos, presença de público nos estádios, venda de PPV, etc. Mas é preciso compartilhar essas alegrias com os demais nordestinos. Fazê-los se sentirem representados. Caminhar junto. O sucesso do Bahia é também o sucesso do nordestino, especialmente, em estados onde não há clube na Série A.

Além da Copa Nordeste, o que mais os times nordestinos podem fazer para valorizar o futebol regional?

A Copa do Nordeste distribuiu cerca de R$ 5 milhões aos clubes em 2013, ano do seu retorno, e distribuirá mais de R$ 22 milhões em 2018. Este torneio tem auxiliado as campanhas dos clubes nas variadas séries do Campeonato Brasileiro. Precisamos manter a unidade, independentemente, das rivalidades. Em dois anos e meio como presidente, nunca vi clubes tão unidos em reunião como os paulistas. Eles fazem o dever de casa muito bem.

Como o Bahia e outros clubes nordestinos podem ajudar a influenciar nas mudanças que o futebol brasileiro necessita, como a de calendário?

Na Liga do Nordeste, temos um alinhamento necessário entre clubes e federações. Avançamos, mas, com calma e diálogo, será preciso ir além. Hoje, a CBF tem profissionais capacitados que sabem como fazer e o quê precisa mudar. Há, contudo, quem se preocupe mais com a política. Se algumas práticas de dirigentes, mídia e torcedores brasileiros mudassem, o Campeonato Brasileiro deveria, em 8 a 10 anos, ser o segundo melhor campeonato do mundo, abaixo só da Premier League.

Em julho de 2017, o ex-presidente do Atlético-MG, Alexandre Kalil, falou que 'futebol não era coisa para pobres'. Como o Bahia pensa sobre a elitização do futebol?

Há espaços para diferentes perfis de torcedores nos estádios. No entanto, hoje o futebol tem se globalizado cada vez mais e o custo de manutenção de um elenco forte, a operação do centro de treinamento e das arenas são caros. É preciso respeitar as diferenças econômicas, tentar incluir, mas não pode haver demagogia e falso romantismo.

Quais foram os principais erros da gestão até o momento? E o que ficará de legado para os próximos presidentes?

Deixo avaliações e notas para os torcedores e sócios. Nos últimos anos, eu me envolvi na gestão esportiva e tirei licença do jornalismo (risos).

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