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Entrevista. Eduardo da Silva

Jogando no futebol europeu há 15 anos, jogador nascido no Rio de Janeiro vestirá a camisa da Croácia no dia 12 de junho

'Não tive chance de jogar no Brasil', diz Eduardo da Silva

Felipe Rosa Mendes

04 Junho 2014 | 07h 00

Ele vai realizar o sonho de jogar uma partida de Copa. Mais, uma partida de abertura e no país onde nasceu. Tem até boas chances de ser titular no Itaquerão. Mas não defenderá a amarelinha da seleção brasileira. Eduardo Alves da Silva, apesar do nome e sobrenome, vestirá a camisa da Croácia no dia 12 de junho, quando todos os olhos do esporte mundial estarão voltados para o Brasil. Diante do inusitado da situação, o jogador, de 31 anos, admite ficar dividido e espera viver um momento “emocional”. Não por acaso. Hoje, ele tem quase tanto tempo de Europa quanto de Brasil. Saiu do Rio aos 16 anos e já joga no futebol europeu há 15. 

Lá naturalizou-se, casou-se com uma croata e formou família.Destacou-se no Dínamo de Zagreb e foi chamado para a seleção de base da Croácia. Em 2004, passou a ser convocado para a equipe principal, da qual já é o segundo maior goleador da história, atrás apenas de Davor Suker, artilheiro da Copa de 98.

Antonio Bronic/Reuters
Eduardo da Silva naturalizou-se, casou-se com uma croata e formou família

A boa adaptação ao futebol europeu, contudo, deixou marcas. O português não é mais tão fluente. Durante a entrevista, Eduardo buscava as palavras com um constante “como se fala?” em suas respostas. É mantendo o contato com a família que ele garante a conexão com o Brasil. Tímido, diz gostar do anonimato no Brasil. E, na abertura da Copa, já avisou que vai cantar os dois hinos. Abaixo, os principais trechos da entrevista concedida por telefone no início da preparação da Croácia para a Copa.

Como será jogar uma Copa do Mundo em seu país, mas defendendo uma seleção diferente e em um jogo de abertura?

É uma situação um pouco delicada, provavelmente vai ser um pouco emocional. Saí cedo do Brasil para jogar em outro país. E há dez anos jogo pela seleção da Croácia. Nunca imaginei que, um dia, isso pudesse acontecer: jogar a Copa do Mundo no país onde eu nasci, mas defendendo outra seleção e ainda mais sendo contra o meu país – e na abertura. 

Comemoraria um gol contra o Brasil?

Vai depender. Se for gol de honra, não tem como comemorar. Mas se for de empate ou até da vitória... Não sou de comemorar muito. Só abraço meus companheiros, bem tranquilo. Mas isso é do momento. 

Com a lesão de Mandzukic, suas chances de ser titular aumentaram. Acredita que começará jogando contra o Brasil?

Venho jogando bem no meu clube nesses últimos seis meses, e jornais e torcedores vêm colocando meu nome entre os titulares. O mais importante é que me sinto bem e estou preparado física e mentalmente. Acho que tenho qualidade para jogar. Mas ainda é cedo para saber se vou ser titular.

Quais as chances contra o Brasil?

A Croácia sempre joga bem contra seleções grandes. E, neste caso, será até bom jogar a abertura. Vejo como uma grande vantagem, porque teremos menos pressão jogando contra o favorito. E assim poderemos mostrar nosso melhor futebol. Se a Croácia fizer o primeiro gol, será difícil para o Brasil virar. Com minha experiência, sei que a seleção croata é muito disciplinada e vem muito bem fisicamente. O Brasil estará mais nervoso do que a Croácia porque jogará em casa, diante de sua torcida. Claro que a Croácia também vai estar nervosa, mas, quando começa o jogo, tudo passa.

Neymar será mesmo a maior preocupação da Croácia?

Sim, ele é a estrela, talvez não só do Brasil como da Copa, assim como Messi, Cristiano Ronaldo e Iniesta. O Brasil tem outros jogadores de grande nível, como Oscar, Fernandinho e Willian. E é forte na defesa também.

Quais são as metas da Croácia no Mundial?

A meta, por enquanto, é passar da primeira fase. E vai depender muito da estreia contra o Brasil. Se for bem, pode ir longe. Passando de fase, tudo é possível. Na Croácia, comparam a atual seleção com a de 98 e dizem que agora está mais forte. Mas temos de confirmar dentro de campo. Se não confirmarmos, não entraremos para a história da Croácia.

Espera ser bem recebido pelos brasileiros ou acredita em alguma reação hostil?

Espero que eles entendam a minha situação, que procurem conhecer minha história.Saí cedo do Brasil, vim atrás do pão, como todos. Não fui para a seleção croata por interesse, foi mais pelo carinho mesmo. E nunca tive a oportunidade de jogar no Brasil, ainda mais na seleção brasileira. Estou no futebol europeu há 15 anos.

Acredita que a Copa pode torná-lo famoso aqui e facilitar um possível retorno no futuro?

Eu já pensei em jogar o Campeonato Brasileiro, mas acho que me sentiria como um estrangeiro, porque estou totalmente adaptado ao futebol europeu, minha mentalidade é europeia. E não busco ser famoso no Brasil. Aí, quanto menos famoso você é, melhor.

Por segurança?

Também. Todo mundo me conhece na Europa, sou um jogador bem respeitado. Mas, no Brasil, as pessoas só me conhecem como “aquele Eduardo que joga na Europa”. Nunca me viram. É por isso que, quando vou ao Brasil, nas férias, não tenho problema. Não tem coisa melhor. Gosto de ficar anônimo. Sou mais fechado, mais tranquilo.

Você morou oito anos na Croácia e passou metade da vida na Europa. Hoje se sente mais croata do que brasileiro?

Não me sinto, não, para falar a verdade. Meus colegas de seleção, meus amigos croatas, dizem que eu já virei croata por causa do meu do jeito de falar, de brincar. Mas não deixei de ser brasileiro. Sou apenas diferente.