Napoli: prisão de cartola detona crise

A prisão do presidente Giorgio Corbelli, no início da tarde desta quarta-feira, é mais um capítulo na recente história de fracassos do Napoli. Já há alguns anos, o principal clube do sul da Itália vive conflitos financeiros e técnicos que o tiraram da elite do futebol nacional e que agora podem levá-lo à falência. Situação jamais imaginada pelo povo mais apaixonante e envolvente do país. O time não corresponde em campo (está em sexto lugar na Série B) e não se entende na parte administrativa (as dívidas, só até o fim da temporada, terão aumentado em mais R$ 40 milhões). Corbelli foi detido por ordem de um juiz de Bari, outra cidade importante do "mezzogiorno", como é conhecida a região Sul da península. O magistrado atendeu a reclamações de pessoas que teriam sido lesadas na compra de objetos de arte falsificados. As vendas foram realizadas pelos canais Telemarket e Telemarket 2, de propriedade do dirigente e especializados nesse tipo de operação. Advogados do empresário tentam habeas corpus ainda para hoje. Giorgio Corbelli completará 47 anos em 17 de julho, é dono do Napoli, mas nasceu bem longe da Campânia. Ele é de Sant?Arcangelo, pequeno povoado de Rimini, no Norte da Itália. A riqueza começou em 1982, quando criou o canal Elefante Tv, cuja especialidade eram os "leilões eletrônicos", que depois viraram moda no país. A emissora virou rede nacional e Corbelli incrementou os negócios com outras empresas ligadas à mesma atividade. Com o tempo, associou-se a galerias e até a editoras de arte, sempre explorando um filão rico. O esporte entrou na mira de Corbelli no fim dos anos 80, quando se tornou proprietário da equipe de basquete masculino do Brescia. Na seqüência, adquiriu o controle de outros times, como o Forli, até desembocar no Napoli, dois anos atrás. O clube, controlado por Corrado Ferlaino, estava sem capital, e não foi difícil comprar metade das ações. A dupla se desentendeu tanto que Ferlaino abandonou o barco definitivamente e repassou o restante de sua parte ao sócio. "Espero que não liguem esse episódio ao clube", disse há pouco Salvatore Naldi, no momento sócio minoritário do clube. "A equipe tocará sua vida com preocupação pelo futuro do presidente, mas sem nenhuma ligação com essa atividade fora do esporte." Tempos áureos - A declaração não satisfaz e apenas revela como o Napoli se desintegrou, nos anos 90, a ponto de tornar-se presa fácil de aventureiros. Ferlaino teve participação decisiva na melhor fase do clube, ao contratar Diego Maradona em 84 e ao formar o time que conquistou os títulos italianos de 87 e 90, a Copa Itália de 87 e a Copa Uefa de 89. Foi uma fase excepcional, em que brilhou também o talento de Careca. Mas Ferlaino perdeu o controle financeiro e ajudou o time a se afundar e a freqüentar a Série B nos últimos anos. Na temporada de 2000-2001 ainda jogou dinheiro pela janela com contratações erradas (uma delas foi a de Edmundo), o time voltou para a Segunda Divisão e não há perspectiva de retorno. No domingo, o Napoli caiu diante da Salernitana (3 a 1) e completou a quinta partida sem vitória. Com 42 pontos, está fora da briga por uma das quatro vagas para a Primeira Divisão. Além disso, correm na justiça pedidos de falência por acúmulo de débitos. A situação é tão delicada que só mesmo San Gennaro, o padroeiro da cidade, para dar jeito. Mas a tarefa é delicada até para o santo.

Agencia Estado,

13 Março 2002 | 15h23

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