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Novo Olimpo

Durante a semana, circulou pelas redes sociais um vídeo no qual torcedores do Barcelona cantavam musiquinha de protesto contra o distanciamento dos jogadores. O grupo estava no mesmo avião dos atletas, e ficou sem acesso a eles. Havia uma espécie de cordão de isolamento entre fãs e ídolos. O filmete fez sucesso – ou viralizou, para ficar na linguagem da rapaziada de hoje – e dá o que pensar.

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Antero Greco

21 Fevereiro 2016 | 03h00

Boleiros das grandes equipes são personagens populares, requisitados e valiosos. Gente como Messi, Neymar, Iniesta, Suárez custa muito – do ponto de vista esportivo, de marketing e patrimonial. O bem-estar deles é imprescindível para o bom rendimento do time – e, por extensão, para garantir resultados expressivos para as marcas que os usam como garotos-propaganda. E, claro, são peças importantes na composição da imagem dos clubes, investimentos que custam muitos aos cofres das agremiações.

Precisam, portanto, de cuidados especiais, não podem expor-se na base do seja o que Deus quiser. Mas há exageros. O excesso de zelo de assessores e dirigentes os torna estranhos, ambíguos, irreais. Muitos relutam em viver em redomas e, sempre que possível, rompem o protocolo. Muitos mais acreditam no conto de fadas e se comportam como seres superiores, inalcançáveis; fecham-se num mundo peculiar, paralelo ao da vida cotidiana.

Mas, por mais que pareça contraditório, essa forma de agir reflete os tempos que correm. A internet e derivados criaram um jeito diferente de relacionamento entre as pessoas. Hoje, há mais contato por Tuíter, Feice, Uotizápi (permitam os aportuguesamentos) e aplicativos do gênero do que no cara a cara, olho no olho. Muitos casos de sucesso ocorrem primeiro na rede; só depois se transportam para a vida real, esta que ainda teima em existir. 

O futebol não fica imune às mudanças. Antes, curtíamos os times locais, domésticos, que pudéssemos ver no campo. No máximo, se torcia pelo rádio, mas sempre para time brasileiro. Agora, a meninada daqui torce para Real, Manchester, Juventus sem constrangimento. Ela está acostumada a ver as estrelas da bola pela televisão, como entidades abstratas. Até a seleção pouco dá as caras por estas zikadas bandas. Por que, então, lamentar a falta de proximidade com os jogadores?

Não é por acaso que atletas aparecem em público imersos no som de ostentosos fones de ouvido ou com olhos grudados em celulares, como a fazer questão de ignorar o que se passa em volta. Param quando querem, e se quiserem, para uma foto esporádica, uma declaração fugaz e insossa, para em seguida irem adiante cercados de colaboradores ou de brutamontes. Aparentemente, não lhes faz falta jogar conversa fora com os admiradores. 

Jogadores viraram deuses a habitar novos Olimpos criados pelo business do futebol. Como os antigos mitos da Grécia, vez ou outra perdem precioso tempo para dirigir-se aos mortais. Ainda assim, só dedicam migalhas de atenção para aqueles que escolherem, sejam para uma self, um autógrafo, uma entrevista. Até para relacionamento amoroso. Os demais ficam à margem; não adianta insistir.

Os deuses da bola se adaptaram às necessidades mercadológicas globais e viraram empresas. Multinacionais. Como pessoas jurídicas, às vezes sorriem, esbanjam disponibilidade com a mídia, pegam criancinhas no colo, posam para fotos... se constar do contrato de publicidade. Finda a sessão obrigatória, voltam aos smartphones e às infindáveis e insondáveis conversas sussurradas.

Não significa que tenham virado máquinas; injusto despejar neles sentença tão radical. Mas a carga de compromissos, o status de celebridade, a bajulação os induzem a desempenhar papel de onipotentes. Quantos desses mitos, na intimidade, são tão frágeis, desamparados...

Mas o jogo de cena está posto. Os torcedores do Barça, aqueles do avião, não pescaram o espírito da coisa, e exigem abraços e apertos de mão. Ora, senhores, se atualizem. 

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