Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Ciro Campos e Felippe Scozzafave, O Estado de S.Paulo

20 Maio 2017 | 17h00

A rodada da tarde deste domingo do Campeonato Brasileiro não será prioridade para uma parcela jovem da população brasileira. Essa geração de torcedores está mais preocupada com a definição do título do Campeonato Espanhol, com a disputa acirrada entre o líder, Real Madrid, e o segundo colocado, o Barcelona, pela última rodada da competição.

A preferência pelos gigantes da Espanha é um fenômeno recente e concentrado entre pessoas mais novas, a garotada. Para especialistas, a tecnologia aproximou a liga dos brasileiros. Estrelas como Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar parecem mais ao alcance, apesar de estarem em outro continente.

Os ídolos europeus atualmente estão no universo dos jovens pelas redes sociais, no videogame e pela transmissão das partidas em diferentes plataformas. "Fui ver no cinema a final da Liga dos Campeões de 2014. Chorei quando o Real Madrid ganhou", contou a estudante Luiza Silva Leite, de 16 anos.

A garota passou a curtir o futebol espanhol por apreciar o estilo de jogo e ser fã de Cristiano Ronaldo, claro. Em dia de clássico entre Real e Barça, ela costuma ver o encontro junto com o namorado, torcedor dos catalães. "Comecei a acompanhar o time por causa do Ronaldinho. O futebol europeu dá um brilho nos olhos, é bonito demais de se ver", comentou o estudante Henrique Velardo, de 19 anos.

A preferência já começa a aparecer nas estatísticas. Pesquisa do Ibope de 2015 revelou que 69% dos brasileiros entre 16 e 29 anos torcem para algum time europeu. No topo está o Barcelona, apontado por 25% dos entrevistados. Em seguida veio o Real Madrid, com 12%.

Um outro levantamento, feito no ano passado pelo Instituto Paraná Pesquisas, mostrou que entre os seguidores de times europeus, a maior parcela é de pessoas entre 16 a 24 anos. Cerca de 46% dos entrevistados dessa faixa etária gostam de alguma equipe, ante somente 25% dos acima de 60 anos.

O clima de decisão na Espanha mexe com os alunos do Colégio Miguel de Cervantes, na zona sul da capital. Parte dos 1,5 mil alunos é descendente de espanhóis, mas quem não tem ligação familiar com o país da Europa acaba por se identificar com suas cores pelo futebol.

"Eu torço para o Real porque sou fã do Cristiano. Sempre tento ver os jogos, os gols e ler as notícias sobre as contratações", afirmou Bruno Issa, de 16 anos. Nos treinos de futebol para estudantes do Ensino Médio, camisas dos dois rivais espanhóis são peças comuns.

O apreço pelos clubes rivais gera piadas. Nos grupos de WhatsApp dos alunos, os resultados na Liga Espanhola são motivo de deboche para quem torce pelo derrotado. "Virei torcedor do Barça por causa do Neymar, mas agora acompanho tanto o time que jogo com eles até no videogame", contou Antonio Figueiredo, de 17 anos.

A idolatria pelas equipes mexe também com o mercado. Segundo levantamento feito ao Estado pela Netshoes, maior loja virtual de esportes da América Latina, Real Madrid e Barcelona estão entre os dez times que mais vendem camisas no Brasil. De 2015 para cá, a receita com comercialização de produtos do Real aumentou 174%, enquanto a do Barça saltou 66%.

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Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

20 Maio 2017 | 17h00

São Paulo concentra as duas únicas torcidas oficiais de Real Madrid e Barcelona no Brasil. Juntas, as organizações somam um pouco mais de 300 associados, que pagam anuidade, têm carteirinha e se reúnem para ver as partidas oficiais.

Na tarde deste domingo os madridistas estarão em um bar na Vila Mariana no mesmo horário em que os fãs do time catalão vão se encontrar na Vila Madalena. Das duas, a mais antiga é a Penya Barcelonista, fundada no País em 2004.

Para ter o status de oficial, a torcida precisou cumprir requisito, como ter na diretoria um sócio do Barcelona, representação exercida pelo presidente da Penya, Miquel Pardina. "A anuidade é de R$ 50, taxa simbólica, apenas para definir compromisso. A nossa intenção é preservar os valores do clube, mesmo à distância", comentou Pardina, que vive há cinco anos no Brasil.

Segundo o presidente da Penya, cerca de 55% dos sócios são brasileiros, mas a presença de catalães é forte e representa 40% dos atuais membros.

A maior torcida do time da capital espanhola (Madri) na América do Sul está em São Paulo. A Unidos por El Real Madrid foi fundada em 2014 por Alessandra Brandão, profissional da área de marketing que fez da conclusão do seu MBA o projeto para transformar em realidade a ideia surgida três anos antes, quando visitou a Espanha.

"Eu passei a torcer para o Real na época dos Galácticos (começo dos anos 2000). Não tenho outro time no Brasil. Antigamente falavam que eu só torcia para o Real por causa dos jogadores bonitos. Hoje já me respeitam mais", conta. A presidente da torcida lidera um grupo de 140 associados, na maioria pessoas entre 22 e 32 anos. A anuidade de R$ 59,90 propicia aos membros uma rede de descontos no comércio.

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Madrilenhos estão perto da 33ª conquista em sua história

Cristiano Ronaldo tem tudo para festejar mais uma taça. Neymar e Messi esperam por milagre na última rodada

Ciro Campos e Felippe Scozzafave, O Estado de S.Paulo

20 Maio 2017 | 17h00

Ao contrário dos últimos anos, é o Real Madrid quem tem vantagem sobre o Barcelona para confirmar o 33.º título espanhol na história. Para ficar com a taça, a equipe precisa de um empate fora de casa contra o Málaga. Caso perca, tem de torcer por um tropeço do maior rival, que encara o Eibar no Camp Nou.

Com vitórias das duas equipes em seus respectivos jogos, o Real sagra-se campeão, e se confirma como o maior campeão espanhol de todos, encerrando uma série de quatro anos sem o título do Nacional.

Nas últimas dez temporadas, os madrilenhos levaram a taça em três ocasiões, contra seis do Barcelona no mesmo período.

Apesar disso, o momento da equipe de Madri é altamente positivo: além da proximidade do título espanhol, está na final da Liga dos Campeões pela 12.ª vez. O adversário é a Juventus.

Muito dessa boa fase se deve ao trabalho do técnico Zidane, que, desde que assumiu, encaixou um estilo de jogo e tornou seu time quase imbatível. Em suas mãos, o time ficou 40 partidas sem perder.

O Barcelona vive ciclo de transição. O técnico Luis Enrique sairá ao fim da temporada e não tem o substituto definido. Eliminado nas quartas da Liga dos Campeões, a equipe vê a chance de redenção neste Espanhol.

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Rafael Alberico Chaves*, O Estado de S.Paulo

20 Maio 2017 | 17h00

O futebol é um dos principais entretenimentos do brasileiro e reflete bastante o momento político do País. Muito disso porque os gestores dos clubes se parecem com políticos, que insistem em não entender o perfil daqueles com quem são obrigados a se relacionar e erram nas decisões.

Os clubes europeus já passaram por problema semelhante, mas descobriram uma maneira de se entender com o público. A Juventus, por exemplo, tem um departamento de ‘inteligência do torcedor’ para entender de que forma as pessoas se relacionam com o time. É obvio o esforço dos europeus em ganhar mercados emergentes. É planejamento estratégico. Aqui os gestores não entendem quem é o consumidor final.

Estamos perdendo mercado. Uma nova era começou e os dirigentes não se deram conta, não entendem esse novo jeito de torcer. O futebol europeu é vendido como espetáculo. A música da Liga dos Campeões é emocionante, as camisas dos clubes são lindas, os melhores jogadores estão lá. Há jovens brasileiros identificados com times europeus, sem nenhum vínculo com os nossos. Por exemplo, o cara torce para o Real Madrid por causa do Cristiano Ronaldo. Ele joga videogame com o português, o segue nas redes sociais. Tudo isso dá efeito de proximidade. Na sequência, começa a misturar os valores que tem como pessoa com os valores do clube.

Se você gosta de futebol, você quer acompanhar os melhores e hoje é fácil ter acesso. Nas últimas semanas, isso ficou claro. Ao mesmo tempo em que Corinthians e São Paulo jogavam pelo Paulista, duelavam Real e Barcelona. Eu vi mais gente comentando sobre o clássico espanhol do que sobre os times brasileiros. Se nada mudar, o futuro é nebuloso. Em cinco anos os times grandes serão engolidos. Com pouco público no estádio, sem nenhum tipo de conteúdo na internet, será difícil sobreviver.

* RAFAEL ALBERICO CHAVES É MESTRE EM GERENCIAMENTO ESPORTIVO E MEMBRO PESQUISADOR DO GEPECOM-EEFE/USP

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