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Ô, ô, ô, o Grafite chegou!

Eu era contra as arenas que construíram em São Paulo. Não sou mais. Não adianta ir contra o tempo e a época. E também vejo com simpatia famílias indo para as arenas, crianças, mulheres, senhores, todos tranquilos e em paz como se deve ir ao futebol. São, ademais, bonitas e confortáveis. Dito isto, devo dizer que tempo e época não são os mesmos em todos os lugares. Lugares e até pessoas muitas vezes convivem, embora pertençam a diferentes tempos. Não quero dizer que um lugar é melhor ou pior que outro. Quero dizer apenas que são diferentes. Et vive la difference! 

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Ugo Giorgetti

16 Agosto 2015 | 03h00

Graças a Deus este país ainda não é todo igual, a começar pelo futebol. Quem procura acha. Eu que procuro o desaparecido futebol, os demolidos estádios e as torcidas frenéticas com as quais me acostumei através de décadas e décadas, constato satisfeito que elas ainda vivem, talvez longe de mim, da minha cidade, mas vivem. 

No Recife, no Arruda, no “mundão” do Arruda, por exemplo. Ir ao Arruda não é voltar no tempo, é outra coisa. Aconteceu agora, faz poucos dias, quando no glorioso Santa Cruz estreou, de volta ao nosso futebol, Grafite, ex-São Paulo, seleção brasileira e equipes da Europa. 

Não preciso explicar o que é o Arruda. Muita gente sabe, mas é preciso ver. E ele está logo ali no YouTube. É só procurar por “estreia de Grafite no Santa Cruz” para, diante de nós, aparecer o estádio lotado em todas as suas dimensões. E aparecer junto com ele uma forma de Brasil, uma das formas possíveis de Brasil.

Claro que há senhores pacatos entre os espectadores do Arruda, claro que há mulheres, crianças e famílias, mas diferentes das massas que hoje ocupam as novas arenas. Nenhuma daquelas pessoas do Arruda se preocupa com um conforto que não há e que nem sequer é desejado, talvez. Estão lá com os olhos no campo e de lá não os retiram. Esperam e confiam que vão ver um grande futebol, não estão lá para admirar as belezas arquitetônicas do estádio. E essa expectativa transforma qualquer jogo em grande jogo. 

É essa atitude que fez a grandeza do futebol brasileiro através dos tempos. A solidariedade para com seu time é tão grande que ele se torna grande, imenso, mesmo que não seja. Desejo e realidade se misturam milagrosamente. Futebol é o espetáculo de jogadores, mais torcida. 

Uma torcida como a do Santa Cruz é tão impressionante que transforma o que ocorre no campo. Você fica sem saber se assiste a um grande jogo ou não. E isso pouco importa. Importa que se aquela multidão ensandecida se deslocou para lá, arrastando seu delírio e sua alegria, o jogo já é um grande jogo antes de começar. 

Gente muito jovem que não lembra bem do Maracanã ou do Morumbi dos grandes dias, tem uma oportunidade de ver agora, pelo YouTube, o que já fomos. E dá uma inveja danada. Você pensa: eu já vi isso, já tive isso. O futebol visto não como conforto e comodidade, mas como loucura. 

Talvez eu tenha uma simpatia pessoal tão grande pelo Santa que me faz ver as coisas como elas realmente não são. Não importa. Se o futebol brasileiro quiser se recuperar e voltar a ser o que já foi, precisa olhar para lugares como o Arruda, num domingo de sol. Quando vamos conseguir de novo que seleção e povo sejam uma mesma coisa, como são a mesma coisa o Santa e seu povo? Talvez um dia, talvez. 

O jogo inteiro da estreia do Grafite está no YouTube. Sei lá se foi um grande jogo, mas o espetáculo, que vi integralmente, foi magnífico, ainda mais porque narrado pelo grande Silvio Luiz e comentado por Juarez Soares, figuras maiores da glória do futebol brasileiro. 

Por fim, no meio da multidão, tenho certeza de que ouvi, temperadas a cerveja, as vozes dos amigos Inácio França e Samarone Lima, criadores do lendário Blog do Santinha, gritando “ô,ô,ô, o Grafite chegou!”. Em tempo: o resultado foi Santa 1 x 0Botafogo. Gol de Grafite.

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