O desdém e a soberba

Times talentosos não podem ser amaldiçoados pelo mal do desdém e da soberba

Marília Ruiz, O Estado de S.Paulo

11 Maio 2017 | 03h00

O desdém é triste. Ele é pequeno. Ele é chinfrim. Ele é uma resposta rasteira. Muitas vezes é também o oposto do que quer aparentar ser: é a materialização da inveja, da preocupação, do incômodo. Ao definir as emoções, o filósofo grego Aristóteles vinculou o desdém à ira e afirmou que ele pode se apresentar de três formas: como desprezo, vexame ou ultraje. Quem desdenha desprezaria o que julga não ter valor. O vexame seria uma forma de afronta. O ultraje consistiria em provocar a desonra a outrem.

Já a soberba é um outro vício. A arrogância e a suposta superioridade dos soberbos, ao contrário do que a primeira impressão pode causar, acaba por expor fragilidades.

No futebol, como na filosofia, desdém e soberba nunca foram bons ingredientes. O Corinthians foi campeão estadual. A importância do título foi minimizada por alguns perdedores. O desdém das críticas ao elenco limitado e ao futebol pobre ao longo dos primeiros meses do ano foi proporcional à surpresa causada pelo trabalho eficiente do técnico Fábio Carille – ainda mais se levado em consideração o comportamento bastante inadequado dos dirigentes do clube na temporada.

Carille conhece o Corinthians (e não de ontem). Ele mesmo foi honesto em dizer que não fez tudo que deveria – nem poderia ter feito com tão pouco tempo e tão poucos talentos. Agora festejado e campeão, Carille manteve o discurso humilde, mas mandou recados para quem dele desdenhou. Os jogadores também. Declarações e mais declarações sobre a “#primeiraforça” invadiram as manchetes. Brincadeiras à parte, o principal recado foi que autocrítica faz maravilhas.

O Corinthians foi um time que soube reconhecer suas limitações e, assim, fortaleceu as suas (poucas) virtudes. É o suficiente para repetir o sucesso no Campeonato Brasileiro, que começa no próximo sábado? Lógico que não. Além do nível técnico do Nacional ser obviamente mais elevado do que dos Estaduais, a maratona de 38 partidas e a fórmula de pontos corridos potencializam virtudes que equipes como o Corinthians não têm: elenco e regularidade.

O elenco rico e recheado do Palmeiras ganhou o reforço do maestro campeão. Com Cuca, o Palmeiras é ainda mais favorito, ingrediente que não lhe fez bem no Paulista. Favoritismo que, entretanto, não atrapalhou outro candidato ao título: o Flamengo, campeão invicto do Rio. Atlético, Cruzeiro, Grêmio e Santos fecham a minha lista de candidatos ao troféu.

Notem que eu listei seis “forças”. O Corinthians, “hashtag primeira força”, está longe de ser favorito, mas se tem uma coisa que esse Corinthians ensinou aos demais é que desdém, estatísticas burras ou certezas consignadas não são capazes de ultrapassar uma defesa bem treinada. A soberba é inimiga da perfeição.

GOELA SECA

Atletas têm de parar de sofrer com mania de perseguição

Deixo aqui meus votos para que o Campeonato Brasileiro seja esvaziado de “rancorzinhos” e sem a desculpa clássica para todos os contratempos: o famoso “vocês da imprensa”. Apenas joguem e, para a alegria das suas torcidas, ganhem, senhores. Se não for pedir muito, vamos tentar simular menos e jogar mais.

GOGÓ ATIVO

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