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O legado da segunda copa do Brasil

Efeitos do atual Mundial são diferentes do torneio de 1950 e devem incentivar a união das confederações das Américas

Jamil Chade

Raphael Ramos - Enviados especiais ao Rio de Janeiro

06 Julho 2014 | 05h 00

Se para muitos historiadores a Copa de 1950 mudou a relação do brasileiro com o futebol, aproximando o esporte do cotidiano, como o atual Mundial ficará na história? Com o torneio em andamento, pesquisadores já têm uma certeza: será um marco no esporte brasileiro e mundial. Entre os dirigentes da Fifa, a avaliação é de que o futuro das Copas poderá tomar novos rumos depois da segunda passagem da competição pelo Brasil.

"Estamos vivendo uma Copa única e isso já está sendo notado pela Fifa. Os índices de audiência de televisão, a presença da torcida nos estádios e o desempenho das seleções dentro de campo vão fazer com que a Fifa passe, daqui para frente, a dar mais atenção para a América do Sul e os Estados Unidos. Isso terá reflexos diretos no Brasil", diz Maurício Drummond, coordenador do Laboratório de História do Esporte da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O sucesso financeiro e de público da Copa deu impulso para os cartolas repensarem a dimensão do futebol nas Américas. E fortaleceu a ideia, antes tímida, de um apoio regional para levar o torneio para os Estados Unidos em 2026. 

Nilton Fukuda/Estadão

A volta do Mundial ao país, 32 anos depois da Copa de 1994, teria o apoio de Julio Grondona, presidente da Associação de Futebol Argentino (AFA) e um dos vices da Fifa. Um dos seus projetos é unir a Conmebol à Concacaf. Pela primeira vez, o futebol nos Estados Unidos atraiu um público superior à NBA (liga de basquete), o que foi considerado dentro da Fifa como um divisor de águas.

"Temos na América do Sul os maiores talentos do mundo e, agora, poderemos ter com os Estados Unidos o maior mercado do mundo. Estamos juntando talento com dinheiro. Se nos unirmos, vamos quebrar o domínio europeu no futebol", declarou o dirigente ao Estado. "Vamos quebrar as pernas da Europa com essa aliança."

Grondona lembra que, hoje, os horários de jogos nas Américas ainda são definidos pela audiência na Europa, o que obriga os jogadores a atuar ao meio-dia em pleno verão. "Isso vai acabar", promete. Os primeiros passos já começaram a ser dados. Em 2016, por exemplo, o centenário da Copa América será disputado nos Estados Unidos. Clubes americanos e mexicanos serão convidados a fazer parcerias com times latino-americanos.

Parte dessa ampla aliança já foi vista entre os torcedores nesse Mundial. Mexicanos lotaram os estádios por onde a sua seleção passou. Em menor número, mas também com presença maciça, os americanos foram outro destaque de público do torneio. Isso sem contar os argentinos, chilenos, colombianos e uruguaios, que tomaram as arenas de assalto.

"Esta Copa ficará lembrada pela integração dos povos. O brasileiro está orgulhoso de sediar a Copa e mostrar que foi capaz de fazer um grande evento esportivo. Apesar da rivalidade, até os argentinos foram bem tratados por aqui e isso continuará, não será uma coisa momentânea", diz André Couto, pesquisador do Núcleo de Estudos de Futebol e Sociedade da (Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Se a Copa era uma esperança do governo de ser visto no mundo em uma nova posição, com a peregrinação de chefes de Estado e 16 mil jornalistas de todo o planeta, vozes dentro do Palácio do Planalto admitem que o real impacto de política externa acabou sendo a reação da torcida latino-americana, que desembarcou com força no Brasil.

"A Copa do Mundo fez mais pela integração sul-americana do que uma década de negociações diplomáticas", declarou o secretário-executivo do Ministério do Esporte, Luis Fernandes, especialista em Relações Internacionais.

Não à toa ganha força a proposta do Comitê Olímpico Internacional (COI) de levar eventos de grande porte para novos territórios. A festa que tomou conta das ruas e dos estádios brasileiros incentivou outras entidades a dar um voto de confiança a mercados emergentes, que por anos se queixaram de exclusão.

"Os problemas que estavam sendo previstos não aconteceram e isso dá confiança para a Olimpíada de 2016 e mesmo para outros países emergentes para que se candidatem para receber megaeventos", declarou ao Estado o príncipe Albert, de Mônaco, membro do COI e que está no Rio para acompanhar o Mundial. "Acredito que muita gente vá olhar de uma forma diferente para futuras candidaturas de países emergentes."

Mas o caos na preparação do Brasil também foi considerado como um marco. Ao Estado, fontes da cúpula da Fifa revelaram que, em setembro, a entidade se reunirá para desenhar as novas condições para sediar o evento. Entre elas, a determinação de que o candidato garanta o cumprimento integral das exigências da entidade, com a aprovação de leis logo no início da preparação.

Outro ponto considerado crítico foi a entrega dos estádios. A Fifa estuda a adoção de regras mais duras, com a possibilidade real de exclusão de uma cidade, meses antes de a Copa começar.

O atraso nas obras e, principalmente, a incerteza em relação às leis estão mostrando seus resultados na Copa, segundo a Fifa. Problemas de energia foram registrados, a internet falhou nos primeiros jogos, faltou alimento em alguns estádios, enquanto em outros os assentos de torcedores não existiam. Para a entidade, são os reflexos da falta de testes. "Temos de repensar a forma de dar uma Copa a um país", declarou um vice-presidente da Fifa, na condição de anonimato.