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O locutor oficial do Itaquerão e do Mineirão

Radialista Luiz Fernando de Freitas se esforça para não errar na pronúncia dos nomes dos jogadores

Christian Carvalho Cruz

06 Julho 2014 | 05h 00

Dois dias antes da abertura da Copa, o radialista Luiz Fernando de Freitas sofria de falta de internet - vulgo Wi-Fi capenga do hotel dando nos nervos. Então ele se dirigiu a uma lan house na região da Rua Augusta, em São Paulo. Precisava estudar. Locutor oficial de dois estádios da Copa, o Itaquerão e o Mineirão, Luiz queria saber a pronúncia correta de cada um dos nomes dos jogadores da Croácia. Entre protocolos, comunicados e recados, ele falaria nos alto-falantes da arena a escalação completa da equipe, titulares, reservas e técnico. Já tinha feito esse trabalho, só no Mineirão, durante a Copa das Confederações. Mas, tirando um enrosco ou outro com o Taiti, foi moleza. Agora o buraco era mais embaixo. Ou no fim, pra ser mais preciso, com aquele monte de "ic" terminando os nomes dos adversários do Brasil. "Dei a maior sorte, porque na lan house encontrei três torcedores croatas", ele conta. "Eu tinha comprado o Guia da Copa da revista Placar, com nomes e fotos de todos os jogadores. Pedi pros caras lerem os nomes em voz alta e gravei no celular. Aí era só ficar ouvindo repetidas vezes e ir treinando a pronúncia."

Só que o Luiz resolveu dar mais uma fuçada na internet. E achou um treco muito mais útil do que três croatas reunidos numa lan house: um site/aplicativo de celular chamado Namez que fornece os nomes de todos os nomes de jogadores da Copa falados por nativos de seus países. Era a revolução particular do Luiz e dos outros dez locutores contratados pela empresa carioca Grupo Entreter, por sua vez contratada pela Fifa, para serem as vozes oficiais das arenas. Na Copa das Confederações, uma era pré-Namez, funcionava assim: nos dias de reconhecimento de gramado, o próprio locutor ou um funcionário da Fifa pedia que um integrante da delegação do time gravasse as pronúncias corretas. E esse seria o método exclusivo de trabalho também na Copa se o Wi-Fi sem-vergonha do hotel do Luiz não tivesse, por vias tortas, facilitado as coisas. "Os outros locutores passaram a usar o aplicativo", diz a Daniele Vieira, diretora da Entreter. Foi ela quem "descobriu" o Luiz na internet, numa espécie de banco de vozes digital. "Deu trabalho, porque a Fifa exigia locutores bilíngues. Muitos até leem direito em inglês, mas poucos compreendem." O Luiz, que aprendeu inglês sozinho, para saber o que Paul McCartney e John Lennon queriam dizer com suas canções, tinha morrido com R$ 260 para anunciar a própria voz com destaque no tal site, o locutores.com.br.

José Patrício/Estadão

O PIORZINHO

Natural de Itapuranga (GO) e criado em Vazante (MG), o Luiz trabalha na Guarani FM, uma emissora de Belo Horizonte voltada para um público dito "adulto contemporâneo". Jornalista de formação, diz que era o piorzinho da família, que tem um irmão promotor de Justiça e uma irmã professora doutora de universidade. "Mas agora trabalho na Copa, vou estar nas duas semifinais! Ganhei moral...", ele ri. E também vai ganhar um bom cachê pelo mês de serviço nos estádios, "muito melhor que meu salário na rádio".

O Luiz tem 39 anos e uma voz grave e serena. Mas, se precisar, aveludada como aquelas que a gente ouvia de madrugada no rádio, anunciando mansamente os hits mela-cueca do Barry White. A Fifa não queria essa parte da versatilidade dele, claro. Muito menos o tipo de locução-animação do Bruce Buffer, a voz do UFC. "A Fifa pediu um padrão jornalístico para as vozes nas arenas. Sem emoção, sem torcida e totalmente imparcial", explica a Daniele, da Entreter. O Luiz pegou tanto o jeito da coisa que, se o Blatter fosse esperto, o contratava como seu dublador. Ele segue as diretrizes à risca. A ponto de, hummm, passar do ponto. À certa altura, a Fifa disse que - só na hora de anunciar os hinos e as escalações - ele podia dar uma "enfasezinha" na voz. É naquele momento em que, times perfilados, torcedores excitados e alguns já mamados, o Luiz lhes diz: "Senhoras e senhores, por favor, levantem-se para o hino nacional da Argentina". Sim, até para o da Argentina. É protocolo.

O Luiz chega ao estádio seis horas antes do início da partida. No Itaquerão, ele se instala numa cabine envidraçada no alto do lado oeste, com quatro funcionários da Entreter que cuidarão também das músicas tocadas no pré-jogo e das cenas exibidas nos telões. Feitos os testes nos equipamentos, dá o primeiro tostão de sua voz assim que os portões são abertos, a três horas do pontapé inicial. "Bem vindos à Arena Corinthians em São Paulo. Obrigado por chegarem cedo, assim evitamos as filas na entrada. Por favor, sente no assento informado no seu ingresso", fala o Luiz, num tom de Charlton Heston em Os Dez Mandamentos. (Na estreia, a ordem era dizer "Arena São Paulo", o que rendeu vaias corintianas e aplausos são-paulinos ao locutor. A Fifa mudou para Arena Corinthians depois, sem dar explicações.) O Luiz também pede para não fumar no estádio, "exceto em áreas designadas", e, "por favor, mantenham seus pertences sempre com vocês", entre outros avisos e textos sobre a paz e os direitos humanos. A última fala, após o apito final, lembrará uma de mamãe: "Por favor, saiam do estádio com calma. Obrigado e voltem para casa em segurança". Por pouco o Luiz não pede pro pessoal levar o casaquinho.

Nem poderia. Tudo que ele diz está escrito num roteiro de 19 páginas feito pela Fifa. É proibido tirar ou acrescentar qualquer coisa. É proibido também anunciar “acontecimentos negativos”, como cartões amarelos ou vermelhos e jogadores desmaiados levados pro hospital. Até gol contra é informado ao respeitável público com luvas de pelica, sem identificar o autor. “Gol contra marcado a favor do time da Croácia”, resumiu o Luiz quando o Marcelo, jogando contra a pátria, balançou as redes pela primeira vez na Copa. 

Ter um protocolo rígido assim facilita, mas no meio do programa o bicho pega, por causa dos nomes dos jogadores. "Os da Argélia e da Coreia do Sul são um pesadelo. Quase nenhum som tem relação com a escrita", afirma o Luiz. O goleiro argelino (no papel, Rais M’bolhi) é algo como Rrraês Humbulirri. E o coreano (Jung Sung-Ryong) é Chân Sân Iôn, com o agravante de a gente não saber direito o que é nome e o que é sobrenome.

Perto disso, os quilométricos nomes gregos parecem cartilha Caminho Suave. "Mas tem umas pegadinhas. Se diz Sôcrátis Papástapfôulos, e não Sócrates Papastôpoulos, para o Sokratis Papastathopoulos. E Rozé Rolévas para o Jose Holebas." Tem mais. O craque colombiano não é Djeimes Rodríguez, como já sabemos. Tampouco Rámes, como teima o Neto e outros apresentadores da TV. É um meio termo entre Rámes e Râmes, sustenta a voz adolescente no aplicativo Namez. Já o camisa 10 holandês (Wesley Sneijder) não é Uéslei Isnaider e sim Vissli Inéider. Assim como o colega dele Van Persie é Rrrôbin Fon Pêrsi. Dureza? Outro truque do Luiz é escrever os fonemas dos nomes dos jogadores ao lado das fotos, no guia da Placar. Na cabine, ele tem sempre à mão um exemplar dessa revista, já bastante amarrotado, e uma garrafa de água à temperatura ambiente. 

Pelo protocolo da Fifa, os jogadores devem ser citados sempre por nome e sobrenome. A exceção são os brasileiros, chamados pelo que levam às costas, nas camisas. O Neymar é uma exceção dentro da exceção, já que nos alto-falantes ele é só Neymar, não Neymar Júnior. Para o Luiz, sua maior gafe até agora aconteceu por excesso de confiança. No jogo de oitavas de final no Itaquerão ele achou que estava tudo dominado com os argentinos e resolveu se concentrar nos suíços. Na hora de anunciar os times, passou fácil pelo zagueiro Demichelis (falando Demitchélis, não Demiquélis), mas escorregou diante do volante Mascherano: lascou um Masquerano. A Daniele, da Entreter, apareceu esbaforida na cabine dizendo que o jogador tinha pedido: "Me chamem de qualquer coisa menos de Masquerano. Meu nome é Mastcherano". Sinal de que os atletas anseiam ouvir seus nomes no sistema de som e, diferentemente de muitos ouvintes de rádio, prestam atenção no que o locutor diz. Mas o erro deixou o Luiz arrasado. "Passei o jogo inteiro torcendo pra ele ser substituído e eu poder falar o nome da maneira correta. Mas ele jogou até o fim da prorrogação."

POMBAS

Nada que tire o brilho das exibições de gala do Luiz, o ex-piorzinho da família Freitas. Na partida de abertura ele teve prova de fogo ainda mais quente. Como nenhuma autoridade discursaria, coube a ele, a voz do Itaquerão, declarar aberto oficialmente o campeonato. Numa tarde de estádio vazio, pedi que o Luiz repetisse o que disse naquele já distante 12 de junho. Ele se aprumou na cadeira e, de memória, começou: "Três pombas serão soltas no céu. Com esse gesto simbólico declaramos aberta a Copa do Mundo da Fifa Brazil 2014". Mas antes de terminar ele já estava emocionado, com os olhos cheios e buscando um lenço no bolso para enxugá-los. Sem saber o que dizer, esperei pela próxima fala dele. "Sabe o que é? Naquela hora me senti protagonista da história do meu país. No futuro, os livros lembrarão que a Copa de 2014 não foi aberta pela presidente da República, como manda a tradição, e sim pelo locutor do estádio", o Luiz explicou, arrematando com aquela voz padrão Os Dez Mandamentos: "E o locutor era eu, cacete!"