O messias e o mito

Palmeiras e São Paulo iniciam disputa da Série A, com Cuca e Rogério em papel de destaque

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

14 Maio 2017 | 03h00

Os jogadores de Palmeiras e São Paulo são os astros, na largada das respectivas equipes na caminhada no Brasileiro. Eis a ordem natural das coisas no futebol – e assim sempre deveria ser. Mas, por circunstâncias variadas, ao menos por algum tempo os técnicos dos times – Cuca e Rogério Ceni –, terão papel de relevo, estarão sob o olhar ansioso, esperançoso e crítico de torcedores e dirigentes. E na mira da imprensa, evidentemente.

Cada um a sua maneira terá papel relevante nas equipes que comandarão, embora com enfoques ligeiramente diferentes. Cuca retorna ao Palestra Itália na condição de “messias”, do Dom Sebastião que vem resgatar as glórias da casa, arranhadas com a breve passagem de Eduardo Baptista. Desembarcou como a solução dos problemas. Rogério mantém a imagem de “mito”, construída em mais de duas décadas como ídolo do gol tricolor. Porém, já há contestação ao trabalho como “professor”, abalado pelas três eliminações em menos de um mês. 

Cuca teoricamente larga em vantagem em relação ao colega. Pelo fato óbvio de que retomou por aclamação o posto que decidiu largar em dezembro, tão logo veio a conquista do título. Era desejo da torcida vê-lo à frente do grande elenco; sabe, portanto, que terá salvo-conduto, até para perder alguns jogos, como ocorreu no ano passado. Mas todo crédito tem limite, e no “mercado da bola” este se esgota mais facilmente do que no financeiro. Todo-poderoso será, desde que faça Prass, Tchê Tchê, Dudu e companhia recuperarem o nível de desempenho de 2016.

Cuca fez o certo para o momento. Não criou mistério, não veio com onda e definiu de cara a formação provável para o clássico em casa com o Vasco. Permitiu-se, apenas, uma dúvida na frente, entre Willian e Roger Guedes. No mais, confirmou o grupo que atuava com o antecessor, com uma ressalva: Borja é titular até muita prova em contrário. Notou que o colombiano anda com farol baixo e tratou de encher-lhe a bola. E pede um tempinho para readequar o campeão brasileiro àquilo que considera ideal para o torneio.

Rogério Ceni apoia-se no enorme carinho e na veneração do são-paulino à história dele como atleta para avançar na empreitada. No entanto, não há como negar que o encanto original tende a transformar-se em ponto de interrogação. O São Paulo largou bem, com futebol leve e vocação ofensiva. Em seguida, caiu – e pesa, dói o acúmulo de desclassificações, no Paulista, na Copa do Brasil e na Sul-Americana.

Esta última, sobretudo, porque para um rival inexpressivo e sem lastro, como o Defensa Y Justicia. Com a agravante de que os argentinos foram mais eficientes e mostraram futebol equilibrado no Morumbi. Toparam com o São Paulo de igual para igual – e, em muitos momentos, foram melhores. 

Cair em mata-mata faz parte do jogo. Desagradável é sair fora sem brilho, sem fantasia nem emoção. Como aconteceu com a trupe tricolor. Isso deixa o torcedor ressabiado e um tanto desconfiado. Mas parece não atingir Rogério. Em seus primeiros passos como técnico, às vezes se comporta como veterano. Ao deixar no ar, por exemplo, que tudo que se fez até agora está correto. Apega-se até aos números, que mostram muitos gols marcados, vitórias e empates à vontade e raras derrotas.

Não é assim. O São Paulo decaiu, após os 3 a 0 pro Palmeiras no Paulista. Em 13 jogos, foram 16 gols a favor – 7 deles no Linense. No mais, ficou em zero, um ou dois gols. Também seria detalhe irrelevante, se a produção convencesse. Não convenceu. Ao contrário, sobressaíram limitações de elenco e repertório. Rogério está convencido do rumo a seguir e tem respaldo da direção. Torçamos para que dê certo – e a luta recomeça hoje em BH diante do Cruzeiro do questionado Mano.

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