O sofista da bola

Aos 25 anos, Neymar protagoniza agora a história sem fim da maior transferência do futebol

Marília Ruiz, O Estado de S. Paulo

03 Agosto 2017 | 03h00

A arrastada novela da transferência de Neymar do Barcelona para o PSG abriu espaço para um debate sem fim sobre o clássico “Projeto Esportivo x Projeto Financeiro’’. Neymar não tem o mesmo talento de encantar as massas fora de campo como tem com a bola nos pés. É um fato: o melhor jogador brasileiro revelado neste século é mais forte no marketing pessoal do que no carisma natural.

Não é o melhor exemplo de como deixar as portas abertas por onde passa. Desde a sua saída nebulosa do Santos, as tratativas de Neymar com a caneta são sempre vistas com ressalvas. Aliás, para ser mais exata, as do craque em tabelinha com seu pai e seu empresário.

Aos 25 anos, Neymar protagoniza agora a história sem fim da maior transferência do futebol: 222 milhões de euros. Nem um centavo a menos, como frisou o presidente do Barcelona. A conta pode ficar ainda mais salgada para o empresário do Catar e dono do time francês, o xeque Nasser Al-Khelaifi: isso porque Neymar, que vai receber uma fortuna elevada ao quadrado em Paris, também não abre mão de receber os 26 milhões de euros a que teria direito pela renovação do contrato com o clube catalão assinada no ano passado (e que não será cumprida). É possível que os franceses ainda arquem com esse “troco”.

Poderíamos perder linhas e mais linhas aqui para desenhar como seriam os próximos anos do trio MSN no Barcelona. Provavelmente 9 em 10 torcedores e analistas concordariam que, em termos esportivos, o jogador dará passos atrás ao abraçar o projeto do PSG, que há anos vem gastando milhões para tentar se juntar ao grupo dos gigantes da Europa. Entretanto, o romantismo de quem bate palma na arquibancada não decide nada.

Apesar de o futebol ser um esporte coletivo, o jogador responde por si e mudar de clube é decisão dele. Se ele quer ser a grande estrela do PSG, se quer ganhar 30 milhões de euros líquidos por ano, se quer morar em Paris, se quer ganhar três ilhas, dez hotéis e algumas propriedades pelo mundo em troca de jogar pelo PSG, tudo isso é “problema” dele. Pode gerar a ira na Espanha. Pode deixá-lo com a imagem arranhada. Pode ele ser chamado de mercenário, como foram os sofistas na Grécia Antiga, que cobravam por seus conhecimentos e foram muito criticados pelos discípulos de Sócrates e Platão.

Górgias, um dos principais filósofos sofistas, defendia que a realização da humanidade perfeita estaria no engrandecimento ilimitado da própria personalidade. Para Górgias, grosso modo, a moral era mutável (dependendo do tempo e do lugar) e não lei natural do agir humano. Neymar pai está prestes a realizar uma promessa que fez ao filho: transformá-lo no jogador mais bem pago do mundo. Não há maior engrandecimento para ele. Que os socráticos se enfureçam!

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Tite e turma preocupam-se com as consequências da transferência conturbada de Neymar para o Paris Saint-Germain na temporada que antecede a Copa da Rússia. Teme-se que a pressão que o atacante terá para ganhar tudo na França atrapalhe sua preparação para o Mundial-2018. 

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Com histórico de problemas tributários e fiscais, o estafe de Neymar está preparado para uma devassa em suas contas – mais em destaque ainda depois do anúncio de tantos cifrões e propriedades que ele vai embolsar com a transferência para o PSG.

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