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O xerife

Paulo Calçade

Diego Lugano é uma contratação da torcida do São Paulo. Aos 35 anos, é quase unanimidade na arquibancada. Ao concordar em trazê-lo, Edgardo Bauza tirou um peso das costas da nova diretoria e deu a ela a oportunidade de agradar seu público. O zagueiro uruguaio viveu momentos gloriosos com a camisa tricolor. Em sua primeira passagem, entre 2003 e 2006, transformou-se em símbolo de uma equipe com alma.

Naquela época, desconhecido e com sua contratação questionada, conquistou mais que um espaço, escreveu seu nome na história são-paulina. Não na página dos jogadores refinados, mas na daqueles que colocam o coração nas divididas. Do tipo que a bola passa, mas o adversário jamais, como ontem, aos 47 minutos do segundo tempo, em sua reestreia.

É daqueles zagueiros que o torcedor se identifica imediatamente, principalmente quando detecta times sem vibração. Lugano construiu sua liderança naturalmente, dentro e fora do campo. Agora, porém, mais veterano, antes do defensor vem o líder, disposto a arrumar o conteúdo das gavetas.

O grupo são-paulino precisa reformar seu comportamento, poucos duvidam disso, mas será que está inclinado a aceitar um líder imposto, fabricado no passado? 

Na primeira dividida fora do campo, Lugano e companheiros não se entenderam. A ideia era não dar entrevistas, como protesto pelo atraso de alguns pagamentos.

Com a derrota na Libertadores, ficou claro que Lugano tem mais moral com o torcedor que o resto da turma. E ele sabe disso, não precisa se importar com o que pensam sobre ele. Mas para ser útil, necessitará ser aceito.

Se permanecer dividido, o São Paulo continuará na rota de maus resultados. Contra o Rio Claro, mais uma vez o time de Bauza exibiu sua imprecisão diante do gol, incapaz de transformar quantidade em qualidade.

Foram 16 finalizações num paupérrimo 1 a 0. A ansiedade, os problemas internos e a má fase de alguns jogadores são problemas óbvios, mas nem todos poderão ser resolvidos pelo xerifão. Bauza continua insistindo com Centurión, tentando fazê-lo pegar no tranco. O fraco futebol do São Paulo não é uma exceção nessa ruindade do Paulistinha.

Clássico.

Noventa minutos não foram suficientes para aproximar o Palmeiras do gol num clássico assustadoramente fraco. Em casa, com 44% de posse de bola, apenas uma atingiu o alvo durante a repetição do embate que decidiu a Copa do Brasil no ano passado.

O Santos foi ligeiramente melhor, chegou ao gol de Fernando Prass em três oportunidades, mas também não tem o que comemorar. A qualidade do jogo no Brasil está péssima. Quando a partida envolve alguns dos clubes grandes, ainda é possível, pelo menos, encontrar algum público nos estádios. 

No Rio, a situação é pior. Sem Maracanã e sem o Estádio Nílton Santos à disposição, o Fla-Flu de ontem foi disputado em Brasília. É praticamente impossível convencer o torcedor a participar de uma festa da qual ele já desistiu faz tempo.

Os primeiros meses do ano são terríveis. Os estaduais não empolgam e escancaram os interesses da cartolagem nacional. A quantidade de clubes grandes disponível para um Campeonato Brasileiro bem organizado e lucrativo, desenhado para dar certo, é superior a qualquer liga do primeiro escalão europeu.

Temos a matéria prima básica, mas não estamos prontos nem dispostos a produzir uma competição atraente, que possa reter os talentos no País.

Você já deve ter lido por aqui que os números precisam de um contexto. No caso de Palmeiras e Santos, a questão é a baixa qualidade do jogo, que por uma série de motivos faz do nosso futebol uma tremenda interrogação. Não haverá saída enquanto não debatermos o tema com seriedade.

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