Orgulho

Craques do passado, Leandro e Wladimir são brasileiros que dão orgulho e esperança

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2017 | 03h00

Quinta-feira vi na TV um programa raro, inteligente, criativo e que me encheu de orgulho do Brasil. Foi levado ao ar pela ESPN, conduzido por Sorin e André Plihal, com a cumplicidade dos craques Djalminha e Alex. Costuma ser um programa alegre e divertido sobre grandes jogadores, mas quinta-feira vi muito mais do que isso. Os entrevistados eram Leandro, antigo lateral-direito de Flamengo e seleção brasileira, e Wladimir, ídolo do Corinthians, um dos fundadores da democracia corintiana.

Os dois foram grandes craques. Leandro, com seu requintado futebol, era um craque para craques, todos os que jogavam contra ele e com ele naquele grande Flamengo do começo dos anos 80 viravam mais fãs do que colegas e adversários. Wladimir escreveu a história do Corinthians moderno. Estava lá em 1977 e no começo dos 80, quando era um dos líderes da revolução ocorrida no vestiário.

Como a Democracia Corintiana e Wladimir são assuntos por demais familiares para mim e para paulistas em geral (há vários filmes a respeito), vou pedir licença ao craque do Corinthians para me dedicar exclusivamente a Leandro e, sobretudo, ao que nos deixou como herança moral.

Depois daquele time que encantou o mundo em 1982, mas perdeu da Itália, Leandro voltou à seleção na Copa de 86. Era nome certo, garantido e indiscutível. Durante os preparativos para a Copa, na Toca da Raposa, uma noite, devidamente autorizados, Leandro e Renato Gaúcho, como os outros jogadores, saíram por Belo Horizonte. A ordem era voltar às 9 horas, no máximo 10. Voltaram quase às 2 da manhã e foram flagrados. O drástico Telê imediatamente cortou os dois, mas voltou atrás, a pedidos, no caso de Leandro, craque sempre de conduta exemplar. 

Creio que, no fundo, Telê achava que o boêmio incorrigível Renato é quem tinha levado Leandro ao excesso. Aparentemente a coisa se deu ao contrário. O culpado pelo atraso era mais Leandro. Renato, que poderia ter voltado a tempo, se recusou a deixá-lo só e, solidariamente, entrou com ele na concentração no horário absurdo. Telê, instado por outros jogadores, acabou perdoando Leandro. Renato foi mesmo expulso. Ficou claro que Leandro não conseguia aceitar a situação, mas foi levando. Houve tentativa de convencer Telê a perdoar também Renato e resolver a situação. Tudo inútil.

No dia do embarque, Leandro não estava lá. Não compareceu ao aeroporto onde estava já a delegação. Há um vídeo de Zico tentando desesperadamente demovê-lo da intenção de não ir. Tudo inútil. Leandro não foi à Copa de 86. Isso, creio, nunca tinha acontecido na história da seleção brasileira. Principalmente o lance dramático de decisão tomada na hora do embarque.

No país do futebol a recusa lhe custou muito caro, inclusive financeiramente, nas quebras de patrocino etc., mas ficou com sua própria noção de caráter. Não podia permitir que um amigo levasse sozinho uma culpa dividida.

Quinta-feira ouvi essa história de honra e coragem, contada pelo próprio Leandro, transformado num senhor calmo, tranquilo, em paz. Nada lamentou, faria tudo de novo. Não criticou ninguém, nem Telê. Lembrou até de seu reserva Edson, que também teve atitude digna e generosa.

Enfim, me fez muito bem rever Leandro e Wladimir. São brasileiros que dão orgulho e esperança. Num momento em que delação virou qualidade, quando jogadores têm medo de expor opiniões, ou, quando as expõem, é melhor se tivessem ficado calados, histórias como as que ouvi na quinta fazem pensar em um outro Brasil, quando atitudes corajosas e independentes eram possíveis.

Agradeço a Sorin, com sua malandragem e charme argentinos, a André Plihal, aos inesquecíveis Djalminha e Alex uma noite tão agradável.

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