Os 'ingleses' éramos nós

Brasil criou uma liga de clubes cinco anos antes da Inglaterra, mas não avançou

Mauro Cezar Pereira, O Estado de S.Paulo

08 Janeiro 2018 | 04h00

Enquanto no Brasil o futebol curte período de férias e na maioria dos países havia um recesso de Natal/virada de ano, na Inglaterra a bola não parou de rolar. No primeiro dia de 2018, por exemplo, 72 partidas foram disputadas pelas cinco principais divisões do país. Desde 26 de dezembro, os times da Premier League vêm entrando em campo quase diariamente. Consequentemente, o mundo direcionou atenções às pelejas lá disputadas, ‘remédio’ para quem não queria sofrer crise de abstinência futebolística.

Nesse contexto, na quarta-feira passada, Arsenal e Chelsea protagonizaram um imenso espetáculo de futebol. O placar de 2 a 2 empolgou o planeta, num cotejo com 33 finalizações, 12 certas, obrigando os ótimos goleiros Peter Cech e Thibaut Courtois a grandes defesas. 

Intensidade, disputas ferozes, trocas de passes, muita velocidade e uma busca incansável pelo gol. Ingredientes para um autêntico show que teve virada no placar, empate nos acréscimos e bola no travessão no instante final. Ufa!

O mais incrível é que o cotejo colocou frente a frente dois times que vêm enfrentando maratonas pesadas. Ambos completaram o décimo jogo em 32 dias, reflexo de uma tradição da qual os ingleses não abrem mão. 

No Reino Unido, virada de ano é tempo de bola rolando em praticamente todos os dias, tanto que desde 1890 se joga bola lá em 1.º de janeiro. Isso gera queixas, afinal, o futebol hoje é mais físico e o desgaste dos atletas imenso. Mas no Emirates Stadium os times ignoraram tal lógica.

Apesar das queixas, pertinentes até, contra o calendário, a visibilidade do futebol inglês em todo o mundo aumenta com jogos acontecendo enquanto em quase todos os demais lugares a bola para. 

Para o negócio, obviamente é bom. Quando acontece uma partida excelente, como foi o épico Arsenal x Chelsea, naturalmente é feita a melhor publicidade possível para a liga e demais certames lá disputados. Quantidade com qualidade. O efeito seria inverso se os duelos fossem ruins, como ocorre em grande parte dos jogos realizados no Brasil.

O sucesso da Premier League está calçado em partidas empolgantes que recheiam um campeonato onde os confrontos são frequentemente intensos e um embate tão bom não é artigo raro. Há busca integral pelo gol e, para completar, o líder é o melhor time do momento, o invicto Manchester City dirigido por Pep Guardiola, que acumula 20 vitórias nos 22 primeiros jogos do certame. E ainda está vivo nas quatro competições que disputa — as outras são Liga dos Campeões, Copa da Liga Inglesa e Copa da Inglaterra.

A Premier League foi criada em 1992. Cinco anos antes o futebol brasileiro deu um passo na mesma direção, mas o pioneirismo morreu no nascedouro. A Copa União de 1987 era o campeonato nacional organizado pelos clubes, para os clubes, sem a CBF, sem intermediários, sem a interferência de federações estaduais. Mas o roteiro previsível acabou concretizado, os dirigentes se engalfinharam, a ótima ideia não foi adiante e seguimos no atraso. Em organização, qualidade do jogo, média de público...

Há partidas tão ruins que, quando terminam empatadas, após o apito final alguém sugere que os dois times não deveria levar ponto para a tabela de classificação. Como um castigo. Arsenal 2 x 2 Chelsea foi sensacional, não teve vencedor, nem era para ter. Nenhum dos times merecia perder na fria noite de Londres. E pelo que nos brindaram, se fosse possível, ambos deveriam, sim, deixar o gramado com três pontos. Eles alcançaram esse padrão. E pensar que o Brasil seguia nesse caminho antes! Os ‘ingleses’ éramos nós.

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