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Os mercenários

O tema é recorrente no futebol: jogador que se aborrece quando salários estão atrasados leva na testa o carimbo de “Mercenário”. Num passe de mágica, despenca da condição de ídolo para a de traidor da pátria. Torcedores, parte da crítica e ex-boleiros torcem o nariz e enxergam, no descontentamento, falta de amor à camisa, baixo profissionalismo e desrespeito às tradições do clube que tem o moço sob contrato. Um monte de moralismos aflora nesses momentos.

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ANTERO GRECO,
O Estado de S.Paulo

24 Fevereiro 2016 | 03h00

A turma do São Paulo anda sob o crivo cerrado desde que se soube, dias atrás, que os pagamentos combinados não têm sido feitos nas datas corretas. O mês no Morumbi tem mais do que os 30 dias da folhinha. Por causa do descumprimento de obrigação da diretoria, surgiu a sugestão de “pacto de silêncio” coletivo como forma de expor decepção com a situação.

Para azar da tropa, a iniciativa coincidiu com a derrota vexatória para o The Strongest, em casa, na estreia da fase de grupos da Libertadores. Em vez de explicarem o mau desempenho, os rapazes saíram de campo de bico calado. A atitude rachou o elenco, pois alguns ponderavam que, diante do insucesso, melhor esquecerem a zanga, concederem as entrevistas e deixarem para estrilar em ocasião mais propícia. Na prática, estes foram votos vencidos.

Como em seguida o episódio veio a público e se soube do muxoxo dos atletas, foi simples somar 2 mais 2 e chegar à conclusão de que houve corpo mole diante dos bolivianos. Mais do que isso: a certeza de que sobram mercenários. O desdobramento se viu antes do jogo de domingo com o Rio Claro, no Pacaembu, com torcedores a pedirem cabeças e a execrarem aqueles que consideram os ingratos da corporação.

Muita gente aproveitou o embalo e atirou pedras na moçada tricolor. Os argumentos para desdenhar da inquietação variaram do “ganham muito, não têm do que reclamar” até o “não têm identificação com a história do clube”. Teve ex-astro , bem posto na vida com o que acumulou na carreira, a cornetar a postura dos jovens de hoje. Como se tivesse atuado de graça no seu tempo.

O que tem a ver esse discurso com atraso de salários? Nada além de hipocrisia, oportunismo, insensatez e uma pitada de dor de cotovelo. Muito fácil ir para uma arquibancada e, de lá, xingar jogador que se frustra porque a grana não pinga na conta no dia estabelecido em contrato. Cômodo usar microfone ou escrever no jornal que a chateação é uma afronta contra a instituição.

Quem já viveu situação semelhante sabe quanto angustia trabalhar e, no fim do mês, ver as contas vencerem sem a contrapartida do contracheque. Deveria prestar solidariedade, não portar-se como vestal da virtude e esculhambar os outros. Mais tonto jogador que se assusta com as reações e vem a público dizer que não é mercenário, não joga por dinheiro nem se preocupa se retardarem os pagamentos. Além de não ser sincero, depõe contra a classe.

A equação é simples: o que está acertado, assinado, registrado tem de ser cumprido. Há exageros nos vencimentos dos jogadores? Ao que tudo indica, sim, e faz tempo. Tem cabeça de bagre com contratos soberbos. E muito agente a faturar os tubos. Cobrem-se ponderação, equilíbrio e cuidado dos cartolas que esbanjam dinheiro que não lhes pertence. Exija-se dos clubes política salarial correta, como manda o figurino de empresas bem administradas.

Atrasos e discussão rasteira de mercenarismo à parte, falta a centelha vencedora ao São Paulo – e isso vem de longe. O grupo carece de empolgação, do famigerado sangue nos olhos tão ao gosto da galera, o que não tem ligação com dinheiro. Em tal aspecto, o retorno de Lugano pode contribuir de forma positiva, porque se trata de personagem vibrante.

O técnico Edgardo Bauza sentiu o baque das cobranças e tende a fazer um quilo de mudanças no jogo desta noite com o Novorizontino. O argentino percebeu que o material à disposição não era tão bom quanto lhe venderam. A busca por um São Paulo eficiente e harmonioso continua.

Fácil xingar jogador que se aborrece com salários atrasados. E se for conosco?

 

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