Ostentação e risco

Cifras são exaltadas como demonstração do poderio do futebol. Poderio ou uso?

Mauro Cezar Pereira, O Estado de S.Paulo

07 Agosto 2017 | 03h00

A chegada de Neymar ao Paris Saint-Germain foi novo capítulo na ‘espetacularização’ do futebol, com clubes milionários e recordes de negociações. Pouco se questiona o que significa e o que há por trás de tamanho exibicionismo.

Após Roman Abramovich comprar o Chelsea, mais times foram alavancados à condição de ricos. O russo já admitiu que enriqueceu em meio às privatizações da ex-União Soviética, com favores políticos e influência de oligarcas. Corrupção.

Já Thaksin Shinawatra fugiu da Tailândia, onde era primeiro ministro, sob várias acusações. Também rico, obteve asilo na Inglaterra. Então comprou o Manchester City e logo o vendeu, com lucro, para o Abu Dhabi United Group, dos Emirados Árabes.

À frente, Mansur bin Zayed al-Nahyan. Ele pertence à família real de Abu Dhabi, que em junho teve oito princesas condenadas na Bélgica. Elas teriam mantido 23 criadas em condições de semiescravidão, a maioria africana e sem visto de trabalho.

O PSG foi turbinado por dinheiro do Qatar, sede da Copa de 2022, e acusado de “escravidão moderna”. Cerca de 1,8 milhão de estrangeiros enfrentam riscos e pesada carga horária nas obras do Mundial. Há projeções de que 4 mil morrerão trabalhando até a bola rolar.

Nada disso costuma gerar reflexões. Cifras são exaltadas como demonstração do poderio do futebol. Poderio ou uso? O sacrifício de pessoas faz de outras bilionárias. Estas brincam de donas de clubes, surfando na onda de popularidade do futebol.

Neymar no PSG é ainda mais. Tem embutida cartada do Qatar nesses tempos em que Líbia, Iêmen, Egito, Arábia Saudita, Bahrein e Emirados Árabes Unidos rompem relações diplomáticas com Doha. Demonstração de força catarense na diplomacia da bola.

O futebol como instrumento geopolítico e ostentação dos que têm dinheiro. Compram visibilidade, mandam recados, demonstram poder por intermédio de pop stars da pelota. Basta acenar com inacreditáveis contratos. Quanto à origem da grana, quem liga?

O RISCO DA QUEDA

No Brasileiro de pontos corridos e 20 participantes, são sete quedas envolvendo os maiores clubes. Em cinco, os rebaixados foram iguais ou melhores no turno do que o atual São Paulo e seus 19 pontos. Em 2007, o Corinthians tinha 26 pontos. Em 2008, o Vasco fez 19. O Palmeiras de 2012 somou 16, e os vascaínos alcançaram 24 em 2013, quando o São Paulo tinha 18 – foi a 50 e escapou. Em 2014, apesar dos 24 pontos na primeira metade, o Botafogo caiu. Com 13 no turno, o Vasco desabou pela terceira vez em 2015. No ano passado, o Internacional fez 22. Todos pararam na Segundona.

A trajetória são-paulina merece preocupação. Devido ao histórico dos que caíram e pelo instável desempenho. A derrota para o Bahia ontem foi a décima (só o Atlético-GO perdeu mais, 13 vezes). O risco é real.

CORINTHIANS INVICTO - Organização como ferramenta para surpreender

Brasileiros com ‘mata-mata’ reservavam o inesperado. Uma jornada infeliz era o bastante para perder o que havia sido construído. Em pontos corridos há outro tipo de surpresa: o Corinthians sequer era cotado e segue firme. É a diferença a favor de um time organizado em que poucos têm tal qualidade.

TUDO OU NADA AO PALMEIRAS - Longe do líder da Série A, resta a Libertadores

Sem o título paulista, eliminado da Copa do Brasil e a 15 pontos do Corinthians, líder da Série A, chegar ao bi, hoje, é chance meramente teórica para os palmeirenses. Se quiserem título, precisarão de mais do que vêm jogando, e derrotar o Barcelona de Guayaquil. Ou 2017 terá um segundo semestre melancólico.

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