Para elevar o debate

Enquanto debatemos o óbvio, nosso futebol segue chafurdando em campos esburacados

Marília Ruiz, O Estado de S.Paulo

26 Outubro 2017 | 07h00

Na semana passada fiquei constrangida por trabalhar diuturnamente com futebol aqui no Brasil. Foram muitos os exemplos da várzea grotesca que reunimos na indústria que paga salários de seis dígitos, mas que, em sua maioria, é administrada e protagonizada por seres com Q.I. bem menos, digamos, impressionantes.

Um presidente de CBF (Confederação Brasileira de Futebol) que diz não ser do ramo para comentar sobre regras do campeonato, um gerente de futebol que afirma não procurar concorrentes empregados (e é desmentido em público pelo próprio concorrido empregado), um dirigente que inova ao fazer uma lambança terminar em omelete de bacon em vez de pizza, “vocês da imprensa” mais preocupados com a escalação de Marquinhos Gabriel no lugar de Romero do que com os jogadores que preferem o caminho covarde do silêncio e aceitam não participar de decisões importantes. Um exemplo simplório: o calendário de 2018, anunciado e decidido por cartolas. Ou alguém soube de algum jogador incomodado com o Paulista começando em 17 de janeiro?

Com o fim do ano, aproxima-se a série de conferências de análise técnica da temporada. São encontros menos produtivos do que poderiam ser se o foco não fosse a notícia do dia. Reúnem-se treinadores, preparadores físicos, alguns ex-atletas, pouquíssimos jogadores (a maioria prefere a pelada dos amigos de fulano contra os do sicrano), jornalistas órfãos de notícias, mas o que se costuma extrair são pílulas do que chamamos de “mercado da bola”.

Há anos discutimos o hiato do esporte que vemos acontecer nos nossos gramados e aquele que flui (exato: flui) no exterior. E? E nada. Recomeçamos e vivemos das notícias do rame-rame raso diário.

Há algum tempo tenho refletido sobre o nível das discussões, sobre o tratamento infantojuvenil que damos aos atletas e sobre o quão precária é a bibliografia sobre o fantástico, instável e milionário futebol brasileiro. 

As manchetes estão cheias de cifrões, mas as discussões têm poucas explicações sobre as fórmulas que sustentam clubes centenários quebrados e jogadores ricos que acabam se tornando grandes devedores. 

O Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais), órgão ligado ao Ministério da Fazenda, tem julgado implacavelmente os casos de evasão fiscal de jogadores e técnicos que receberiam a título de imagem o que o tribunal administrativo (em primeira instância) tem acreditado ser salário disfarçado. 

Se chamam atenção em letras garrafais nas manchetes dos jornais as multas aplicadas recentemente a Neymar e Cuca, ficam mais camufladas as punições aos clubes que, paralelamente aos atletas investigados, são denunciados por não terem recolhido os devidos impostos sobre suas negociações no futebol. 

Em breve teremos eleições em clubes importantes, como Vasco, Santos e Corinthians. O que será que os concorrentes pensam sobre o tema? Pensam? Ou o negócio é dar coletiva óbvia, fazer acordos com torcidas organizadas e continuar nesta inércia maligna?

NA MIRA

Muricy Ramalho e Roger

Machado são autuados pelo Carf

A primeira instância do órgão administrativo ligado ao Ministério da Fazenda autuou os dois técnicos por serviços personalíssimos prestados por pessoas jurídicas. Só em 2018, a Câmara Superior do órgão deve julgar casos correlatos e definir uma jurisprudência para a questão. Estão na fila casos de Neymar, Pato, Cuca, Conca, entre outros.

NA ESTANTE

Especialista alerta para o constante uso indevido dos contratos de imagem por atletas

Autor de A Tributação da Imagem de Artistas e Esportistas, Rafael Marchetti Marcondes diz que muitos clubes e atletas ainda usam contratos de imagem como parte de uma simulação para reduzir a carga tributária. “A Receita, claro, acompanha de perto.”

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