Vincent Kessler / Reuters
Vincent Kessler / Reuters

Para evitar Brasil, França manipulou sorteio para Copa de 98

Então presidente do Comitê Organizador, Michel Platini diz que tomou providências para enfrentar Brasil só na final e que isso é comum no futebol

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

18 Maio 2018 | 08h34

Os organizadores da Copa do Mundo de 1998, na França, manipularam o sorteio das chaves para evitar que o Brasil cruzasse com o time da casa antes da grande final. Quem faz a revelação é o próprio presidente do Comitê Organizador, o ex-cartolas Michel Platini. Em uma entrevista a uma rádio francesa (veja o vídeo aqui) que vai ao ar no próximo domingo, o francês admitiu que manipulou o processo de escolha das chaves.

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A revelação atinge diretamente Joseph Blatter, o então secretário-geral da Fifa e quem organizava o sorteio dos grupos na cidade de Marselha. Na entidade, a confissão foi interpretado como uma forma de apontar para o caráter questionável de Blatter. "Quando organizamos o calendário, fizemos um pequeno truque", disse Platini, em entrevista para a rádio France Bleu. "Se terminássemos em primeiro do grupo e se o Brasil terminasse em primeiro também, apenas nos encontraríamos na final", disse o ex-jogador, rindo de forma irônica do episódio.

Pelas regras da Fifa, Brasil e França estavam entre os oito cabeças de chave no sorteio realizado em 1997. Cada um deles cairia em um grupo, de forma aleatória. Mas, segundo Platini, houve uma manobra para permitir que o Brasil estivesse no Grupo A, na condição de campeão, e a França acabou sendo "sorteada" para o Grupo C. Assim, não haveria risco de um confronto com o time de Ronaldo, Roberto Carlos e cia. antes da grande final, como, de fato, aconteceu.

"Nós não ficamos entediados por seis anos para organizar a Copa do Mundo para não fazer algumas pequenas travessuras", disse Platini. "Você acha que os outros não fazem o mesmo por suas Copas? É uma brincadeira?", disse depois. "Brasil e França na final era o que todos sonhavam", completou o certola, sem explicar como ocorreu a manipulação das bolinhas.

Na época, o sorteio foi realizado pelo então secretário-geral da Fifa, Joseph Blatter. A entidade era comandada pelo brasileiro João Havelange, que ficou no comando da Fifa por 24 anos.

ARRANJO

O arranjo acabou funcionando para os franceses. Brasil e França acabaram chegando à grande final e o time de Zinedine Zidane aplicou uma severa derrota ao time brasileiro por 3 a 0. Aquele foi o único título da história da França. Platini foi afastado da Fifa e da Uefa depois que foi revelado um esquema pelo qual ele recebeu US$ 2 milhões em troca de serviços até hoje não revelados. Ele nega todas as acusações.

Essa não é a primeira vez que a manipulação de sorteios é mencionada em uma Copa do Mundo. Blatter, numa recente entrevista, também insistiu que sabia de ocasiões em que bolas frias eram colocadas nos potes para permitir que a pessoa que as retirassem pudessem identificar quem deveria selecionar. Ele, porém, insistiu que isso "jamais ocorreu" sob seu comando na entidade.

A Fifa se recusou a comentar as declarações de Platini. Mas enviou as regras do sorteio de 1997, apontando que, antes mesmo de começar o processo de seleção dos times, já estava marcado que o Brasil ficaria no Grupo A e que a França estaria no Grupo C. Não há, porém, explicações sobre o motivo pelo qual o Grupo C foi escolhido para acolher os donos da casa.

O processo de sorteio, em 1997, contou com a presença de Carlos Alberto Parreira como "assistente" de Blatter ao retirar os nomes das seleções.

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