Reprodução/ Twitter/ neymarjr
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Andrei Netto, Correspondente em Paris, O Estado de S.Paulo

13 Agosto 2017 | 07h00

Após desembolsar 222 milhões de euros (R$ 821 milhões) para arrancar Neymar do Barcelona, o Paris Saint-Germain (PSG) tem o desafio de fazer dinheiro com a maior contratação da história e, mais importante, responder aos critérios do fair play financeiro da Uefa. Para contar com o craque, o clube prepara projeto de reengenharia financeira que passará pela venda de jogadores como Di María, Serge Aurier, Matuidi e Lucas e renegociação de contratos de patrocínio, de material esportivo e ainda das cotas de TV. 

A iniciativa do presidente do PSG, Nasser Al-Khelaifi, visa deixar as contas do clube numa situação sustentável e nos padrões da Uefa e Fifa, em especial após queixas de Barcelona e Federação Espanhola, que acusaram o fundo Qatar Sports Investments (QSI), proprietário do time, de gastar em desacordo com as regras de fair play. 

No dia da apresentação de Neymar, o dirigente foi questionado a respeito e chegou a brincar, propondo ao jornalista que fosse tomar um café tranquilo, porque não haveria incompatibilidade entre a transação e a regulamentação na Europa. 

O desafio do PSG é grande. Todos os anos, a Uefa verifica se as regras estão sendo cumpridas no conjunto de três exercícios fiscais – ou seja, três períodos de 12 meses. No intervalo de 36 meses, um clube não pode registrar mais de € 30 milhões (R$ 112 milhões) em perdas, segundo Andrea Traverso, diretor do time de experts em fair play financeiro da Uefa. No caso do PSG, o ano fiscal abriu em julho, portanto, o exame das contas só ocorrerá em 2018.

Essa situação dá ao clube intervalo de um ano para ajustar as coisas e evitar sanções, como a de 2014, quando foi multado em € 60 milhões (R$ 224 milhões) e só pôde inscrever 21 jogadores na Liga dos Campeões, e não os 25 usuais. Entre as estratégias do clube está a possibilidade de amortecer os custos da aquisição ao longo do tempo do contrato. Entre indenização ao Barça (€ 222 milhões) e salários a Neymar (€ 30 milhões/ano) e custos adicionais, como impostos, estima-se que o compromisso financeiro seja de € 500 milhões (R$ 1,8 bilhão). Assim, o PSG terá de justificar € 100 milhões (R$ 375 milhões) por ano relativos ao contrato de Neymar com o clube francês. 

Experts em marketing esportivo na Europa estão divididos sobre o risco da operação, mas apontam seis frentes de trabalho para compensar os gastos com a contratação e os salários a serem desembolsados para o brasileiro. Uma dessas frentes é a renegociação com a Nike, que será revisto em razão da atratividade do craque. O acerto pode passar de € 30 milhões para € 80 milhões por ano. O aumento é esperado, já que a venda de camisas vem sofrendo o impacto positivo da chegada de Neymar.

Outra mudança será o fim do contrato com a companhia aérea Emirates – de supostamente € 20 milhões (R$ 75 milhões) por ano. É provável a assinatura com a Qatar Airways, que deixou o Barcelona e deve fechar com o PSG por cifras bem acima da concorrente – estima-se em no mínimo € 50 milhões (R$ 187,6 milhões). Não bastassem esses dois maiores contratos de patrocínio, o PSG espera lucrar com bilheteria, com venda de direitos de retransmissão internacional e com cobranding (associação de duas marcas) entre o clubes francês e seu astro.

“O PSG tem todos os meios de rentabilizar o investimento, que foi, antes de mais nada, uma magnífica operação”, diz Vincent Chaudel, expert em marketing esportivo da consultoria Wavestone. Outro especialista, Loic Ravenel, do Centro Internacional de Estudos do Esporte (CIES), concorda que a operação será compensada. “Se considerarmos as performances de Neymar no Barcelona e sua imagem, podemos estimar que uma cláusula de € 222 milhões e um salário astronômico não são caros”, disse Ravenel ao Le Monde. “Vai funcionar.”

Para Jean-Pascal Gayant, professor de Economia do Esporte da Universidade de Mans, porém, o PSG pagou por Neymar um preço 50% acima do mercado. Em seu blog, o pesquisador afirmou: “Mesmo se funcionar, é extravagante”. 

A engenharia não acaba nas renegociações de contratos. Nomes relevantes do elenco, como Di María, Matuidi e o brasileiro Lucas devem ser vendidos, assim como reservas com salários altos, como Krychowiak, Ben Arfa e Jesé. Ocorre que apenas uma venda foi concretizada: € 13 milhões com Jean-Kevin Augustin. Pior. O PSG pensa em contratar Mbappé por € 180 milhões (R$ 679 milhões) e pagar € 90 milhões de salários em cinco anos.

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Almir Leite, O Estado de S.Paulo

13 Agosto 2017 | 07h00

Mesmo que possa ser considerada “um ponto fora da curva’’, a transferência de Neymar acaba expondo mais uma vez a abissal distância econômica entre o futebol brasileiro e o europeu. O valor da multa rescisória do craque, pago pelo PSG para tirá-lo do Barcelona, é apenas 5% menor do que o investimento feito pelos 27 principais clubes do País, juntos, durante todo o ano de 2016. E supera em 57 % o que esses mesmos clubes receberam com a venda de atletas.

Os números da goleada sofrida pelo futebol brasileiro em uma só jogada fazem parte de um estudo comparativo realizado pelo Itaú BBA a que o Estado teve acesso com exclusividade. O trabalho tomou por base o euro a R$ 3,69, cotação do dia da concretização da transferência de Neymar. Dessa maneira, os  222 milhões de euros representaram R$ 820 milhões.

Com essa base, o trabalho constatou que o valor da venda do atacante é mais do que o dobro das entradas de quatro dos cinco clubes com maiores receitas no ano passado. Também supera em 49% o que as 27 agremiações obtiveram com publicidade, entre outras “desvantagens’’.

O problema, no caso, não é o valor de Neymar, mas a constatação que os clubes brasileiros poderiam estar numa situação melhor se soubessem explorar melhor o mercado do futebol. 

“A despeito de ter muito jogador vendido, de ter qualidade, nossa indústria (do futebol) ainda é muito incipiente’’, diz César Grafietti, superintendente de crédito do Itaú BBA, responsável pelo estudo.

De acordo com ele, mesmo considerando-se as diferenças entre a realidade brasileira e a dos grandes centros europeus, uma forma fortalecer os clubes nacionais é tornar a gestão mais profissional. “Se os clubes fossem mais profissionalizados, e isso conseguisse gerar mais receitas, buscando maximizar suas marcas, melhorando o relacionamento com o mercado, talvez tivesse maior entrada de investidores, maior apelo de marketing. Isso poderia ajudar a mudar o patamar do futebol’’, defende Grafietti.

Mesmo assim, seria quase impossível um time do Brasil ter um reforço como Neymar ou mesmo Philippe Coutinho, por quem o Liverpool acaba de recusa oferta de 100 milhões de euros feita pelo Barcelona. Mas, com receitas maiores, teria mais facilidade para manter jogadores no País por mais tempo, contratar atletas de maior qualidade, o que iria melhorar qualidade do espetáculo e gerar mais receita.

O executivo ressalta, porém, que os indicadores melhoraram, mesmo com a crise por que passa o País. Diz que, apesar da queda de 4% do PIB por ano, nos dois últimos anos, as receitas do futebol cresceram 20% por período. “Mas crescemos de maneira muito mais lenta do que os europeus. Falta profissionalismo para transformar essa indústria, que é muito mambembe, numa indústria robusta. Por isso estamos tão distante de uma realidade internacional.’’

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Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

13 Agosto 2017 | 07h00

A fonoaudióloga Simone Werneck Camargo acompanhou as notícias da chegada de Neymar ao PSG de uma perspectiva diferente. Enquanto todos veem o negócio como um recomeço para o craque, Simone vê apenas a continuidade de uma história desbravada por seu pai, Joel Camargo. Ele foi o primeiro jogador do País a atuar no clube francês. “A chegada do Neymar ao PSG trouxe uma luz nova para a história do meu pai. Isso foi um motivo de orgulho para mim”, conta.

O ano era 1971. Simone chegou a Paris com 40 dias de vida. Aí, sua história se mistura à trajetória do pai famoso. Joel foi um zagueiro que jogou no Santos de Pelé de 1963 a 1970. Marcou cinco gols em 303 jogos, mas as estatísticas não eram seu forte. Sua mística estava no jeito largo de correr – quase planar – e que valeu um apelido à altura de sua distinção: Senador.

No começo da carreira, era o “Açucareiro” por causa dos braços abertos e da “doçura” nos passes (certeiros). “Era um jogador diferente e técnico. Era clássico”, atesta Mengálvio, ex-companheiro de Joel na Vila.

Joel viu o Brasil ser campeão do mundo no México, em 1970, do banco de reservas. Ficou frustrado, sentiu-se humilhado (era titular com João Saldanha, mas perdeu o lugar com Zagallo) e gastou a premiação pelo tri na compra de um Opala.

Cinco meses depois da Copa, Joel destruiu o carro em acidente no qual duas mulheres morreram. Joel, que estava ao volante, foi condenado por homicídio culposo. Cumpriu a pena de um ano e oito meses em liberdade, mas rescindiu com o Santos.

Foi aí que surgiu a chance de ir para a França. A negociação não envolveu a montanha de euros de Neymar. Nem o euro existia na época. O time era pobre e ruim. Joel chegou com a fama de craque, mas cometeu o erro de reclamar dos colegas. A passagem pela França durou apenas um ano e poucos jogos.

Na volta ao Brasil, continuou com a fama de rebelde e problemático, mas por outro motivo. Foi um dos primeiros atletas negros a abordar publicamente a questão do racismo. Afirmou que foi crucificado na época do acidente por ser “preto”.

Simone confirma que o pai vendeu os troféus e medalhas da época de glórias do Santos e da seleção. Parou de jogar aos 29 anos e foi trabalhar como estivador no porto de Santos. Aposentou-se aos 55 anos. Foi a filha única quem cuidou dele até a morte precoce, em 2014, ano da Copa, de insuficiência renal.

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