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Esportes

ANTERO GRECO

Preço da fama

Neymar é frequentador de manchetes desde a época em que curtia banco no Santos porque Vanderlei Luxemburgo o considerava franzino e inapto para aguentar o tranco dos zagueiros. O Filé de Borboleta, como o definia o treinador, cresceu, encorpou e, nos últimos anos, virou protagonista pelos gols, pelos dribles, pelos cortes de cabelo (agora comportados) ou pelos produtos que a cada semana acrescenta à vasta lista de seu portfólio de garoto propaganda.

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ANTERO GRECO

05 Fevereiro 2016 | 03h00

No momento, o destaque de Neymar sai dos gramados e envereda pelo campo da Justiça, este mais complicado do que livrar-se de botinadas e caras feias de adversários. O craque do Barcelona, astro da seleção, vê o nome envolvido em acusações de fraudes e sonegações, praticadas do lado de lá e do lado de cá do Atlântico. Complicados contorcionismos financeiros e contratuais teriam sido armados para poupá-lo de pagar gordas somas para o Fisco, da Espanha e do Brasil, e também para livrá-lo de cobranças de Santos e DIS, que detinham partes de seus direitos econômicos.

O enrosco começou na Europa, com os espanhóis a suspeitar de maracutaias do Barça para tirá-lo da Vila, e por algum tempo se limitou aos cartolas gringos. Cresceu recentemente, quando os Neymares, pai e filho, foram colocados no bolo na frente hispânica e pela lente do nosso Ministério Público Federal. O caso está armado e a família tem de explicar-se para as autoridades.

Indícios não significam fatos comprovados, nem existe veredicto a respeito do assunto, tanto que a Justiça de Santos não acolheu denúncia. Como ocorre em situações semelhantes, e que envolvam personalidades, haverá discussões minuciosas, apartes, objeções, documentos a perambular por continentes e tribunais. Leviano cravar sentenças e antecipar julgamentos.

O episódio serve, no entanto, para algumas reflexões – a principal: até que ponto um atleta sabe em que aporrinhações pode meter-se no ato de transferir-se de clube? Terá conhecimento de riscos a que se expõe na hora em que castiga a assinatura na papelada? Percebe as armadilhas com as quais virá a topar, ao lhe acenarem com facilidades para receber os salários e os prêmios? Entende que, ao abrir firmas, contas bancárias, representações comerciais, ele deixa de ser apenas o habilidoso profissional do futebol para tornar-se pessoa jurídica, com obrigações amplas?

Pagar menos impostos é canto de sereia que seduz boleiros há décadas. (E não só jogadores, bom frisar.) Ouvi relatos de moços que iam jogar na Europa e abriam contas em paraísos fiscais para fugir das garras dos “Leões”. Alguns apelavam para tal recurso até para proteger-se de processos de partilha em separações. Agiam preventivamente contra a ação de marias-chuteiras.

As facilidades eram enormes, e muitos se deram bem com as manobras técnicas; bastava-lhes bom contador. Mas os ventos mudaram de direção. Não é de agora que europeus apertam na cobrança de impostos. O Brasil parece ter despertado também, e fica de olho em grandes movimentações, em vez de concentrar-se só nos bagrinhos, a maioria da população.

Jogadores de futebol têm sido alvo preferencial, pois saltam à vista os valores que giram em torno de mudanças de clubes ou de país, dos acordos publicitários. Fala-se de milhões de euros e de dólares com a naturalidade de quem vai tomar um cafezinho no boteco. E se aguça o faro do Fisco, o que é natural. Em sociedades justas, todos pagam taxas, e proporcionalmente ao que recebem. O rico paga mais, o pobre paga menos ou é isento. Ao menos deveria ser.

Ganância e egoísmo, porém, são sentimentos humanos, atávicos e permanentes. Por isso, quem mais pode, mais trata de mandar tributos para escanteio. Para tanto, aposta no próprio nome, na grana que acumula e na ação de defensores eficientes. Se for personagem popular, confia ainda nos simpatizantes, sempre dispostos a fechar os olhos para deslizes e afagá-lo no embaraço. É a fama a incentivar o erro e não a virtude.

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