Sérgio Castro/AE
Sérgio Castro/AE

Pressão do fisco levou J. Hawilla a confessar crimes

Brasileiro estava envolvido em negócios com cartolas da Fifa

Almir Leite, O Estado de S. Paulo

29 Maio 2015 | 05h00

Um dos pivôs da investigação do FBI que levou à prisão sete dirigentes da Fifa, o empresário José Hawilla aceitou fazer a delação premiada por sentir-se pressionado pelo fisco americano. Com a iniciativa, ele se livrou do risco de prisão imediata. Dono de uma das principais empresas de marketing esportivo das Américas, com sede em quatro países - entre eles os EUA- e negócios em várias partes do mundo, estava acuado.

Hawilla, de 71 anos, ouviu o conselho de alguns amigos antes de tomar a decisão. Com isso, continua vivendo nos Estados Unidos, mas pensa em vir ao Brasil cuidar dos negócios e visitar parentes e amigos. Para isso, precisará autorização.

Réu confesso, assumiu em dezembro passado culpa por extorsão, conspiração por fraude eletrônica, lavagem de dinheiro e obstrução da Justiça. E aceitou restituir US$ 151 milhões (R$ 479,8 milhões), dos quais R$ 25 milhões (R$ 79,4 milhões) já foram desembolsados. O empresário detém total ou parcialmente por meio de Traffic os direitos de transmissão e patrocínio de várias competições.

Em troca, Hawilla pode circular livremente pelo território americano, embora esteja à disposição da Justiça - e, claro, possa ser condenado à prisão ao final do processo. “Conforme o próprio termo que o departamento de Justiça (dos EUA) divulgou, ele é um réu confesso. Ele confessa, apoia as investigações e presta esclarecimentos’’, disse ontem ao Estado o advogado do empresário, José Luís de Oliveira Lima.

Aos 71 anos, Hawilla conviveu com um câncer, muito agressivo de acordo com Oliveira Lima, mas está curado. O empresário tem residência em Miami, mas no momento não estaria na cidade da Flórida. “Ele vive livremente pelos Estados Unidos. Não é verdade que foi preso, usa tornozeleira. Apenas para voltar ao Brasil precisa pegar um autorização das autoridades americanas.’’

Se retornar ao País - nesse caso não está definido quando isso vai ocorrer - e for solicitado pela Justiça brasileira a prestar esclarecimentos, Hawilla o fará imediatamente.

O advogado disse também que o dinheiro a ser pago por Hawilla é por meio da Tusa (Traffic Sports USA Inc.), empresa que não tem ligação com a Traffic brasileira.

Inimigos. O acordo feito por J. Hawilla com os empresários rendeu-lhe alguns inimigos ferrenhos, como o até então “irmão’’ Kleber Leite. O dono da Klefer, que teve a sede no Rio vasculhada pela Polícia Federal anteontem, acusou o ex-sócio de ingrato e disse que a doença deve ter lhe afetado o caráter.

Eles eram parceiros fiéis desde a década de 1970, quando trabalhavam no jornalismo, na área de esportes. Demitido da Rede Globo em São Paulo em 1979, Hawilla chegou a vender cachorro quente, até fundar a Traffic, no ano seguinte.

Começou vendendo placas publicitárias em pontos de ônibus, mas depois passou a atuar na comercialização dos direitos de TV. Em 1987, trabalhou com a Copa América.

Com a chegada de Ricardo Teixeira ao poder na CBF, em 1989, a Traffic passou a intermediar patrocínios para a entidade - participou, por exemplo, do contrato com a Nike em 1996. Tornou-se, e ainda é, influente na Conmebol e fez negócios até com a Fifa. Organizou torneios, negociou direitos de transmissão, agenciou jogadores. A Traffic tem dois times de futebol - Deportivo Brasil e Estoril (Portugal) - e até recentemente era proprietária do Fort Lauderdale Strikers, que hoje tem Ronaldo como um de seus proprietários.

Também tem total ou parcialmente direitos de transmissão e patrocínio de várias competições: Copa América, Copa do Brasil, Eliminatórias da Concacaf, Libertadores, Copa Sul-Americana e Liga Norte-Americana de Futebol.

O empresário nascido em São José do Rio Preto, fundou a TV TEM em 2003, no interior de São Paulo. Hoje, a emissora cobre 318 municípios do Estado. Em 2009, adquiriu o Diário de S. Paulo, que revendeu algum tempo depois. 

Suas empresas faturam, de acordo com o mercado, U$$ 500 milhões por ano. E seu patrimônio é estimado em pelo menos R$ 1 bilhão.

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